"Exu e Pombagira olham para frente. Onde muitos veem o horizonte, eles veem caminhos. Onde muitos veem o amanhã, eles veem possibilidades."

A mensagem divulgada pela Cabana Caboclo Pedra Branca resume o espírito do 1º Samba para Exu e Pombagira de Lagoa Santa, que será realizado no próximo dia 20 de junho, a partir das 14h, em Lagoa Santa. O encontro reunirá dirigentes espirituais, filhos de santo, frequentadores e admiradores da cultura afro-brasileira em uma celebração marcada pela fé, pelo respeito e pela valorização da ancestralidade.

Mais do que uma festividade, o evento propõe um espaço de diálogo sobre Exu e Pombagira, entidades frequentemente cercadas pela desinformação e pelo preconceito. Em tempos em que a intolerância religiosa ainda faz parte da realidade de muitos praticantes das religiões de matriz africana, o samba surge como expressão de resistência, acolhimento e preservação cultural.


Quem é Exu na Umbanda?

Entre as entidades mais conhecidas da Umbanda, Exu talvez seja também a mais incompreendida. Frequentemente associado, de forma equivocada, à figura do diabo, Exu ocupa, na verdade, uma função essencial dentro da religião.

Na Umbanda, Exu é guardião dos caminhos, executor da lei divina e protetor daqueles que buscam auxílio espiritual. Atua na abertura de caminhos, na defesa contra energias negativas e no equilíbrio das forças que regem a vida humana.

Exu representa o movimento. É a energia que impulsiona as transformações necessárias para o crescimento espiritual e material. Simbolicamente, está presente nas encruzilhadas — não como um lugar de perdição, mas como o espaço das escolhas e do livre-arbítrio.

É ele quem ensina que toda decisão gera consequências e que cada pessoa é responsável pelos caminhos que decide trilhar.

