Entrevista

A NOVA COPASA PÓS-DESESTATIZAÇÃO

A Copasa atende mais de 11 milhões de mineiros em 636 municípios. Desse total, 309 contam com os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário

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MARÍLIA CARVALHO DE MELO

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Presidente da Copasa – Companhia de Saneamento de Minas Gerais

A ex-secretária estadual do Meio Ambiente Marília Carvalho de Melo deixou um dos postos chaves do governo para assumir a Copasa, companhia de saneamento do estado. Sua desafiadora missão era conduzir o processo de desestatização da empresa, o que conseguiu com enorme eficiência, transformando o negócio na maior oferta de ações da América Latina de 2026, até aqui. A presidente da empresa conta nessa entrevista EXCLUSIVA para o D&J como foi o processo e o que muda com a assunção do controle pela Equatorial Energia.

A senhora é formada em engenharia civil pela UFMG, mas construiu sua vida na área de recursos hídricos, meio ambiente e saneamento, tendo mestrado e doutorado nessas matérias. Como secretária do Meio Ambiente por mais de cinco, a senhora buscou diminuir a burocracia e atenuar os gargalos históricos relacionados aos licenciamentos, outorgas, fiscalizações e autuações que acabavam por afetar e desestimular o investimento no estado. Houve um avanço? É possível proteger o meio ambiente sem impedir ou dificultar o desenvolvimento da economia?

Não tenho dúvida sobre a compatibilização do desenvolvimento da economia e a proteção ambiental, aliás o conceito de desenvolvimento sustentável é a consolidação dessa premissa. Trabalhamos na secretaria para concluir passivo das autorizações ambientais, autorização de uso de água, intervenções florestais e licenciamento ambiental, focando em modernização tecnológica nas análises e racionalidade técnica. O resultado foi, sim, atração de desenvolvimento com aprimoramento dos nossos indicadores ambientais, redução de desmatamento, qualidade da água, dentre outros. A agenda de mudança climática também foi retomada e hoje é internacionalmente reconhecida. Essa experiência reforçou minha convicção de que desenvolvimento econômico e proteção ambiental não competem entre si. Quando há boa governança, planejamento e segurança jurídica, eles caminham juntos.

Em dezembro de 2025, a senhora deixou a secretaria para assumir a presidência da Copasa, principal empresa de saneamento de Minas, que, fundada em 1963, tem, hoje, quase 70 mil quilômetros de redes e atende 636 cidades do estado. O que motivou, como se deu e qual foi o resultado da privatização da companhia concluída no mês passado?

O novo marco do saneamento trouxe uma nova perspectiva para o setor no Brasil, considerando o déficit estrutural de investimentos do poder público em saneamento o que resulta em termos ainda pessoas sem provimento de água e especialmente coleta e tratamentos dos esgotos. Com isso, a participação da iniciativa privada se mostrou como a melhor alternativa para reverter esse cenário. Esse foi o contexto que fundamentou a decisão do governo de Minas Gerais, então acionista controlador da companhia, com o objetivo de promover as condições necessárias para eliminar as barreiras que limitavam a capacidade de investimentos da empresa, acelerar o cumprimento das metas de universalização estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento (Lei Federal nº 14.026/2020) e reduzir amarras burocráticas inerentes a uma empresa de economia mista e controle estatal. Com isso, a companhia passa a atuar com mais agilidade na tomada de decisões, na contratação de obras e na execução dos investimentos necessários à expansão dos serviços.

Assumi a presidência da Copasa com a missão de conduzir esse processo de transição com responsabilidade, transparência e segurança. Como a companhia já era uma empresa de capital aberto, com ações negociadas na B3, a desestatização ocorreu por meio de uma oferta subsequente de ações (follow-on), operação em que o acionista controlador reduziu sua participação acionária, com a transferência do controle para um novo investidor de referência. A condução de todo o processo respeitou rigorosamente o marco regulatório do setor, do estado e do mercado, preservando a continuidade da companhia, sua governança e o respeito aos empregados, aos municípios, aos investidores e à sociedade.

