Carol Saraiva

Nomeada pela revista britânica “Women in Mining” como uma das mulheres mais influentes na mineração global, a presidente da mineradora Anglo American no Brasil, Ana Sanches, falou ao “EM Minas”, programa de entrevista da TV Alterosa em parceria com o Estado de Minas e o Portal Uai, dessa semana sobre a importância da presença feminina em cargos de liderança, principalmente em um setor tradicionalmente tão masculino. E cobrou “aumento no ritmo” dessa transformação, inclusive valorizando a diversidade como valor estratégico para as empresas.


Sobre a mineração no Brasil, Ana Sanches afirmou que há ainda um potencial a ser explorado para tornar o setor mais competitivo mundialmente, dando ênfase às riquezas naturais do país. Para alcançar tal potencial, a CEO quer um ambiente regulatório com mais segurança jurídica, acesso mais fácil a linhas de financiamento e maior previsibilidade no licenciamento ambiental. Além disso, avaliou que as cargas tributárias da mineração colocam o Brasil em desvantagem com outros países e precisam ser revisadas.


Ana, eu já vou começar te perguntando sobre como é ser presidente de uma empresa de mineração num país como o nosso.


Realmente é um grande desafio, mas também é uma grande oportunidade. É um prazer liderar uma empresa como a Anglo American, uma empresa com pessoas tão apaixonadas pelo que fazem e que vive os seus valores de uma forma muito intensa.


Você não chegou na presidência de uma hora para outra. Você está na Anglo American desde 2012. Como foi a sua trajetória dentro da mineração até chegar à presidência?


Minha trajetória profissional começou há quase 30 anos. Iniciei minha carreira em uma empresa de consultoria e auditoria chamada Arthur Andersen – que não existe mais – como trainee recém-formada. Meu primeiro curso foi Economia na UFMG. Trabalhei nessa empresa por alguns anos e também na Deloitte, outra empresa de consultoria e auditoria. Comecei minha carreira com esse background mais financeiro até entrar, há 20 anos, para a indústria do cimento, que também envolve a mineração. Atuo de forma direta ou indireta no setor de mineração há quase duas décadas. Fui para essa empresa de cimento, concreto e agregados, que se chama Holcim, e desde 2012 faço parte do time da Anglo American aqui no Brasil, em nossas operações de minério de ferro de alto teor e de níquel.


Você também teve uma passagem dentro da própria Anglo fora do Brasil antes de se tornar presidente, não foi isso?


Isso. Eu tive a oportunidade de morar na Inglaterra. A Anglo American é uma empresa global e a sede fica na cidade de Londres, no Reino Unido. Durante a pandemia, tive a oportunidade de ocupar um cargo global. Foi uma experiência maravilhosa onde eu tinha uma visão de várias commodities.


Como essa experiência em Londres e toda a sua trajetória ajudaram a construir a sua liderança hoje? Qual é o seu estilo de liderança?


Acho que foram essas várias etapas, as diferentes experiências e as pessoas com quem fui convivendo e aprendendo ao longo do caminho que resultaram na líder que sou hoje. Ao definir meu estilo de liderança, começo pelas pessoas. Sempre as tenho como o centro da minha atuação. Eu lidero para as pessoas, sobre as pessoas e com as pessoas. Estou muito próxima do time. Gosto muito de escutar, de entender e de ter essa liderança participativa.


Acredito muito no potencial humano. Ainda mais agora, em tempos de inteligência artificial, onde começamos a questionar quem vai resolver os problemas do mundo. São as pessoas. Por mais que eu aposte muito em inovação e tenha muita expectativa do que ainda está por vir, para mim o lado humano e o potencial humano – com as pessoas certas, no lugar certo, com motivação e orientação – é o que realmente nos permite alcançar resultados maravilhosos.

Além das pessoas, tenho também uma característica muito forte de liderança adaptativa. Acho que, ainda mais nos dias de hoje, se estivéssemos conversando há três semanas, talvez não trouxéssemos os temas que estamos vivendo, por exemplo, com essa guerra no Oriente Médio. O mundo está mudando tanto e as demandas são tão diferentes que isso exige uma gama de capacidades distintas das pessoas também.

Então, liderar nesse ambiente de tanta complexidade e ambiguidade exige de nós uma capacidade de desenhar cenários, levantar hipóteses e construir um "músculo geopolítico". Acho que não lideramos hoje só para "dentro de casa"; é um olho internamente e o outro ao nosso redor, no que está acontecendo no mundo, tentando antecipar o que pode vir para estarmos cada vez mais preparados para essas respostas.

