A 300 quilômetros de Fortaleza, escondida entre dunas que se movem com o vento e o mar aberto, Jericoacoara preserva ruas de areia e a ausência de postes de iluminação como uma escolha consciente de seus próprios moradores. A antiga vila de pescadores que o jornal The Washington Post revelou ao mundo em 1987 se tornou um dos destinos mais cobiçados do Brasil, mas ainda mantém o encanto de quem nunca fez questão de se parecer com uma cidade grande.
De simples comunidade pesqueira a Parque Nacional
O nome tem sua raiz no tupi yuruco cuara, que quer dizer “buraco das tartarugas”, uma referência à desova desses animais que ainda hoje acontece na praia. Os primeiros registros históricos daquela área datam do século XVII: em 1614, os portugueses construíram o Forte de Nossa Senhora do Rosário na base do serrote, com a intenção de enfrentar os piratas franceses que rondavam a costa. A vila permaneceu em uma situação de grande isolamento até a década de 1970, quando os primeiros mochileiros começaram a chegar a bordo de jardineiras adaptadas.
Em 1984, o governo federal transformou a área em Área de Proteção Ambiental (APA). Em 2002, a proteção aumentou com a criação do Parque Nacional de Jericoacoara, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Carros particulares não circulam na vila: ficam em estacionamentos na entrada, e quem se desloca vai a pé, de buggy ou em caminhonetes 4×4.

Opções de passeio em Jeri e nas redondezas
Os roteiros de passeios costumam ser divididos entre o lado leste e o lado oeste da vila. Para conhecer os principais atrativos sem a sensação de pressa, o mais indicado é separar pelo menos três dias inteiros.
- Pedra Furada: formação rochosa de cerca de 30 m de altura esculpida pela erosão do vento e do mar. Fica a 2 km da vila, acessível por trilha a pé, buggy ou cavalo. Em julho, o sol se põe exatamente no arco da pedra.
- Duna do Pôr do Sol: a oeste da vila, é o ponto de encontro diário de moradores e turistas para assistir ao sol desaparecer no oceano. A posição peninsular de Jeri permite ver tanto o nascer quanto o pôr do sol no mar.
- Lagoa do Paraíso: águas rasas e cristalinas com redes suspensas dentro d’água, a cerca de 19 km da vila. Os beach clubs à beira da lagoa servem drinks e petiscos o dia inteiro.
- Árvore da Preguiça: árvore solitária moldada pelo vento constante da região, que ganhou esse apelido pelo formato inclinado. Fica na Praia do Preá, no caminho para a Pedra Furada.
- Lagoa de Tatajuba: no lado oeste, acessível por passeio de buggy que inclui dunas, manguezais e o Rio Guriú, onde é possível avistar cavalos-marinhos.
Quem está planejando uma viagem a esse paraíso cearense vai gostar deste vídeo do canal Fabi Cassol | Minha Praia Viajar, que já ultrapassou a marca de 105 mil visualizações. Nele, Fabi Cassol apresenta um roteiro completo e cheio de dicas sobre Jericoacoara, no Ceará:
Como a vila funciona sem asfalto e sem postes?
A energia elétrica só chegou a Jericoacoara há pouco mais de 20 anos, e o fez por meio de uma rede subterrânea. Os próprios moradores decidiram, em conjunto, não instalar postes para a iluminação das ruas, como forma de preservar a beleza natural do brilho da lua e das estrelas. Durante a noite, os restaurantes iluminam suas mesas de areia com velas, e a vila adquire uma atmosfera que nenhum tipo de infraestrutura urbana moderna seria capaz de reproduzir.
Não há nenhuma agência bancária ou caixa eletrônico funcionando na vila. A orientação é que os visitantes saquem dinheiro em Jijoca, a sede do município de Jijoca de Jericoacoara, que está a 20 quilômetros de distância. Embora a grande maioria dos estabelecimentos comerciais aceite cartões, é sempre prudente ter uma quantia em dinheiro vivo para evitar qualquer tipo de imprevisto. Existe uma taxa de turismo sustentável que é cobrada no momento da entrada na vila.

Quando ir e qual o melhor período para cada passeio?
O clima se mantém quente durante todos os meses do ano, e os ventos fortes são um prato cheio para quem pratica kitesurf e windsurf. A temporada de chuvas se concentra entre janeiro e maio, período em que as lagoas da região ficam mais cheias e ainda mais bonitas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à vila entre as dunas?
O Aeroporto Regional de Jericoacoara (JJD), que se localiza no município de Cruz, está a aproximadamente 30 quilômetros da vila e recebe voos diretos partindo de capitais como São Paulo, Brasília e Belo Horizonte. Quem opta por voar até Fortaleza precisa percorrer uma distância de cerca de 300 quilômetros, utilizando a BR-222 e a BR-402 até Jijoca, em um trajeto que leva mais ou menos 4 horas de carro ou de transfer. A partir de Jijoca, os últimos 20 quilômetros devem ser feitos obrigatoriamente em veículos com tração 4×4, já que a estrada é inteiramente de areia.
Também há a opção de ônibus que saem da Rodoviária de Fortaleza com destino a Jijoca, operados por empresas de transporte da região. Os transfers, que podem ser compartilhados ou privativos, fazem o percurso completo de porta a porta e representam a alternativa mais prática para quem prefere não dirigir.
Jeri é um daqueles lugares que a memória não apaga
São poucos os lugares no mundo capazes de combinar dunas que estão sempre em movimento, lagoas de água doce cristalina, formações rochosas que têm milhares de anos e uma vila sem uma rua sequer de asfalto, onde se pode jantar com os pés na areia sob um céu intensamente estrelado. Jericoacoara se mantém fiel àquela simplicidade que a fez famosa, mesmo depois de ter se tornado um destino turístico de alcance internacional.
Você precisa subir a Duna do Pôr do Sol ao menos uma vez na vida, ficar ali até ver o sol desaparecer por completo no horizonte e, então, compreender por que tanta gente veio para Jeri e simplesmente nunca mais teve vontade de ir embora.