Nanã e Santa Maria: Nanã é vista como uma figura idosa, reverenciada como uma mãe ancestral que traz sabedoria e experiência. Já Santa Maria, conhecida como Nossa Senhora, é a figura materna central na tradição católica, sendo a mãe de Jesus Cristo. Reprodução
Logun Edé e São Miguel Arcanjo: Logun Edé é associado à beleza, à riqueza, à abundância e ao encanto. São Miguel Arcanjo, por sua vez, é um arcanjo da tradição cristã frequentemente considerado um líder celestial, um guerreiro e um protetor contra as forças do mal. Reprodução e Rafael Sanzio - Wikimédia Commons
Oxumaré e São Bartolomeu: Ambos são vistos como figuras masculinas benevolentes e compassivas e estão associados à mudança e à transformação na vida das pessoas. Reprodução
Oxum e Nossa Senhora da Conceição: Oxum é uma Orixá reverenciada como uma mãe espiritual, protetora das crianças e guardiã das águas doces. Nossa Senhora da Conceição é uma devoção católica à Maria, mãe de Jesus, e é considerada a padroeira do Brasil. Joseph Nunes e Bartolomé Esteban Murillo - Wikimédia Commons
Ossaim e Roque: Ambos são vistos como figuras benevolentes e compassivas e estão frequentemente associados à cura. Ossaim é invocado para curar doenças e para promover a saúde e o bem-estar. São Roque, por sua vez, é conhecido como o padroeiro dos doentes e dos peregrinos. Reprodução
Xangô e São Jerônimo: Os dois são vistos como figuras poderosas e justas, e ambos estão associados ao fogo. Xangô também é associado à justiça, enquanto São Jerônimo é associado à educação. Reprodução
Iansã e Santa Bárbara: Iansã é associada aos ventos, às tempestades, ao fogo e à transformação. Já Santa Bárbara é conhecida como protetora contra raios e trovões, além de ser invocada para a proteção em momentos de perigo. Reprodução
Ibeji e São Cosme e Damião: São duas divindades que estão associadas à infância, à proteção e à cura. Ibeji é reverenciado como protetor e cuidador das crianças, enquanto São Cosme e São Damião eram médicos e dedicavam suas vidas a cuidar dos doentes e necessitados. Reprodução
Oxalá e Jesus: Oxalá é considerado o Orixá supremo, muitas vezes referido como "Pai de Todos". Ele é associado à criação, à paz, à harmonia e à sabedoria, assim como Jesus Cristo. Ambos são vistos como salvadores. Reprodução
Oxóssi e São Sebastião: As duas divindades estão associadas à natureza, à caça e à proteção. Oxóssi é considerado o Orixá das matas, das florestas, dos animais selvagens e da caça. São Sebastião é conhecido como o padroeiro dos arqueiros, dos caçadores e dos atletas. Reprodução e Site Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro
Ogum e São Jorge: São duas divindades que estão associadas à guerra, à proteção e à força. Ogum é um orixá do Candomblé e da Umbanda, e é o orixá da guerra, da metalurgia, da tecnologia e dos caminhos. São Jorge é um santo católico, um dos mais populares do Brasil. Reprodução
"Engana-se quem associa Exu a coisas maléficas. Ele é uma entidade complexa brincalhona, como o ser humano. Traz essa mistura de bom e ruim, pecado e santidade. Exu é quem abre os caminhos, é quem traz prosperidade. Um guardião de todos os orixás e da gente", disseram os carnavalescos. Sailko - wikimedia commons
Exu é uma divindade frequentemente confundida com o Diabo. Por isso, a Grande Rio, no carnaval de 2023, tentou desmistificar a figura do orixá com o enredo 'Fala, Majeté! Sete chaves de Exu" O ator Demerson D'Alvaro interpretou Exu na comissão de frente e fez sucesso. Reprodução/TV Globo
A igreja do Bonfim, situada no bairro de mesmo nome, foi construída como um santuário para abrigar essa imagem, tornando-se um local de peregrinação e devoção. Confira outros exemplos de sincretismo religioso! Celso Castro Júnior - Flickr
A festa combina elementos religiosos com manifestações culturais, como danças, músicas, comidas típicas e o famoso cortejo da Lavagem do Bonfim, onde as escadarias da igreja são lavadas com água de cheiro pelas baianas vestidas de branco. Divulgaçao Beto Júnior
No mesmo dia, também é celebrada a festa para o Nosso Senhor do Bonfim, uma das mais importantes do catolicismo brasileiro. Divulgaçao Governo do estado da Bahia
No dia 2 de fevereiro, os devotos celebram o dia das duas divindades. As oferendas costumam ser lançadas ao mar como forma de honrar ambas as entidades. Sandra de Souza - Flickr
Os devotos de Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes acreditam que as duas divindades são equivalentes, e que ambas podem proteger os marinheiros e pescadores do perigo. Reprodução
Nossa Senhora dos Navegantes é uma devoção católica a Maria, mãe de Jesus, e é a padroeira dos marinheiros e pescadores. Mari Vieira Divulgação
Iemanjá é uma orixá do Candomblé e da Umbanda, e é a deusa das águas doces e salgadas, da maternidade e da fertilidade. Reprodução TV Bahia
Na prática, um dos exemplos mais famosos de sincretismo religioso é Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes, duas divindades que estão intimamente ligadas ao mar. Facebook Mãe Iemanjá e Ricardo André Frantz - Wikimédia Commons
A Umbanda, por exemplo, é uma religião brasileira que combina elementos do catolicismo, do espiritismo e das religiões afro-brasileiras. Fernando Turri - Flickr
O sincretismo religioso é um fenômeno cultural e espiritual em que diferentes tradições religiosas, crenças e práticas são combinadas ou fundidas, muitas vezes resultando em uma nova expressão religiosa ou sistema de crenças. Reprodução

As origens africanas de Exu

A história de Exu remonta às tradições iorubás da África Ocidental, especialmente em territórios que hoje correspondem à Nigéria e ao Benim. Nessas tradições, Exu é um orixá mensageiro, responsável pela comunicação entre os seres humanos e as demais divindades. É aquele que transporta pedidos, preces e oferendas, sendo indispensável para a manutenção da ordem cósmica.

Com a chegada forçada de africanos escravizados ao Brasil, esses conhecimentos atravessaram o oceano e deram origem a diferentes manifestações religiosas, entre elas a Umbanda, que reinterpretou Exu dentro de sua própria organização espiritual.

Guardiões e mensageiros

Para o sacerdote Pai Erlon de Oxalá, dirigente da Cabana Caboclo Pedra Branca, compreender o papel dessas entidades é fundamental para romper os estigmas que ainda cercam as religiões de matriz afro-indígena.