Quero pegar gancho exatamente nisso para saber como está o setor da mineração com a guerra no Oriente Médio e com os conflitos geopolíticos. Como fica o setor? Há uma preocupação ou quem está na mineração tem uma vantagem nessa questão geopolítica em caso de conflitos?


Falando desse ambiente geopolítico como um todo e de como a mineração está inserida nele, de repente, vemos o setor no centro desse embate. Quando você pensa em pilares estratégicos de poder de uma nação, pensa automaticamente em tecnologia, energia, defesa e indústria. Em cada um desses pilares, não há desenvolvimento sem a mineração e os minerais – e não apenas os minerais críticos que estão em voga, como as terras raras, mas os minerais como um todo. Na civilização moderna, 100% de tudo o que olhamos ao nosso redor tem mineração.


Quando olhamos para o futuro e para os desafios crescentes que a sociedade viverá daqui para frente – como a urgência de soluções para a transição energética, o tema da defesa e como alimentar o mundo –, tudo passa pela mineração. Passa por garantir, para cada país, o seu fornecimento e a sua cadeia de suprimentos.


É aí que vem a grande oportunidade para o Brasil. Somos um país cuja mineração é uma das principais atividades econômicas, não só no nosso estado de Minas Gerais, mas no Brasil como um todo. Vale lembrar, que só conhecemos cerca de 27% do mapeamento geológico do solo brasileiro. E, com apenas esses 27%, já vemos a riqueza que temos em diversos minerais, incluindo os críticos e estratégicos para esse futuro.


Pegando o gancho no que você tem dito, você acha que o Brasil precisaria ser melhor explorado dentro da mineração? Ele é o quinto maior país em mineração, não é?

O Brasil tem potencial para estar em uma posição muito mais competitiva do que a que ocupamos hoje. Quando você pensa na riqueza mineral que já conhecemos, como eu mencionei, e em tudo o que possuímos, nós temos uma vantagem comparativa em relação a outros países. O que precisamos é transformar essa vantagem comparativa em vantagem competitiva.


Se tivéssemos um ambiente regulatório que nos permitisse maior segurança jurídica; se tivéssemos mais acesso a linhas de financiamento para fomentar uma mineração responsável e sustentável; se tivéssemos uma maior previsibilidade nos nossos processos de licenciamento ambiental e uma estrutura de custos – o “Custo Brasil” – que nos permitisse ser mais produtivos, nós poderíamos, sim, explorar todo esse potencial minerário que o Brasil tem. E teríamos, consequentemente, muito mais visibilidade.


Agora quero começar a falar obre o fato de você, como mulher, ser presidente e ocupar esse cargo de liderança. Se falarmos do setor de mineração, os cargos de liderança são predominantemente ocupados por homens, e você surge como uma inspiração. Você acha que já existe uma transformação de mentalidade?


Eu acho que a minha presença no cargo de liderança, em uma empresa de um setor tradicionalmente tão masculino, já é um sinal de transformação. Começamos a ver cada vez mais mulheres ocupando cargos importantes de liderança, não só na mineração, mas em outros setores que também têm essa tradição masculina.


Porém, o que eu acho é que o ritmo dessa transformação precisa aumentar; temos que acelerar. E não é porque é politicamente correto, é porque existe um caso de negócio, um business case, uma estratégia. Quando pensamos na diversidade de opiniões e na força que essa diversidade traz, isso gera resultado para o negócio. Então, quebrar essas barreiras e criar um ambiente onde cada um – independente do seu gênero ou das suas características – é convidado a dar o seu melhor e atuar da melhor forma, faz com que o negócio saia ganhando.


Acredito muito na força da diversidade. O que eu puder fazer para servir de inspiração e mostrar para outras mulheres que é possível, sim – porque lugar de mulher é onde ela quiser estar –, com certeza continuarei fazendo.


Em 2019, você foi nomeada a mulher mais influente do setor de mineração e, em 2024, reconhecida como uma das mulheres mais inspiradoras do setor. Receber prêmios como esses é extremamente expressivo, não é?


Quando recebo um prêmio como esse eu me sinto muito homenageada. Mas sinto que, ao recebê-lo, estou fazendo isso em nome de várias outras mulheres, representando essa força feminina que pode ir além do que se espera quando lhe é dada a oportunidade. Representa também aqueles homens que acreditam que não estamos ali para competir; não é sobre homem competindo com mulher ou vice-versa, é sobre a força do coletivo. É a beleza da força do coletivo. Realmente é uma homenagem que recebo de braços abertos, mas em nome de várias outras pessoas.


