De volta para casa Parte 3 - final

Zé Brasil e a história do algodão que ressuscitou no Norte de Minas

Agricultor expulso pela seca e por praga do algodoeiro retorna e prospera plantando a mesma fibra. Com novas tecnologias, cultura vira referência internacional

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Catuti – Até a década de 1980, o Norte de Minas viveu o período áureo do algodão, mas a cultura entrou em decadência por causa da chegada da praga do bicudo do algodoeiro e da falta de chuvas. Centenas de pequenos agricultores se viram então obrigados a deixar o sertão norte-mineiro à procura do sustento. Um deles foi José Alves de Souza, o Zé Brasil, hoje com 57 anos, que começou a correr trecho pela primeira vez ainda na juventude e trabalhou em diferentes lugares. Mas hoje ele faz parte do contingente cada vez maior de ex-retirantes que voltaram para casa: na comunidade de Ferraz, no município de Catuti, atualmente ele leva vida bem mais tranquila, curiosamente produzindo a mesma fibra com alto índice de produtividade.

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Zé Brasil faz parte do Projeto de Retomada do Algodão do Norte de Minas, implementado em 2006 pela Cooperativa dos Produtores Rurais de Catuti (Coopercat), com o emprego de novas técnicas e o uso racional da água, na superação das adversidades climáticas no semiárido. A iniciativa envolve 40 pequenos agricultores, que, juntos, plantaram neste ano, cerca de 300 hectares. Eles vêm alcançando uma produtividade média acima de 250 arrobas por hectare.

O programa se tornou referência internacional sobre cultivo do algodão como modelo para garantir a atividade familiar e a convivência com a seca. Por isso, já recebeu visitas de missões de 12 países da África – Moçambique, Senegal, Camarões, Costa do Marfim, Malawi, Burundi, Tanzânia, Zimbabwe, Mali, Guiné, Benin e Burquina Fasso –, além de representantes de países latindo americanos como Bolívia, Paraguai, Colômbia e Peru. Os visitantes conheceram as novas práticas no Centro de Difusão de Tecnologias Algodoeiras (Ceditac), criado em Catuti com o objetivo de gerar e difundir tecnologias para agricultores familiares.

Zé Brasil conta que trabalhava com o pai, que plantava algodão e criava “umas vaquinhas” no Norte de Minas. Mas, com os prejuízos da falta de chuva, no fim da década de 1980, aos 20 anos de idade, ele migrou para o Paraná, onde arrumou emprego de operário em uma indústria de máquinas de lavar roupa. Depois de um ano e meio, retornou à região de Catuti na tentativa de plantar algodão na pequena gleba da família. Mas, diante da seca impiedosa e dos prejuízos da praga do bicudo, já casado, viu a necessidade de ir para longe para conseguir emprego e renda.

Eu gosto é da roça”

Ele conta que, por vários anos seguidos, além de tentar o plantio de lavouras na época das chuvas, saía para trabalhar de fora de maneira temporária, deixando no lar a mulher, Azeli Antunes de Souza, com quem se casou em junho de 1991. Nessas idas e vindas, labutou no árduo serviço de corte de cana em Miguelópolis (SP) e na colheita de café no município de Serra do Salitre (no Triângulo Mineiro), por um curto período. Também, em certa ocasião, viajou para ganhar a vida como pedreiro em Rio Claro (SP).

Zé Brasil relata que depois de ganhar algum dinheiro em lugares distantes, voltou para Catuti e começou a plantar novamente. “Eu não tinha estudo e gosto é da roça”, afirma, acrescentando que se fixou de vez no lugar de origem, sem precisar de se ausentar de casa uma parte do ano, a partir de 2006, quando se engajou no projeto de retomada do algodão e passou a conduzir a lavoura adotando novas tecnologias e o uso racional da água.

Esse projeto é muito importante para garantir o nosso trabalho na terra. Aqui, não dá para ganhar muito, mas estou trabalhando para mim mesmo e tirando uma renda para sobreviver perto da família”, afirma o ex-migrante. “Antes, quando saía para trabalhar, eu trouxe um dinheirinho, mas que nunca deu para construir um futuro”, ressalta.

A multiplicação da lavoura

Com resultados de seu suor e das colheitas de algodão, Zé Brasil multiplicou o tamanho de sua propriedade, adquiriu 15 hectares, expandindo a propriedade que antes tinha apenas 4,5 hectares. Também celebra como vitória o fato de ter conseguido criar e proporcionar formação superior às três filhas: Fernanda, de 33; Patrícia, de 30; e Adriana, de 27.

Vale a pena trabalhar perto da família. A gente pode não ter mordomia, mas vive em paz”, comemora o agricultor. Neste ano, o ex- migrante plantou 3,5 hectares de algodão com novas tecnologias e, quando falta água da chuva, recorre à irrigação racional, usando água de um tanque de geomembrana com capacidade para acumular 1 milhão de litros. Ele espera uma produtividade entre 150 e 200 arrobas por hectare. “Mas já penso em conseguir uma produtividade de 230 arrobas por hectare”, lembra.

Expulsos pela seca

A gente foi obrigado a sair por falta de recursos. Com a seca, a agricultura não estava mais rentável”, afirma Maurício Santos Lopes, ao explicar porque deixou Catuti, no Norte de Minas, sua terra natal, em 2002. Ele retornou ao lugar em 2021, após 19 anos de ausência. Agora, pretende investir na lavoura algodoeira, com a aplicação de novas tecnologias e do uso racional da água na irrigação, dentro do Projeto de Retomada do Algodão no Norte de Minas.

Maurício revela que permaneceu em São Paulo por 16 anos, período em que trabalhou na indústria, na qual entrou como operador de máquinas e subiu de posto, chegando a encarregado. Em 2018, se transferiu para o Montes Claros, cidade polo do Norte de Minas, onde montou uma loja de componentes eletrônicos. Em 2021, retornou a Catuti e voltou a atuar na agricultura e pecuária.

O ex-migrante diz que o seu objetivo agora é investir na agricultura familiar, para seguir o legado do seu pai, Custódio Lopes Martins, falecido em outubro de 2025, que sempre foi produtor rural e incentivou os filhos a atuarem na mesma área.

Agora temos uma nova visão sobre a agricultura, que ela pode ser uma boa fonte de renda na região”, disse Maurício, citando os “recordes de produtividade” do algodão irrigado com o uso de novas técnicas. “Hoje, a agricultura aqui é rentável. Mas, por causa da seca, o custo de produção é maior. Então, em qualquer cultura, tem que usar tecnologia, de maneira sustentável. A pessoa tem que ter curso, aprender a usar energia solar e aproveitar melhor a água”, comenta.

Tranquilidade e volta às origens

Pai de dois filhos, Tiago, de 8, e Geovana, de 7, Maurício ressalta que um fator que fez com trocar o grande centro pela pequena cidade foi a tranquilidade do lugar onde nasceu. “A cidade é acolhedora. Aqui tem tranquilidade. Não tem roubo, não tem furto, não tem assalto. Todo mundo se conhece”, diz o produtor rural.

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Para Maurício, a maioria das pessoas que se mudaram para os grandes centros hoje querem pegar o caminho de volta. “Acho que falta mais incentivo para gerar emprego e para a agricultura familiar aqui. Acho que se tivesse mais apoio para as pessoas trabalharem e empreenderem na cidade, 60% do pessoal que foi embora voltaria para o lugar de origem”, opina.

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