Detentor de reservas expressivas de terras raras, mas tímido minerador desse recurso, o Brasil vê o interesse internacional crescer sobre suas reservas em estados como Minas Gerais e Goiás. Mas até onde o controle da produção é estratégico, devendo ser regulado, e até onde o livre mercado pode distribuir melhor essa riqueza?
Para a presidente da Anglo American Brasil e presidente do conselho do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Ana Sanches, o investimento estrangeiro é fundamental para viabilizar as operações, mas o governo deve estar presente com controles para preservar os interesses do país.
“Acho que a gente tem, sem dúvida, um papel muito forte do governo. A gente tem que respeitar esse papel, mas a gente também tem que garantir a entrada dos recursos, dos investimentos estrangeiros que possam ajudar a alavancar todo esse potencial que a gente tem no Brasil. Tendo as políticas adequadas, os processos, as regras, as validações corretas, a gente consegue achar esse equilíbrio”, disse Sanches, em entrevista no Expo & Congresso Brasileiro de Mineração (Exposibram) 2026.
“A gente não perde a nossa soberania nacional, mas também não deixa de ter a oportunidade de entrada de capital estrangeiro, que pode acelerar ainda mais todo esse desenvolvimento”, disse a presidente do conselho do Ibram
A Anglo American não tem planos de exploração neste setor, se concentrando em cobre, ferro de alta qualidade e agricultáveis.
Mas a presidente da companhia e do conselho do Ibram acredita que uma regulação da extração e processamento das terras raras pode ajudar a ordenar, como está previsto no Projeto de Lei 2.780/2024 quê cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e aguarda votação no Senado após aprovação na Câmara.
“Só de ver avanços cada vez maiores na regularização da política que envolve os nossos processos minerários já é algo muito positivo. A gente precisa ter clareza de regras, de prazos, clareza de quais são os órgãos de competência. Tudo isso é muito positivo. É claro que tem alguns itens específicos que ainda carecem de mais discussão, de mais debate, de mais escuta, mas eu acho que a gente está caminhando para um ambiente de mais diálogo”, avalia Ana Sanches.
Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas especiais. Apesar do nome, muitos não são particularmente raros na natureza; o desafio está em encontrá-los em concentrações economicamente viáveis e, principalmente, em separá-los e processá-los.
Eles são essenciais para ímãs permanentes de alto desempenho, usados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, robôs, drones e equipamentos militares; também entram na fabricação de eletrônicos, celulares, computadores, fibras ópticas, lasers, catalisadores, baterias, equipamentos médicos, vidros e cerâmicas. Os mais estratégicos atualmente são neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais para os ímãs de alta potência.
O Brasil é hoje um dos países mais importantes do mundo em recursos e reservas de terras raras, embora ainda seja um produtor minúsculo. Pela metodologia do Serviço de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos (USGS), de 2025, o país tinha 21 milhões de toneladas de reservas em 2024, contra 44 milhões da China; o USGS estimou a produção brasileira de 2024 em apenas 20 toneladas, enquanto a China produziu 270 mil toneladas. Ou seja, o Brasil concentrava cerca de 23% das reservas mundiais, mas respondia por uma fração praticamente desprezível da produção.
Já a Agência Nacional de Mineração (ANM), utilizando as reservas provadas e prováveis declaradas pelas empresas brasileiras, chegou a 11,4 milhões de toneladas em 2024, equivalentes a 13,9% do total mundial de 81,1 milhões de toneladas considerado naquela base.
A ANM informa que as principais ocorrências brasileiras estão em Minas Gerais, Goiás, Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro e Rondônia, em diferentes tipos de depósitos. Em 2024, a ANM registrou 1.370 novos alvarás de pesquisa para ETR e monazita, crescimento de 291% em relação ao ano anterior; Bahia teve 604, Minas Gerais 321 e Goiás 231. Os investimentos em pesquisa mineral de terras raras chegaram a R$ 89,9 milhões naquele ano, 34,7% acima de 2023.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), em 2024 a China respondia por 60% da mineração mundial dos elementos de terras raras magnéticas, mas por 91% da produção refinada desses elementos. A concentração é ainda maior na fabricação de ímãs permanentes.
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A IEA calcula que a demanda pelos quatro elementos fundamentais para os ímãs — neodímio (Nd), praseodímio (Pr), disprósio (Dy) e térbio (Tb) — dobrou desde 2015 e deverá crescer mais de 30% até 2030. Ímãs permanentes já representam aproximadamente 95% do consumo de terras raras em valor. Em 2040, a IEA projeta crescimento de 50% a 60% da demanda por terras raras em relação aos níveis atuais, dependendo do cenário.
