Por que tem tanta ‘macumba’, Exu e Pombagira nos desfiles de carnaval?
Da demonização colonial à vitória na avenida: como orixás e entidades da umbanda viraram protagonistas da festa popular brasileira
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A presença de elementos das religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, nos desfiles de carnaval no Brasil não é algo aleatório ou superficial, mas reflete uma profunda integração histórica e cultural entre essas tradições religiosas e a festa popular. Termos como "macumba" são frequentemente usados de forma pejorativa ou generalizante para se referir a práticas afro-brasileiras, mas na realidade, entidades como Exu (um orixá mensageiro, responsável pela comunicação entre humanos e divindades, e não uma figura demoníaca como muitas vezes estigmatizado) e Pombagira (uma entidade feminina na umbanda, associada a amor, encruzilhadas e proteção) surgem nos desfiles como expressões de ancestralidade africana, resistência cultural e identidade negra.
Esses elementos estão enraizados na formação do carnaval brasileiro, que surgiu a partir de manifestações de escravizados africanos e seus descendentes, misturando rituais religiosos com festas profanas para resistir à opressão colonial e escravagista.
As religiões de matriz africana, trazidas por povos escravizados de regiões como Angola, Congo, Benin e Nigéria, influenciam o carnaval desde o século 19. Em Salvador (BA), os afoxés — grupos carnavalescos inspirados no candomblé — surgiram no final do século 19 como "candomblé de rua", preservando rituais, músicas (como o ritmo ijexá) e objetos sagrados em desfiles públicos. Nos anos 1970-1980, os blocos afros, como Ilê Aiyê e Olodum, ganharam força no movimento negro contra o racismo, fundindo percussão de terreiros com samba-reggae, inspirado no candomblé baiano.
No Rio de Janeiro e em São Paulo, as escolas de samba evoluíram de cordões e ranchos no início do século 20, com raízes em comunidades negras onde o samba se entrelaçava com práticas religiosas. Durante a era Vargas (1930-1940), temas religiosos eram reprimidos, mas a partir dos anos 1960-1970, enredos recuperaram elementos africanos, borrando a dicotomia entre sagrado e profano.
Estudos acadêmicos destacam que o carnaval atua como espaço de resistência, onde materialidades religiosas (corpos, instrumentos, sons e objetos) se estendem para além dos terreiros, produzindo experiências devocionais em público. Por exemplo, a abordagem da "Religião Material" (Birgit Meyer) mostra como blocos afros em São Paulo, como o Bloco Afro É Di Santo (fundado em 2010), mobilizam atabaques (não sagrados, para evitar profanação), danças e rituais como o padê para Exu, com temas como "Minha fé, meus orixás" (2018), invocando guias, patuás e tambores para afirmar identidade negra contra o racismo.
Em São Paulo, o carnaval de rua cresceu de menos de 50 blocos em 2013 para mais de 500 em 2024, atraindo 15 milhões de pessoas, com pelo menos 12 blocos referenciando religiões afro-brasileiras, como Axé Kalifa e Ilú Oba de Min.
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Presença de Exu e Pombagira
Nos desfiles das escolas de samba, entidades como Exu e Pombagira aparecem em enredos que homenageiam orixás e práticas afro-brasileiras, refletindo a origem das escolas em terreiros. Dados de análises de enredos no carnaval suburbano do Rio (grupos C, D e E, 2011-2012) mostram referências recorrentes a orixás para proteção e identidade: Exu é invocado indiretamente para "acertar as contas" antes dos eventos, garantindo sucesso; Iemanjá (rainha das águas) recebe flores no mar; Oxalá ilumina o samba; e Xangô guia a justiça nos desfiles. Exemplos específicos incluem:
Grande Rio (Rio, 2022): Campeã com o enredo "Fala Majeté! Sete chaves de Exu", homenageando Exu como ponte entre humanos e orixás, destacando sua polêmica demonização por outras religiões.
Acadêmicos do Tucuruvi (São Paulo, 2024): Enredo "Ifá", sobre a religião iorubá de origem nigeriana.
Mangueira (Rio): Etnografia de 2019-2024 revela rituais de candomblé no barracão, com o sagrado permeando a produção mesmo em temas seculares, como proteções espirituais para a avenida.
Vai-Vai (São Paulo): Alterna preparativos de carnaval com rituais para Exu e Ogum, seguindo tradições afro-brasileiras.
Pombagira, mais comum na umbanda, aparece em contextos de encruzilhadas e feminilidade, frequentemente em alas ou alegorias que celebram entidades femininas, como em desfiles que misturam umbanda com samba. O samba em si é influenciado por ritmos de terreiros: baterias derivam de toques para orixás, com instrumentos como atabaques, agogôs e tambores diretamente das religiões afro. Gêneros como maracatu, afoxé (ex.: Filhos de Gandhy, com cantos em iorubá) e jongo também carregam essa herança.
Estudos acadêmicos
- Tese de doutorado (UFRJ, 2025): Enredos, funções e trabalhos (Sthefanye Silva Paz) mostra relações orgânicas entre carnaval e candomblé na Mangueira, com o sagrado como base cotidiana da produção, além de alegorias.
- Análise de enredos (2011-2012, Rio Suburbano): Em escolas como Unidos da Ponte e Mocidade Unida de Jacarepaguá, orixás como Exu, Oxóssi e Iemanjá são centrais para narrativas de resistência e proteção, tratando o carnaval como espaço sagrado.
- Estudos sobre materialidade religiosa: Em blocos como É Di Santo, rituais se estendem ao carnaval como forma de reterritorialização ancestral, combatendo intolerância religiosa.
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Essa presença reflete não só herança cultural, mas também uma forma de visibilidade e luta contra discriminação, apesar de perseguições em favelas por grupos criminosos ou evangélicos. O carnaval, assim, transforma estigmas em celebração, preservando tradições africanas na festa mais popular do país.