Instrutor Celso ajuda pessoas idosas a conquistarem a CNH -  (crédito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A. Press)

Instrutor Celso ajuda pessoas idosas a conquistarem a CNH

crédito: Alexandre Guzanshe/EM/D.A. Press

“Acho que é necessário [tirar a CNH], é liberdade”, afirma Maria do Carmo Gomes, de 60 anos, que está no processo para tirar a primeira carteira de motorista. De segunda a sexta-feira, ela tem aulas de direção com Celso Afonso Carvalho, instrutor especializado em atender pessoas como ela, e garante que, apesar do medo, vai lutar para conquistar esse sonho.

Quando mais jovem, ela tentou tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) algumas vezes, mas por cuidar de uma criança pequena e ficar desempregada logo em seguida, precisou interromper as aulas – situação mais comum do que se pensa.

 

Xará de Maria do Carmo Gomes, Maria do Carmo Moreira Dias, de 75 anos, conta que enfrentou muitas dificuldades ao longo da vida que a impediram de tirar uma CNH antes. Foi desmotivada pelas pessoas ao seu redor, precisava cuidar de uma filha com lesão cerebral que sofria com convulsões constantes e necessitava se dedicar aos afazeres domésticos, porém sempre alimentou o sonho de dirigir.

 

Obstáculos

 

“Sou dona de casa, sempre fui. E também sempre tive o sonho de tirar a carteira, mas foi muito difícil, principalmente depois que tive minha primeira filha, e a situação financeira não ajudava”, relata Dias.

 

“Já tentei tirar a carteira algumas vezes. Por volta dos 45 anos, foi a primeira vez que fiz aulas, entrei para a autoescola com muita dificuldade, ia e voltava correndo, porque para ter alguém para cuidar dos meus filhos e nunca tive ninguém para me ajudar com isso, sempre me virei sozinha. Quando chegou a época de fazer a primeira prova prática, minha filha precisou ficar internada, e precisei cuidar dela. Tentei alguns anos depois (tirar a CNH), mas não passei por não ter tempo para treinar”, acrescenta ela.

 

A dona de casa conta que, quando precisava levar a filha ao médico, fazia o trajeto de táxi, o que não era cômodo financeiramente nem seguro para a filha, por causa dos transtornos convulsivos. Faltava autonomia.

 

“Quando meu marido se aposentou, pensei: 'Agora vou tentar'. Sabia que era difícil, pois estou mais velha, minha filha ainda tem convulsões, apesar de terem diminuído, e ainda faço o serviço de casa, como cozinhar, lavar as roupas”, afirma.

 

Novas chances de autonomia

 

As duas Marias do Carmo, além de compartilharem o nome, nutrem o sonho. "Todos os meus filhos foram morar fora, mas retornaram. Hoje, tem um que mora comigo e tem carro. Mas nunca fui de ficar dependendo de alguém. Então, por exemplo, hoje é um dia que eu preciso ir ao mercado. Ele trabalha até à noite, e eu não quero ficar lá em casa esperando ele vir para me levar ao mercado. Então, vou à pé, de ônibus, pego um Uber”, conta Gomes.

 

“Mas a liberdade de pegar o carro e ir a qualquer lugar, seja mercado, trabalho, casa de uma amiga, é bom demais. Se em um fim de semana a gente quiser ir a um lugar um pouco mais distante de ônibus, por exemplo, deixo de ir. Também tenho meus pais ainda, meu pai vai fazer 90 anos, e meu sonho é ficar um pouco mais com eles, ter um carro para andar mais com eles no interior. É essa liberdade, esse poder, que precisamos, principalmente as mulheres”, acrescenta.

 

Imagens mostram pessoas dentro de um carro de autoescola

Maria do Carmo Gomes tem aulas de direção de segunda a sexta-feira com o sonho de finalmente conquistar a CNH

Arquivo Pessoal

 

Dias relata: “Comecei todo o processo novamente em 2023 com o Celso e, no final, passei. Fiquei muito feliz e agradecendo muito a Deus porque a gente sabe que, com a minha idade, com tantos problemas em casa, eu consegui. Eu achava que, quando a gente vai tirar a carteira ou fazer qualquer prova, precisávamos estar descansados, tranquilos, e eu nunca estive nem descansada nem tranquila, mas no final deu tudo certo. Muita gente achava que era besteira, mas era meu sonho, e a gente não pode desistir dos sonhos”.

 

Gomes, por sua vez, ressalta: “Já tentei há muito tempo, mas o dinheiro acabou. Voltei a ter aulas em 2015, mas fui morar no Sul e parei novamente com as aulas. Quando voltei para Minas, chegou uma hora que só falei que queria tirar minha carteira e comecei a pesquisar sobre instrutores que fossem mais tranquilos, que lidassem bem com as minhas dificuldades, porque a gente vai ficando mais velha, e fica mais complicado mesmo. Foi aí que encontrei o Celso”, finaliza ela.

 

Atendimento especializado

 

Para Maria do Carmo Gomes, o atendimento diferenciado do instrutor particular – conhecido pelos alunos apenas como instrutor Celso – dá mais confiança para que ela se sinta "firme" para continuar as aulas e finalmente tirar a carteira.