O resultado foi uma operação que registrou forte demanda do mercado, tornou-se a maior oferta de ações da América Latina em 2026 e atraiu respeitados investidores de longo prazo, reforçando a confiança na companhia e em sua capacidade de crescimento. Agora esse ciclo foi concluído. Meu foco está voltado para o futuro da companhia: acelerar os investimentos, ampliar a eficiência operacional, fortalecer a governança e garantir o cumprimento das metas de universalização do saneamento, sempre buscando prestar serviços cada vez melhores aos mineiros. Enfim, mais do que concluir uma transição societária, iniciamos um novo ciclo de crescimento da Copasa, com foco em investimentos, eficiência, inovação e geração de valor para clientes, municípios e acionistas.

Com a assunção pela Equatorial Energia do controle da Copasa, quais são as expectativas de investimentos, de crescimento e de expansão no estado?


A companhia inicia um novo ciclo com foco na aceleração dos investimentos para cumprir as metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento (Lei Federal nº 14.026/2020), que prevê o atendimento de 99% da população com abastecimento de água potável e de 90% com coleta e tratamento de esgoto até 2033.

Nossa ambição é consolidar a Copasa entre as empresas mais eficientes e inovadoras do setor de saneamento no Brasil, utilizando tecnologia, inteligência operacional e uma gestão cada vez mais orientada à excelência. Nosso crescimento estará diretamente associado à expansão dos serviços prestados à população. Isso significa ampliar a cobertura de esgotamento sanitário, executar obras estruturantes de segurança hídrica para garantir o abastecimento de longo prazo, reduzir perdas de água, modernizar a operação e incorporar novas tecnologias que aumentem a eficiência e a qualidade dos serviços.

Esse crescimento também passa pela atualização dos vínculos jurídicos com os municípios, que são os titulares dos serviços de saneamento. O Marco Legal do Saneamento estabelece regras específicas para os casos de desestatização, permitindo a conversão dos contratos de programa em contratos de concessão e a atualização dos instrumentos contratuais para que passem a prever, de forma expressa, as metas de universalização estabelecidas na legislação. Além disso, esse novo modelo amplia a possibilidade de incluir os serviços de esgotamento sanitário para municípios que hoje contam apenas com abastecimento de água, estender o atendimento a distritos, povoados e comunidades rurais e estabelecer indicadores de desempenho para acompanhar a execução dessas metas. Com mais segurança jurídica e previsibilidade para todas as partes, criamos as condições necessárias para acelerar investimentos, expandir os serviços e cumprir as metas de universalização do saneamento em Minas Gerais.

Trabalhamos empenhados e confiantes que a nova Copasa será reconhecida não apenas por cumprir as metas do Marco Legal, mas por ser referência em gestão, inovação, sustentabilidade e qualidade dos serviços.

Qual será o papel do Estado na empresa daqui em diante? Continuará a ter poder de gestão? Quais as matérias ficarão passíveis de veto pelo Estado através da “golden share”?

O Estado continuará exercendo um papel importante na preservação do interesse público, enquanto a gestão da companhia seguirá focada na eficiência empresarial e na geração de resultados. Antes da desestatização, o Estado de Minas Gerais detinha 50,03% das ações da companhia e exercia seu controle acionário. Com a nova composição societária, passou a deter 5% das ações, além da golden share, enquanto a Equatorial passou a deter 30% das ações e assumiu o controle da companhia como investidora de referência.

A golden share, por sua vez, garante ao Governo de Minas poder de veto em matérias estratégicas, como alterações relacionadas à identidade da companhia, ao seu objeto social e a outros temas considerados essenciais. Trata-se de um mecanismo que preserva o interesse público, ao mesmo tempo em que permite uma gestão empresarial voltada para eficiência, investimentos e geração de resultados.

Além disso, o interesso do estado estará representado no Conselho de Administração e Conselho Fiscal e acompanhará os investimentos necessários para garantir a universalização.

A Equatorial já detém o controle da Sabesp – Cia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, que atende a mais de 28 milhões de pessoas. Quantas pessoas a Copasa atende atualmente e qual percentual da população mineira ainda não tem fornecimento de água potável e tratamento de esgoto? Como a experiência adquirida com a Sabesp poderá contribuir na gestão da Copasa?

A Copasa atende mais de 11 milhões de mineiros em 636 municípios. Desse total, 309 contam com os serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário de forma concomitante.

