Em poucas décadas, o Mar de Aral passou de um dos maiores lagos do planeta a uma fração da área original. O desvio dos rios Amu Darya e Syr Darya para irrigação acelerou o recuo desde os anos 1960, deixando dezenas de milhares de quilômetros quadrados de antigo leito expostos e formando o novo deserto de Aralkum.
Como o Mar de Aral perdeu tanta água em poucas décadas?
O Mar de Aral era alimentado principalmente pelos rios Amu Darya e Syr Darya. A partir da década de 1960, grandes volumes desses cursos foram desviados para projetos de irrigação, reduzindo drasticamente a água que chegava ao lago.
Com a entrada menor e a evaporação continuando, o nível começou a cair. A margem recuou, áreas rasas secaram primeiro e o corpo d’água se fragmentou. Em vez de um único lago contínuo, surgiram bacias separadas, com comportamentos diferentes conforme a quantidade de água ainda recebida.

Como um lago que já foi o 4º maior do mundo chegou a cerca de 10%?
A NASA Earth Observatory registra que o Mar de Aral já foi o 4º maior lago do mundo em área. Desde os anos 1960, sua superfície diminuiu para aproximadamente 10% da extensão original.
Imagens de satélite tornam essa transformação especialmente clara. Braços inteiros desapareceram, antigas ilhas passaram a se conectar ao continente e portos ficaram longe da água. O recuo também elevou a salinidade em várias áreas, alterando as condições para peixes, vegetação e atividades humanas que dependiam do lago.
De onde surgiu o novo deserto de 62 mil km²?
Quando a água recuou, o antigo fundo do lago ficou exposto ao sol e ao vento. Essa superfície passou a ser chamada de Aralkum, um dos desertos mais jovens do planeta. A área seca inclui areia, sedimentos finos e sais que antes permaneciam cobertos pela água.
A mudança pode ser resumida em três etapas:
- Desvio dos rios: menos água passou a alcançar o lago a partir dos anos 1960.
- Recuo da superfície: margens avançaram dezenas de quilômetros para dentro da antiga bacia.
- Formação do Aralkum: cerca de 62 mil km² de antigo leito passaram a compor a nova paisagem desértica.

O que acontece quando o fundo de um lago vira fonte de poeira?
O solo exposto não permanece parado. Ventos levantam sal e partículas finas, formando tempestades de poeira que atravessam a região. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento monitora milhões de hectares do antigo leito para compreender essa superfície instável e orientar ações de recuperação.
Uma das respostas tem sido plantar espécies resistentes em partes do fundo seco para ajudar a fixar sedimentos. O objetivo não é reconstruir imediatamente o lago original, mas reduzir a mobilização de poeira e limitar impactos sobre comunidades, solos agrícolas e ecossistemas próximos.
O Mar de Aral desapareceu completamente?
Não. Ainda existem porções remanescentes do sistema, especialmente ao norte e em partes da antiga bacia sul. A distribuição de água mudou muito, e alguns setores apresentam recuperação limitada graças a obras de controle hídrico, enquanto outros permaneceram extremamente reduzidos ou secam conforme as condições anuais.
O contraste entre água e deserto resume a escala da transformação. O Mar de Aral não virou simplesmente uma planície seca de uma vez: ele recuou, se fragmentou e deixou um novo ambiente onde antes havia água, convertendo uma grande crise hídrica em uma mudança permanente da paisagem regional.


