No litoral norte do Maranhão, um deserto maior que a cidade de São Paulo enche de água por seis meses ao ano e forma um cenário único no planeta. Os Lençóis Maranhenses reúnem dunas brancas, lagoas turquesa e reconhecimento internacional confirmado em 2024.
O reconhecimento da UNESCO que coroou um cenário sem igual no mundo
Em 26 de julho de 2024, durante a 46ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial, em Nova Délhi, o parque foi declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Foi o primeiro título dessa categoria concedido ao Brasil em 23 anos.
O reconhecimento se baseou na beleza natural, nos aspectos geomorfológicos e na riqueza ecológica da região. Segundo o Ministério do Turismo, o parque entrou para a lista mundial ao lado de destinos como o Pantanal, Fernando de Noronha e a Amazônia Central.

Um deserto que vira aquário a céu aberto seis meses por ano
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses foi criado em 1981 e ocupa 155 mil hectares, área maior que a cidade de São Paulo. Cerca de 57% do território é coberto por dunas vivas, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. As lagoas se formam quando o lençol freático sobe e a chuva preenche as bacias entre as dunas, fenômeno que ocorre principalmente entre maio e setembro.
O ecossistema fica numa zona de transição entre Cerrado, Caatinga e Amazônia. A região abriga aproximadamente 133 espécies de plantas, 112 de aves e pelo menos 42 de répteis. Quatro espécies ameaçadas de extinção encontram refúgio ali: o guará, a lontra-neotropical, o gato-do-mato e o peixe-boi-marinho. Nas lagoas, a traíra sobrevive enterrada na lama durante a seca e ressurge quando as chuvas voltam.

1.500 famílias vivem cercadas por dunas dentro do parque
Por trás do cartão-postal, os Lençóis Maranhenses guardam uma das paisagens humanas mais surpreendentes do Brasil. De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o interior da unidade abriga 68 núcleos populacionais com cerca de 1.500 famílias, integralmente cadastradas entre 2023 e 2024.
O nome Queimada dos Britos homenageia o cearense Manuel Brito, que chegou fugindo da seca há cinco décadas e formou ali uma comunidade hoje com cerca de 200 moradores, em sua maioria pescadores. Outros oásis como Baixa Grande e Betânia só são acessíveis a pé ou em veículos 4×4 autorizados, e recebem visitantes em redes armadas em casas de palha.
O que fazer no parque mais cobiçado do nordeste brasileiro?
O cenário oferece roteiros para todos os perfis, do contemplativo ao aventureiro. As principais experiências da região incluem:
- Lagoa Azul e Lagoa Bonita: passeios de meio dia em jardineiras saindo de Barreirinhas, com banho nas lagoas mais acessíveis.
- Travessia a pé: trekking de 3 a 5 dias entre Atins e Santo Amaro, com pernoite em casas de moradores.
- Passeio pelo Rio Preguiças: lanchas voadeiras descem o rio com paradas em Vassouras, no Farol de Mandacaru e em Caburé.
- Voo panorâmico: sobrevoo de avião monomotor com vista do tabuleiro de dunas e lagoas.
- Atins: vilarejo na foz do Rio Preguiças, conhecido pelo kitesurf e pelas pousadas charmosas.
- Santo Amaro do Maranhão: base alternativa com lagoas que duram mais tempo no ano e menos movimento.
A culinária local reflete a fartura do mar e dos rios da região. Os pratos mais comuns servidos nos vilarejos e em Barreirinhas são:
- Peixe na brasa: pescado fresco assado em fogão a lenha, prato clássico de Atins e dos oásis.
- Camarão na moranga: receita maranhense servida na própria abóbora, comum em pousadas.
- Arroz de cuxá: prato típico do Maranhão com vinagreira, gergelim e camarão seco.
- Caranguejo na casca: capturado nos manguezais do entorno, servido com farofa e limão.
- Galinha caipira no fogão a lenha: refeição padrão dos oásis dentro do parque.
Quem sonha em conhecer os Lençóis Maranhenses, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 106 mil visualizações, onde os apresentadores mostram um guia completo com as bases de Santo Amaro, Barreirinhas e Atins:
Qual a melhor época para ver as lagoas cheias?
O calendário define toda a experiência. As lagoas só se formam após o período chuvoso, e a janela ideal para o cartão-postal é curta. Veja como cada estação se comporta:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O parque vive um boom de visitação. Em 2024, recebeu 440 mil turistas e se tornou o sexto Parque Nacional mais visitado do país, segundo o ICMBio. A pressão pelo destino aumentou após o título da UNESCO, e a recomendação oficial é reservar com antecedência.
Como chegar aos Lençóis Maranhenses?
O ponto de partida é São Luís, capital do Maranhão, com voos regulares de várias capitais brasileiras. De lá, são cerca de 260 km até Barreirinhas pela BR-135 e MA-402, num trajeto de aproximadamente 4 horas. Santo Amaro do Maranhão fica a 240 km da capital.
Quem prefere a Rota das Emoções pode chegar pelo Aeroporto de Parnaíba, no Piauí, e seguir por terra até Paulino Neves, percurso que conecta Jericoacoara, o Delta do Parnaíba e os Lençóis. Para alcançar Atins, o caminho mais comum é uma lancha de cerca de 1h15 a partir de Barreirinhas pelo Rio Preguiças.
Vale a pena conhecer o paraíso reconhecido pelo mundo
Os Lençóis Maranhenses entregam o que poucos lugares do planeta conseguem: dunas que viram aquário, comunidades que resistem ao avanço da areia e um título da UNESCO que confirma o que os pés descalços já sabem na areia. O parque combina paisagem rara e gente que vive ali há gerações.
Você precisa atravessar de lancha pelo Rio Preguiças e mergulhar nas lagoas dos Lençóis Maranhenses pelo menos uma vez para entender por que esse pedaço do Maranhão entrou para a lista do mundo.