A corrida pelas terras raras brasileiras é liderada por empresas estrangeiras ou fundos de capital de risco internacionais. O foco central é a produção de Carbonato Misto de Terras Raras (MREC) — um concentrado semi refinado que ainda precisa ser exportado para as refinarias finais.
Onde estão as maiores reservas do Brasil?
No Brasil, excluindo projetos em Minas Gerais, entre os mais importantes estão o do Grupo Serra Verde, do fundo americano Denham Capital e Energy & Minerals, em Minaçu (Goiás), que é a única mina de terras raras em argilas iônicas operando em escala comercial fora da Ásia. A produção é estimada de 5 mil toneladas anuais de concentrado na primeira fase.
Em Nova Roma (Goiás), há o Projeto Carina, da Aclara Resources (Sede no Canadá, ligada ao grupo peruano Hochschild), com previsão de R$ 2,8 bilhões (US$ 576 milhões) de investimentos e produção projetada para cerca de 208t/ano de pesados e 1.190t/ano de leves, por lavra de argila iônica com reaproveitamento de 95% da água. A licença prévia está em avaliação, com expectativa de obras a partir de 2026/2027 e produção em 2028.
Na Bahia se desenvolve o Projeto Rocha da Rocha (Mina Monte Alto), nos municípios Jiquiriçá, Mutuípe, Amargosa e Camaçari. É de propriedade da Brazilian Rare Earths (BRE) — listada na Austrália, conta com capital da bilionária australiana Gina Rinehart.
O investimento é estimado em quase US$ 1 bilhão (R$ 5 bilhões) para extração interiorana e planta química em Camaçari. Estimativa de quase 6.300t/ano. A expectativa de início das obras é para 2029, com operação e comercialização a partir de 2030/2031. O foco é o altíssimo teor de elementos pesados.
Em Minas Gerais, os projetos mais importantes atualmente são em Poços de Caldas, no Sul do estado.
O mais avançado é o Projeto Caldeira da Meteoric Resources (Austrália), empresa que possui os direitos sobre dezenas de licenças de exploração e projeta investimento de US$ 500 milhões (R$ 2,8 bilhões). A produção foi projetada para ser uma das maiores do mundo ocidental em argilas iônicas.
O processo mineral também usará lixiviação para gerar o MREC (Carbonato Misto). Diferentemente de outros projetos que apenas buscam viabilidade, a Meteoric já mantém acordos de “off-take” (promessa de compra) assinados com parceiros estratégicos: a Neo Performance Materials (empresa canadense com capacidade de refino) e discussões avançadas com gigantes asiáticos ocidentalizados.
Outro empreendimento de porte no município é o Projeto Colossus, da Viridis Mining and Minerals (Austrália), que prevê 450 milhões de dólares (R$ 2,3 bilhões) em investimentos. Empresa vizinha à Meteoric, no mesmo platô vulcânico, está em fase de sondagem e apresentação de estudos iniciais ao mercado para levantar capital na bolsa australiana.
Outro empreendimento que pode significar a expansão no aproveitamento das terras raras em Minas Gerais e no Brasil é o Laboratório-Fábrica de Ímãs (LabFab), em Lagoa Santa (MG).
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Minas Gerais tenta não ser apenas exportadora de concentrado mineral. Liderado pela Codemge e governo estadual (com parcerias de empresas como a CBMM de Araxá, que produz nióbio e pesquisa extração de terras raras de rejeitos), o LabFab é a tentativa brasileira de dominar o fim da cadeia: a fabricação do ímã permanente em si.
Terras raras: por que o Brasil é estratégico
- Reservas expressivas: o país concentra uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas ainda participa de forma reduzida da produção global
- Demanda crescente: a transição energética, os veículos elétricos e a expansão da tecnologia devem ampliar o consumo desses minerais nas próximas décadas
- Domínio chinês: a China concentra grande parte da mineração, do refino e da fabricação de ímãs permanentes
- Potencial mineiro: Minas Gerais reúne alguns dos projetos mais avançados e as maiores perspectivas de expansão da exploração brasileira
- Desafio industrial: extrair o minério não basta; o principal ganho econômico está no processamento, no refino e na fabricação de produtos tecnológicos
Da jazida ao produto de alta tecnologia
- Pesquisa mineral: empresas identificam e avaliam depósitos economicamente viáveis
- Extração: os minerais são retirados e passam pelas primeiras etapas de concentração
- Processamento: os elementos precisam ser separados por processos complexos e especializados
- Produção de MREC: parte dos projetos brasileiros produz o Carbonato Misto de Terras Raras, ainda em estágio intermediário da cadeia
- Refino: os elementos individuais são purificados para aplicações industriais específicas
- Fabricação de ímãs: minerais como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio podem ser transformados em componentes de alto desempenho para tecnologias estratégicas