Desde que você assumiu a presidência, o que você considera que mudou no processo de gestão da empresa no Brasil?


A Anglo American é uma empresa que tem um DNA muito forte de valores e de sustentabilidade. É algo que vai além do discurso; está na prática, no nosso pensamento estratégico e na nossa tomada de decisões do dia a dia. É fazer o que é certo pensando no meio ambiente, nas comunidades e de uma forma muito íntegra e transparente. Eu assumi a liderança para dar continuidade a um trabalho muito bem-feito que já vem acontecendo há muitos anos. A Anglo American está no Brasil há quase 50 anos e é uma empresa global de mais de 100 anos. São pilares muito sólidos. Meu papel é fortalecer tudo isso, trazendo as pessoas para essa caminhada e garantindo que o nosso compromisso com uma mineração sustentável, responsável e transparente seja reforçado.


Eu ia perguntar exatamente sobre isso, porque a Anglo American possui cobre, minério de ferro premium e nutrientes agrícolas, certo? Como está o portfólio hoje?


Durante muitos anos, a Anglo American foi conhecida como uma empresa muito diversificada; tínhamos vários outros ativos no portfólio. Nos últimos anos, passamos por uma revisão estratégica, simplificando o portfólio e focando em cobre, minério de ferro de alto teor e fertilizantes. Esses são os três focos estratégicos daqui para frente. Os outros ativos passaram por um processo de venda, e o níquel é um deles. Temos operação de ferroníquel aqui no Brasil e, como ele não está dentro desse novo portfólio estratégico revisado, iniciamos o processo de colocar esse ativo à venda.


E qual é a preocupação da empresa com energia renovável e sustentabilidade? Qual é o direcionamento da Anglo American?


A sustentabilidade realmente faz parte do nosso DNA e do nosso pilar estratégico. Tudo começa pelo produto. O nosso minério de ferro premium é de alto teor, com baixo nível de impurezas, sendo muito utilizado na indústria do aço verde porque contribui para a redução da emissão de gás carbônico. Ele já apoia diretamente o tema da transição energética.


Além disso, temos várias outras frentes de sustentabilidade ambiental e de relação social com as comunidades. Para citar alguns exemplos: desde que começamos a operação de minério de ferro, já realizamos quase 1 bilhão de reais em investimentos sociais. Firmamos há pouco tempo um acordo de 500 milhões de reais com a prefeitura de Conceição do Mato Dentro – um acordo voluntário entre mineradora e prefeitura para apoiar a infraestrutura e a educação.


Como você vê a mineração e a Anglo American para os próximos 10 anos aqui no Brasil.


Eu vejo que a mineração precisa seguir se transformando. Acho que o setor tem que buscar cada vez mais inovação e desenvolvimento tecnológico para que seja uma atividade de impacto cada vez menor; que seja vista pela sociedade como algo essencial, mas que seus impactos sejam menos percebidos. Que ela seja cada vez mais inclusiva para trazer as pessoas para perto e que atuemos como setor no combate à mineração ilegal – aquela que não tem sustentabilidade nem responsabilidade. O objetivo é termos longevidade, contribuindo para a sociedade de forma responsável e sustentável.


O que você diria para as mulheres que estão se formando agora e que se inspiram em você para chegar à presidência? O que você diria para essas mulheres, para essas jovens que estão começando agora?


Eu diria para acreditarem no potencial que cada uma guarda dentro de si. Independentemente do que possam escutar, de terem pessoas no caminho dizendo “isso não é para você” ou “você não vai dar conta”. Lembro que, quando tive meu primeiro filho, há 21 anos, escutei de muitos: “Você vai se arrepender, não vai dar conta”. Mas eu tinha um exemplo dentro de casa de que era possível. Minha mãe teve quatro filhos – eu sou a caçula – e entrou na faculdade aos 17 anos para cursar Odontologia na UFMG. Ela passou a vida toda trabalhando, criando os quatro filhos, realizando-se profissionalmente e como mãe. Vendo a forma como fui criada, acreditei que é possível o “e”, não precisa ser o “ou”, desde que seja o desejo da pessoa.

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Acreditem que vocês podem ser o que quiserem. Não desistam com a primeira pedra que aparecer, porque aparecerão muitas. A cada pedra, é cair, sacudir a poeira e já levantar. É preciso ter resiliência e determinação. Eu acredito muito nisso.

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