SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A empresária e presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, Luiza Helena Trajano, defendeu a criação de uma lei que garanta cota de 50% para mulheres em cargos de liderança.

O pedido foi feito ao ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, no Summit Mulheres Profissões, evento organizado pelo grupo Mulheres do Brasil, liderado por ela. "Eu queria que você comprasse essa briga conosco, criando lei para isso", disse ela ao ministro.

Trajano deu início à campanha pelas cotas femininas na liderança durante o evento, que contou com presenças ilustres, como da ex-big Brother Juliette Freire, e teve a ministra do STF (Supremo Tribunal Federal), Cármen Lúcia, recebida como celebridade.

A empresária se dirigiu a Marinho no painel "No sofá com Luiza: decisões que movem o Brasil", que contou ainda com a participação de Tarciana Medeiros, presidente do Banco do Brasil, Márcia Lopes, ministra da Mulheres, e Pedro Teixeira, ministro da Micro e Pequena Empresa.

Para ela, a presença feminina em postos de comando precisa deixar de depender apenas da iniciativa das empresas e passar a ser garantida por políticas públicas. Segundo ela, se o ministro enviar o projeto de lei, o Grupo Mulheres do Brasil pretende mobilizar o Congresso Nacional para aprovar a proposta.

Trajano defendeu o trabalho como forma de a mulher se desvencilhar de violência doméstica,, falou em igualdade entre homens e mulheres e disse que não tolera assédio em sua empresa. "O trabalho dá dignidade, tira a pessoa da miséria. O trabalho é muito importante, é o que mais tira a mulher da violência."

Ao se dirigir a Marinho, afirmou que ele tem o ministério que mais tira mulheres da violência e liberta homens e mulheres, por ser a pasta do Trabalho. Ela disse que iniciou as campanhas por mulheres, especialmente contra a violência, após ter tido uma funcionária morta, há dez anos.

"Assédio tem nome. Quem pratica é demitido por justa causa", contando que em sua empresa a política é de tolerância zero às denúncias de assédio. "Quando uma mulher começa a ganhar o próprio dinheiro, ela sai do ciclo da violência."

Ao defender mulheres na liderança, Luiza afirmou que a sociedade sai beneficiada. "Nós não queremos estar contra os homens. Queremos estar junto com eles." Segundo ela, quando mulheres chegam aos cargos mais altos, costumam abrir espaço para que outras subam também.

Para ela, a importância de se ter uma lei é para garantir a mudança e ser algo permanente. "Quando tem política pública, é diferente. Não depende da Luiza nem de ninguém. Está escrito", afirmou, ao pedir que Marinho ajude a pautar o tema no governo e no Congresso.

EMPRESÁRIA CRITICA REGRAS DE CRÉDITO PARA PEQUENAS EMPRESAS

Durante o painel, Trajano criticou o chamado credit score, que impede pequenos empresários de ter financiamentos. Segundo ela, a medida está "no século passado" e precisa ser revista. "A pessoa precisa ter casa própria, precisa ter renda. Quem está empreendendo normalmente não tem esse patrimônio. Precisamos rever esse modelo para pequenas e médias empresas."

Ela também disse que é preciso descentralizar o crédito, quando o ministro Teixeira falou sobre o programa que garante empréstimos a empresas com faturamento anual de até R$ 360 mil.

Tarciana afirmou que o Banco do Brasil vem ampliando o crédito para o empreendedorismo feminino e que, dos 1,3 milhão de clientes de pequenas empresas do banco, 47% têm mulheres na liderança. Os dados apresentados por ela mostram que, nos últimos três anos, o BB liberou R$ 110 bilhões em crédito para empresas comandadas por mulheres.

Segundo Tarciana, a linha voltada ao empreendedorismo feminino tem volume de financiamentos oito vezes superior à média histórica. A executiva disse ainda que o banco está revisando os critérios de análise de crédito para pequenas e médias empresas, especialmente aquelas lideradas por mulheres, tema que, segundo ela, surgiu a partir de discussões com Trajano.

CÁRMEN LÚCIA DEFENDEU TRABALHO DIGNO E FOI OVACIONADA PELA PLATEIA

O painel que teve mais mulheres foi o da ministra Cármen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), que voltou a defender a nomeação de mulheres para suprema corte. Segundo ela, só haverá igualdade quando todas forem mulheres.

A ministra do STF defendeu o trabalho como "instrumento de dignidade", fez um pedido para que mulheres se unam contra a violência de gênero. Sua palestra foi marcada por "causos" e reflexões pessoais sobre a desigualdade, a violência contras as mulheres e os retrocessos que a sociedade vem vivendo.

"Trabalho é valor, é o que nos faz estar no mundo com o outro" e disse que o combate à discriminação depende da atuação coletiva das mulheres.

Recebida como uma celebridade, a ministra destacou a força política das mulheres ao lembrar que elas representam quase 53% do eleitorado brasileiro e podem eleger o próximo presidente e governadores em vários estados. Ela também criticou o que chamou de "fraude" dos partidos em relação ao cumprimento da cota de 30% para candidaturas femininas nas eleições.

Citando dados de feminicídio no Brasil e no mundo, afirmou que matar mulheres por serem mulheres é uma realidade que exige reação coletiva.

"Parem de nos matar porque nós resolvemos que vamos parar de morrer", disse, afirmando que quando uma mulher se vai outra fica no seu lugar e usou a Divina Comédia, de Dante Alighieri, para lembrar que os omissos também são culpados.

Ao tratar da desigualdade de gênero, ela criticou padrões impostos às mulheres desde a infância. Citou desde a cobrança estética até a escolha de roupas e calçados desconfortáveis. "Por que os sapatos dos homens são mais confortáveis que os nossos desde sempre? Porque eles iam para os caminhos da vida e nós não."

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Ao encerrar a palestra, a ministra afirmou que o preconceito é aprendido e, por isso, pode ser combatido desde a infância. "Amor se aprende, ódio se aprende", disse, defendendo uma educação baseada na igualdade entre meninos e meninas.

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