O ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), disse que “não vale a pena” uma greve dos caminhoneiros. Em entrevista ao jornal O Globo, ele disse acreditar que não há um movimento espontâneo para a paralisação, em meio a pessoas com “interesses difusos” e envolvimento de políticos, depois do anúncio de medidas federais para evitar a mobilização do grupo.

O movimento está sendo liderado pelo presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como "Chorão". Em vídeo publicado nas redes sociais, ele afirmou que a categoria concordou com uma mobilização após uma reunião com lideranças e trabalhadores do setor no Porto de Santos (SP). Porém, na quinta-feira (19), foi anunciado que os grupos decidiram adiar por pelo menos sete dias a paralisação.

“As condições atuais, com os constantes aumentos no preço do combustível, não permitem manter o transporte rodando. Estamos em estado de alerta”, afirmou.

Na quarta-feira (18/3), o ministro anunciou medidas para tentar evitar uma nova greve da categoria, em meio a uma alta do preço do diesel e uma iminente crise do abastecimento. Entre elas, estão a fiscalização de todos os fretes do Brasil de forma eletrônica e a punição de empresas que descumprirem a tabela de frete mínimo.

Segundo ele, as empresas que descumprirem o pagamento do valor mínimo podem ser impedidas de contratar fretes temporariamente ou até mesmo ter o registro cancelado. As medidas foram descritas em uma medida provisória que também estabelece uma multa de R$ 10 milhões por operação em caso de descumprimento reiterado.

Outra medida anunciada pelo Governo Federal é a articulação de uma força-tarefa com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), Procons estaduais e o Ministério da Justiça para fiscalizar possíveis aumentos abusivos nos preços do diesel. A ação foi motivada por relatos de reajustes considerados desproporcionais em diferentes regiões, mesmo após medidas adotadas pelo governo para reduzir o custo do combustível.

Além disso, o pacote anunciado incluiu uma tentativa de amortecer o impacto da alta internacional do petróleo por meio de subsídios e desonerações. A redução de tributos federais sobre o diesel já havia sido anunciada pelo governo, mas a queda dos preços não chegou às bombas, o que intensificou a pressão dos caminhoneiros.

Em conversa com O Globo, Renan Filho afirmou que as medidas “distensionaram muito” a tensão com os caminhoneiros. “Agora, o preço do petróleo é um complicador externo. Num ambiente de guerra, o preço do petróleo sobe, e isso afeta o mundo inteiro, vai afetar o Brasil também. Acho que não vale a pena para o caminhoneiro fazer greve”, afirmou.

O chefe da pasta afirmou que as grandes corporações são quem mais deixam de pagar o frete mínimo. Segundo Renan, a multa que já era aplicada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) era considerada custo operacional e não surtia o efeito desejado.

“O cara paga e continua não cumprindo porque talvez seja mais vantajoso do que cumprir. A medida provisória traz proporcionalidade. Inicia-se com medidas de menor impacto, verifica-se se a empresa é reincidente e, em caso de reincidência, verifica-se o dolo”, explicou. Nestes casos, a empresa pode ter registro cassado, com responsabilização dos sócios da companhia.

Reação da categoria

Para Chorão, a fiscalização eletrônica é um “ganho para a categoria”. “Eu vejo como um grande avanço, que endurece a fiscalização, e a gente vem trabalhando há mais de 8 anos para conquistar isso”, disse em novo vídeo publicado nas redes. Ele também afirmou que, apesar disso, os caminhoneiros continuam em alerta e planejam novas reuniões em Brasília, com todas as lideranças, para a ampliação de emendas na Medida Provisória 1343: “Agora, vamos trabalhar em conjunto para colocar emendas dentro da MP e proteger a categoria. Temos uma semana. Precisamos do apoio de todos”, afirmou.

Nas redes, a categoria não viu o apoio com bons olhos: “Afrouxaram, Chorão? Ou será que molharam as mãos das lideranças?, comentou uma pessoa. “Afrouxaram, enquanto isso o diesel arrancando milhões dos bolos dos caminhoneiros!!! Essa novela a gente já sabe o final!!!”, disse outra.

Tentativa de redução do diesel

Na entrevista, o ministro dos Transportes também comentou sobre as medidas anunciadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para reduzir o impacto da alta do diesel no país, em meio a alta internacional com a escalada das tensões no Oriente Médio envolvendo os Estados Unidos, Israel e Irã. Além do custo do transporte, o aumento do preço do combustível afeta as cargas transportadas e reflete em itens como alimentos, medicamentos e outros insumos essenciais.

Conforme anunciado em 12 de março, o pacote inclui redução de impostos e criação de subsídio ao combustível, com impacto estimado de R$ 30 bilhões nas contas públicas até o final de 2026.

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Para Renan Filho, a ação do governo teve como objetivo evitar um impacto no “custo de tudo” e a redução do poder de compra da população. “Se o governo retirou o tributo, obrigatoriamente o mercado tem que repassar a redução do tributo. Senão, ele privatiza o tributo. A única coisa que ele não pode fazer é querer ficar com um tributo que era público e agora virar margem de lucro. Aí é a mesma coisa do frete: o cara não paga a tabela, e o preço abaixo vira margem para ele. Com relação à questão fiscal, faz sentido discutir”, afirmou.

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