Andar pelo centro histórico de Serro é entrar em outro século. Ruas de pedra, sobrados coloniais e igrejas barrocas do século 18 compõem um cenário preservado que levou o IPHAN a eleger a antiga Vila do Príncipe como o primeiro município brasileiro a ser tombado, em 1938. E se a arquitetura já seria razão suficiente para a visita, o Queijo do Serro, com mais de 300 anos de tradição e reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2024, torna a cidade única no mapa gastronômico do Brasil.
Serro foi a primeira cidade tombada do Brasil antes mesmo de Ouro Preto
Em 8 de abril de 1938, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) inscreveu o conjunto arquitetônico e urbanístico do Serro no Livro de Belas-Artes. Foi o primeiro tombamento de um município brasileiro, anterior ao de Ouro Preto e de Diamantina. A Prefeitura de Serro destaca que a cidade preserva um traçado urbano que remonta à metade do século 18, quando a então Vila do Príncipe já estava urbanisticamente definida entre os ribeirões auríferos e as encostas da Serra do Espinhaço.
A história começa em 1702, quando uma bandeira chefiada por Antônio Soares Ferreira descobriu ouro na região chamada pelos indígenas de Ivituruí, que em tupi-guarani significa algo como “vento do morro frio”. Em 1714, o arraial foi elevado a vila e tornou-se sede de uma das quatro primeiras comarcas da Capitania das Minas Gerais. Quando o ouro e os diamantes se esgotaram, a cidade ficou isolada dos novos centros econômicos e, por isso, preservou intacta sua arquitetura colonial.

Vale a pena viver no vilarejo histórico mais antigo do Brasil
Com 21.952 habitantes no Censo 2022, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Serro é uma cidade pequena de interior com ritmo lento e custo de vida baixo. A taxa de escolarização de crianças entre 6 e 14 anos chega a 97,42%, e cerca de 150 famílias vivem diretamente da renda do queijo artesanal, que responde por 60% da renda municipal, segundo dados da Secretaria de Economia do município. São produzidas cerca de 10 toneladas de queijo por dia, movimentando aproximadamente R$ 120 mil diários na economia local.
Quem busca sossego, arquitetura colonial preservada e uma ligação forte com a tradição mineira encontra no Serro um lugar fora do tempo. A cidade não tem o trânsito das cidades históricas mais visitadas de Minas Gerais e mantém uma autenticidade que desaparece onde o turismo de massa se instala.

Reconhecimento nacional e da UNESCO que coloca Serro no mundo
O Serro acumula dois títulos pioneiros no Brasil. O primeiro é o tombamento pelo IPHAN, em 1938. O segundo veio em 2002, quando o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA-MG) registrou o modo de fazer o Queijo do Serro como o primeiro bem cultural imaterial registrado por Minas Gerais. Em 2008, o IPHAN ampliou o reconhecimento ao registrar o modo de fazer o queijo minas artesanal ao nível nacional, contemplando o Serro entre as regiões produtoras.
O capítulo mais recente é também o mais expressivo: em 4 de dezembro de 2024, durante a 19ª Sessão do Comitê Intergovernamental da UNESCO, realizada em Assunção, no Paraguai, os “Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal” foram inscritos na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da organização. Foi a primeira vez que os modos de fazer um alimento brasileiro receberam esse título da UNESCO, colocando o Serro no mesmo patamar da pizza napolitana e do café árabe.
O que fazer e o que comer no vilarejo barroco da Mantiqueira
O portal de turismo da Prefeitura de Serro organiza a cidade em torno de cinco distritos, cada um com atrativos próprios. Os principais pontos turísticos para incluir no roteiro são:
- Igreja de Nossa Senhora do Carmo: joia barroca do século 18 com pintura em perspectiva nos forros, considerada pelo IPHAN uma das mais notáveis da arte religiosa colonial mineira.
- Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição: a principal da cidade, com nave ampla e acervo de arte sacra colonial preservado.
- Casa dos Ottoni e Museu Regional: sobrado histórico que abriga objetos do período colonial e conta a história política e cultural do Serro.
- Praça Dr. João Pinheiro: o coração do centro histórico, cercada de casarões coloniais e com coreto que remonta ao século 19.
- Milho Verde: distrito a 27 km da sede, localizado no topo de uma colina com vista para o vale e para o Pico do Itambé. Cenário de interior mineiro preservado e ponto de partida para trilhas.
- São Gonçalo do Rio das Pedras: distrito a 32 km, ideal para ecoturismo, com nascentes, flora medicinal e cristais naturais.
- Parque Estadual do Pico do Itambé: trilhas e picos na Serra do Espinhaço, com destaque para o Pico do Itambé a mais de 2.000 metros de altitude.
A gastronomia do Serro gira em torno do queijo artesanal e dos acompanhamentos tradicionais da mesa mineira. Os pratos e produtos que não podem ficar de fora são:
- Queijo do Serro fresco: produzido com leite cru, coalho e pingo, o fermento natural da própria dessora do queijo. Tem casca fina e sabor suave quando novo.
- Queijo maturado: com maturação mínima de 17 dias, desenvolve casca amarelada e sabor mais acentuado. Disponível nas queijarias e na Cooperativa dos Produtores Rurais.
- Requeijão preto: variedade artesanal local com características próximas ao requeijão moreno. Raridade gastronômica do Serro.
- Doce de leite artesanal: produzido pelas mesmas famílias do queijo, com leite cru integral e textura cremosa diferente do industrial.
- Marmelada e goiabada com queijo: combinação clássica da mesa serrana, servida em praticamente todos os estabelecimentos do centro histórico.
- Cachaça artesanal: produzida na zona rural do município, com bagaço de cana da região e envelhecimento em barris de madeira nativa.
Quem sonha em conhecer o Serro, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, que conta com mais de 1,3 milhão de visualizações, onde Matheus Boa Sorte mostra uma viagem completa por esse paraíso de Minas Gerais:
Quando ir ao Serro e o que esperar do clima da Serra do Espinhaço
O Serro fica acima de 700 metros de altitude e tem clima tropical de altitude, com verões chuvosos e invernos secos, com temperaturas entre 15°C e 29°C. Confira a previsão atualizada no Climatempo. Veja o que cada estação oferece:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude e os microclimas da Serra do Espinhaço.
Como chegar ao primeiro município tombado do Brasil
O Serro fica a aproximadamente 340 km de Belo Horizonte, com acesso pela MG-010, rodovia que conecta a capital à cidade histórica. O trajeto de carro leva cerca de 4 horas. A Viação Serro opera linhas regulares de ônibus a partir de Belo Horizonte. Dentro do município, é recomendável ter carro para visitar os distritos de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras, parte do acesso por estrada de terra.
A cidade que guardou o passado e ganhou o mundo pelo queijo
O Serro carrega dois títulos pioneiros no Brasil: o primeiro tombamento pelo IPHAN e o primeiro bem imaterial registrado por Minas Gerais. Com o reconhecimento da UNESCO em 2024, o queijo que nasceu nas fazendas coloniais da Serra do Espinhaço passou a integrar a lista dos patrimônios culturais mais importantes da humanidade. Tudo isso em uma cidade de ruas de pedra e menos de 22 mil habitantes.
Quem atravessa a Serra do Espinhaço até o Serro descobre que alguns lugares ficaram fora do tempo por uma razão muito boa: tinham algo demais a preservar.