"Os Exus e as Pombagiras são os nossos guardiões. São aqueles que cuidam, que zelam pela segurança do trabalho mediúnico dentro de uma casa de Umbanda, nas casas religiosas de matriz afro-indígena."

Segundo ele, além da função de proteção, Exu também desempenha um papel essencial na comunicação espiritual.

"Os Exus são, além de guardiões, aqueles mensageiros que levam as mensagens. Todas as mensagens que são feitas, os trabalhos, a mensagem dos orixás e aquelas mensagens que são necessárias, principalmente para o trabalho onde acontece a comunicação entre os espíritos."

A explicação reforça a importância dessas entidades dentro da dinâmica religiosa da Umbanda, atuando tanto na proteção dos trabalhos quanto na transmissão das orientações espirituais.

O preconceito que ainda persiste

A associação de Exu ao mal não nasce das tradições africanas, mas do processo histórico de perseguição às religiões afro-brasileiras.

Durante séculos, símbolos e práticas de origem africana foram demonizados como forma de controle social e apagamento cultural. Essa distorção contribuiu para que Exu fosse injustamente relacionado à figura cristã do demônio.

Para Pai Erlon de Oxalá, essa visão já não encontra respaldo na realidade vivida dentro dos terreiros.

"Por muito tempo, foram estigmatizados como entidades do mal, entidades que não fazem o bem. Mas isso já está caindo. Não existe mais essa ideia, até porque esse conceito não faz mais sentido. Isso era para provocar medo, para provocar o desinteresse mesmo por essas entidades."

O sacerdote destaca que a experiência cotidiana nas casas de Umbanda demonstra justamente o contrário.

"Os Exus e as Pombagiras não só fazem o bem, como guardam a segurança e a proteção das casas espirituais."

A intolerância religiosa contra terreiros e praticantes da Umbanda e do Candomblé ainda é uma realidade no Brasil. Ataques a espaços sagrados, discriminação e desinformação mostram que o preconceito continua sendo um desafio.

Por isso, iniciativas que promovem conhecimento e diálogo são fundamentais para combater estigmas históricos e fortalecer o respeito à diversidade de crenças.

Pombagira: força e acolhimento

Ao lado de Exu, as Pombagiras também costumam ser alvo de interpretações equivocadas. Na Umbanda, são entidades femininas ligadas à proteção, à justiça, à autoestima e ao aconselhamento espiritual. Representam a força de mulheres que enfrentaram dores, preconceitos e desafios ao longo de suas trajetórias.

Sua independência e sua liberdade de expressão desafiaram padrões sociais rígidos, contribuindo para a construção de estereótipos negativos ao longo do tempo. Dentro dos terreiros, porém, Pombagira é reverenciada como uma entidade de sabedoria, acolhimento e profundo compromisso com a evolução espiritual.

Samba, ancestralidade e caminhos abertos

A proposta do 1º Samba para Exu e Pombagira de Lagoa Santa é justamente celebrar essa herança ancestral por meio da música, da convivência e da fé. "É o olhar que anuncia movimento, renovo e prosperidade. O olhar de quem segue abrindo estradas para dias melhores", destaca a publicação da Cabana Caboclo Pedra Branca nas redes sociais.

Na força dos Guardiões, na beleza da ancestralidade e na alegria do samba, a casa abre suas portas para um momento marcado pelo respeito e pela devoção.

Cada toque de atabaque, cada ponto cantado e cada roda de samba reafirmam que preservar as tradições afro-brasileiras é também preservar parte fundamental da história e da identidade do povo brasileiro.

Em um país marcado pela pluralidade religiosa, compreender quem é Exu talvez seja um passo importante para superar medos construídos pela desinformação e reconhecer a riqueza espiritual e cultural herdada dos ancestrais africanos.

Serviço

1º Samba para Exu e Pombagira de Lagoa Santa

20 de junho
A partir das 14h
Atração especial: Samba do Dan (@sambadodan)
Rua Ana Pinto Coelho, 15 – Bairro Quebra, Lagoa Santa (MG)

A Cabana Caboclo Pedra Branca convida casas de axé, dirigentes espirituais, filhos de santo e toda a comunidade para celebrar a fé, fortalecer os laços de fraternidade e honrar aqueles que, segundo a tradição, seguem abrindo caminhos para dias melhores.

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Laroyê Exu! Laroyê Pombagira! Mojubá!

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