 

“Quando resolvi voltar com as aulas de direção, procurei por instrutores que tivessem experiência com pessoas com dificuldades, e esse foi o diferencial dele. Ele não é a calmaria toda, mas o suficiente para botar a gente para frente. Talvez, se fossem os outros instrutores, eu ia me arrastar para trás, não me sentiria motivada. Claro que tem dia que a gente fica chateada, mas é por dificuldades minhas, porque ele me bota para frente. Continuo com meus medos, mas estou firme para conseguir tirar a carteira”, conta ela.

 

“Na verdade, trabalho com todos os tipos de públicos, de todas as idades, mas tenho um atendimento especializado para pessoas que têm medo ou algum receio de dirigir, e acaba aparecendo muita pessoa idosa justamente pela falta de prática ou pela falta de segurança que elas sentem”, explica Celso.

 

O instrutor também conta que muitas pessoas chegam a ele com relatos de que a adaptação com outros profissionais não foi boa porque falta um atendimento mais compatível com as suas necessidades.

 

“Busco focar na perseverança das pessoas, no incentivo para que elas cheguem ao seu objetivo, alcancem seus sonhos, e com um público mais velho é necessário ter mais paciência, ser bem didático e deixar fluir no ritmo deles, porque o aprendizado, por causa da idade, às vezes acaba sendo mais lento, não tão dinâmico quanto o de uma pessoa mais nova. Mas sempre é possível aprender”, relata.

 

Cuidados a serem tomados

 

De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), não existe uma determinação sobre a idade máxima para dirigir um automóvel. É importante que o condutor, independentemente da idade, esteja física e mentalmente apto para dirigir, mas há cuidados que sempre devem ser tomados para prevenir acidentes, principalmente em idades mais avançadas.

 

A chegada da velhice pode estar acompanhada de diversas doenças. O desgaste da memória, das juntas, dos músculos, dos sentidos, além do uso de muitas medicações podem ser obstáculos para uma direção segura. Para promover um melhor estilo de vida e uma maior atenção à condução de automóveis sem que isso possa representar riscos para si mesmo ou para terceiros, é importante pensar na prevenção.

 

Enquanto o sistema nervoso, a visão, a audição e a mobilidade estiverem funcionando bem, haverá uma direção segura. Todos esses fatores são importantes para, por exemplo, estar sempre atento ao tráfego para perceber situações de risco e saber agir para evitá-las, enxergar a pista, sinalizações, outros veículos e pedestres, ouvir os sinais sonoros de outros motoristas e mexer nos pedais, no volante e conseguir virar a cabeça para olhar um cruzamento. Quando algum desses fatores estiver fora de ordem, é importante procurar um médico.

 

Conforme o CTB, o Exame de Aptidão Física e Mental (EAFM) deve ser renovado a cada dez anos para condutores com idade inferior a 50 anos; a cada cinco anos para condutores com idade igual ou superior a 50 anos e inferior a 70; e a cada três anos para condutores com idade igual ou superior a 70 anos.

 

Dicas para pessoas idosas

 

A Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) realizaram um estudo para uma cartilha direcionada aos motoristas acima de 60 anos e seus familiares. O manual da pessoa idosa condutora é composto por 16 páginas e traz uma linguagem direta e amigável para falar sobre o tema de forma pedagógica.

 

O documento também traz dicas para uma direção segura e traz orientações para a correta manutenção dos veículos e para o trânsito do pedestre.

 

Uma das melhores formas de prevenir doenças é criar hábitos saudáveis, e não seria diferente para bons condutores: é importante ter uma alimentação equilibrada, sono adequado e praticar atividades físicas regularmente.

 

Além de dirigir com atenção e sempre usar o cinto de segurança, a cartilha recomenda evitar dirigir à noite, ao amanhecer e ao anoitecer; fazer caminhos conhecidos; preferir ir a locais próximos de casa e evitar dirigir longas distâncias – se acontecer, descansar de tempos em tempos –; evitar dirigir em horários de pico ou com tempo ruim; dirigir acompanhado; ir ao médico com frequência; e fazer autoavaliações.

 

Também é possível fazer mudanças no carro para facilitar a direção e torná-la mais segura, como direção hidráulica; câmbio com transmissão automática; pedais com grande superfície; e retrovisores amplos, internos e externos em ambos os lados do veículo.

 

Em caso de orientação para parar de dirigir, recomenda-se que a pessoa idosa continue ativa e encontre alternativas para se locomover. Apesar de a direção ser fator importante para manter a pessoa idosa integrada à sociedade, garantindo sua autonomia e funcionalidade, se for recomendado parar, não é bom arriscar.

 

É importante que se mantenham encontros sociais, momentos de lazer, afazeres domésticos, prática profissional e outras atividades que já estava habituado a fazer. Por isso, pode ser hora de aprender a mexer em aplicativos de carona, conseguir contato de um taxista, aproveitar a gratuidade dos transportes públicos para a faixa etária, ou pedir caronas para conhecidos.