Nas marés que beijam a praia, ela se aproxima. Nas águas tranquilas de uma lagoa, ela repousa. Nas correntezas dos rios, ela se manifesta. Está no orvalho da manhã, na chuva que cai ao entardecer e também nas lágrimas — de alegria pelo nascimento de um filho ou da saudade de um amor que partiu. Com seu espelho, colares de conchas e adornos de pérolas, Iemanjá é reverenciada como a Rainha das Águas, símbolo da maternidade, da proteção, da fertilidade e da força criadora.
Grande Mãe, Senhora dos Oceanos e fonte da criação, Iemanjá é venerada como a Orixá que envolve seus filhos em amor, concede amparo, fortalece a esperança e conduz à renovação espiritual. Seu colo é abrigo para os aflitos. Seu manto é paz para os corações inquietos. Suas águas lavam as dores, fortalecem a esperança e conduzem cada filho e cada filha aos caminhos do equilíbrio espiritual.
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Grande Mãe das Águas
Iemanjá é venerada como a Orixá que envolve seus filhos em amor, concede amparo, fortalece a esperança e conduz à renovação espiritual
"Odoyá!" É com essa saudação que filhos e filhas de santo invocam a presença da Grande Mãe das Águas, reverenciando aquela que acolhe, protege e renova a vida. Rainha dos mares, rios, lagoas e de todas as águas, Iemanjá será homenageada em uma grande celebração de fé e ancestralidade no próximo sábado, 1º de agosto, durante o 3º Cortejo de Iemanjá, na orla da Lagoa Central, em Lagoa Santa.
Celebração sagrada vai contar com a presença dos filhos e filhas de 30 casas afro-indígenas da cidade e da região, que caminharão juntos em uma manifestação de profunda espiritualidade, marcada pelo som dos atabaques, pelos cânticos sagrados, pelas flores, pelas oferendas e pela reverência à divindade que, há gerações, guia aqueles que encontram nas águas um caminho de fé.
Mais do que um evento religioso, o cortejo na Praça Lagoa Central (Horto) representa um chamado à união, ao respeito e à preservação de uma herança espiritual que atravessou o oceano com os povos africanos e permanece viva nas comunidades de terreiro. Cada passo do cortejo será também um gesto de resistência, de memória e de gratidão aos ancestrais que mantiveram acesa a chama dessa tradição, mesmo diante da intolerância e da perseguição.
A Grande Mãe da tradição iorubá
O cortejo na Praça Lagoa Central (Horto) representa um chamado à união, ao respeito e à preservação de uma herança espiritual
Na cosmologia iorubá, Iemanjá ocupa um lugar de profundo respeito. Seu nome deriva da expressão "Yèyé omo ejá", que significa "Mãe cujos filhos são peixes", uma referência ao seu poder gerador e ao cuidado com toda a criação.
Ela é reconhecida como a mãe de muitos orixás, guardiã da maternidade, da fertilidade, da família e das águas que sustentam a vida. Para aqueles que caminham na Umbanda e no Candomblé, Iemanjá representa o amor incondicional, a acolhida sem julgamento e a sabedoria que conduz seus filhos nos momentos de dor e transformação.
As águas consagradas à Rainha do Mar não são apenas elementos da natureza. São espaços de cura, de purificação e de renascimento espiritual, onde muitos depositam suas preces, agradecimentos e pedidos de proteção.
A fé que atravessou o Atlântico
Quando homens e mulheres africanos foram arrancados de sua terra e trazidos à força para o Brasil, também trouxeram consigo seus orixás, seus cantos, suas rezas e sua memória ancestral.
Impedidos de professar livremente sua religião, encontraram no sincretismo uma forma de preservar aquilo que era sagrado. Iemanjá passou a ser associada à Virgem Maria, permitindo que sua devoção sobrevivesse ao tempo, à violência e ao silêncio imposto pela escravidão.
Hoje, cada toque de tambor, cada ponto cantado e cada flor lançada às águas reafirmam que essa espiritualidade permaneceu viva, transmitida de geração em geração pela oralidade, pelos rituais e pelo compromisso com os ancestrais.
Um chamado da ancestralidade
O Cortejo para Iemanjá é um convite para contemplar a força do sagrado presente na natureza e reconhecer que as águas são fonte de vida
Para o sacerdote Pai Erlon Câmara, do Templo Cabana Caboclo Pedra Branca, o Cortejo para Iemanjá representa um reencontro com a própria história.
"Falar do cortejo de Iemanjá é falar de ancestralidade. O culto à Rainha das Águas chegou ao Brasil com os africanos escravizados, que foram proibidos durante séculos de praticar sua religião. Como forma de sobrevivência, passaram a homenagear Nossa Senhora, estabelecendo o sincretismo com Iemanjá. Hoje, realizar esse cortejo não é apenas resgatar esse tempo perdido. É reverenciar nossas práticas, nossos cantos, nossa oralidade, nossa culinária e todos os elementos da nossa cultura que resistiram. É dizer que estamos vivos, presentes e que nossa fé merece ser celebrada com intensidade e verdade."
Para o sacerdote, cada batida do atabaque ecoa a voz dos ancestrais. Cada cântico fortalece a corrente espiritual que une passado, presente e futuro. Cada filho de santo que caminha no cortejo leva consigo a responsabilidade de manter viva uma tradição sagrada construída por inúmeras gerações.
Programação
13h - Abertura e início da feira de empreendedores sociais
15h - Receptivo de autoridades e lideranças espirituais
16h30 - Cortejo para Iemanjá
18h30 - Show artístico “Meu Samba é Reza” com Luter Nguzuale
Instituto de Saberes Ancestrais (ISA)
O 3º Cortejo de Iemanjá é realizado pelo Instituto de Saberes Ancestrais (ISA), com apoio da Prefeitura de Lagoa Santa, reafirmando o compromisso com a valorização das tradições de matriz africana, da ancestralidade e da diversidade cultural. A entidade também foi responsável pela realização da 2ª edição do Tambores Ancestrais, promovida em 30 de maio, na Arena Multiuso (Poliesportivo de Lagoa Santa), evento que reuniu comunidades de terreiro, apresentações culturais e manifestações de fé, consolidando-se como um importante espaço de preservação e fortalecimento da cultura afro-brasileira no município.
Quando as águas recebem as orações
Ao cair da tarde, a Lagoa Central voltará a ser um grande templo a céu aberto. As flores tocarão as águas levando consigo pedidos de paz, saúde, proteção e prosperidade. Os tambores vão dialogar com o vento. As velas vão iluminar o espelho da lagoa enquanto os cânticos serão elevados às preces daqueles que reconhecem em Iemanjá a mãe que acolhe sem distinção.
O Cortejo para Iemanjá é um convite para contemplar a força do sagrado presente na natureza e reconhecer que as águas são fonte de vida, memória e renovação.
Porque, para quem crê, Iemanjá nunca está distante.
Ela está onde nasce um rio.
Onde cai a chuva.
Onde uma mãe embala seu filho.
Onde uma lágrima encontra consolo.
E onde houver água, haverá sempre um caminho para que sua bênção alcance aqueles que caminham sob seu manto de amor e proteção.
Serviço
Dia:1º de agosto
Horário: A partir das 13h
Local: Praça Lagoa Central (Horto) – Lagoa Santa/MG
Evento gratuito e aberto ao público.
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Vista-se de branco, leve sua energia de paz e caminhe em homenagem à Rainha do Mar. Que as águas sagradas lavem os caminhos e fortaleça os laços de respeito, união e ancestralidade