Os índices de cobertura da companhia se destacam em relação à média nacional. O abastecimento de água já alcança mais de 99% da população em sua área de atuação, meta de universalização prevista no Marco Legal do Saneamento. No esgotamento sanitário, a cobertura chegou a 80,4%, avançando de forma consistente rumo ao índice de 90% estabelecido para 2033.

Esses números demonstram a dimensão dos desafios enfrentados pela Copasa, que atua em um dos estados mais extensos e diversos do país, conciliando grandes sistemas metropolitanos com centenas de municípios de pequeno porte.

Minas Gerais possui características muito próprias. Nossa operação reúne grandes centros urbanos, cidades de médio porte e pequenos municípios distribuídos por um território amplo e bastante diverso. Essa realidade exige soluções adaptadas às necessidades de cada região e uma gestão capaz de conciliar eficiência operacional com atendimento de qualidade em contextos muito distintos.


A Equatorial também é a investidora de referência da Sabesp, o que amplia as oportunidades de intercâmbio de experiências entre duas das maiores companhias de saneamento do país. Mais do que replicar modelos, queremos aproveitar as melhores práticas para construir soluções adaptadas à realidade de Minas Gerais. A expectativa é incorporar boas práticas de gestão, eficiência operacional, inovação, transformação digital e melhoria da experiência do cliente, sempre respeitando as características e os desafios próprios do saneamento em Minas Gerais.

Quais melhorias e impactos os consumidores mineiros podem esperar da nova Copasa?

O consumidor pode esperar uma Copasa mais ágil, mais eficiente e cada vez mais próxima das pessoas. O principal compromisso da nova Copasa é entregar um serviço cada vez melhor para o cidadão. Isso significa investir na modernização dos canais de atendimento, executar obras com mais agilidade, ampliar o acesso à coleta e ao tratamento de esgoto e fortalecer a segurança hídrica por meio de grandes obras de infraestrutura, garantindo maior disponibilidade de água e mais segurança no abastecimento, especialmente diante do crescimento das cidades e dos efeitos das mudanças climáticas.

Também sabemos que uma das principais preocupações da população é a tarifa. É importante esclarecer que a Copasa não define o valor da tarifa, que é estabelecido pelas agências reguladoras, como a Arsae-MG, com base em critérios técnicos previstos na regulação. O setor de saneamento é regulado, a forma de se calcular a tarifa é a mesma na Copasa estatal e na Copasa provada.

Outro aspecto importante é a manutenção do sistema de tarifa uniforme, baseado no princípio do subsídio cruzado. Na prática, isso significa que os custos da prestação dos serviços são compartilhados entre todas as cidades atendidas pela companhia, evitando que municípios menores, que possuem custos operacionais proporcionalmente mais elevados, tenham tarifas muito superiores para viabilizar a prestação dos serviços e assegurando que a população dessas localidades continue tendo acesso ao saneamento em condições tarifárias equilibradas.

A atualização dos contratos com os municípios também permite estender sua vigência até 2073. Esse prazo maior possibilita a amortização dos investimentos necessários à universalização do saneamento ao longo de décadas, contribuindo para a modicidade tarifária, sem comprometer a capacidade de investimento da companhia.

No fim do dia, o que realmente importa para o consumidor é ter água chegando com segurança à torneira, mais famílias atendidas por coleta e tratamento de esgoto, um atendimento mais ágil e uma empresa comprometida em prestar serviços cada vez melhores para a população. Nosso compromisso é simples: que o cidadão perceba, no dia a dia, uma melhora concreta na qualidade do serviço.

A sua experiência técnica em recursos hídricos e saneamento, além da confiança e conhecimento que detém em relação ao governo do estado por certo serão valorizados pela Equatorial, como investidora referência. Está confirmada a sua permanência à frente da empresa? Quais são seus planos?

Recebo essa avaliação com muita responsabilidade. Tenho muito orgulho da trajetória construída até aqui e, principalmente, do trabalho desenvolvido, ao longo da minha carreira, com equipes qualificadas. Não foi diferente aqui na Copasa, que nos permitiu conduzir um dos maiores processos de desestatização no Brasil.

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As decisões sobre a composição da administração cabem aos órgãos de governança e aos acionistas da companhia. Meu compromisso é com esta nova fase da Copasa. Enquanto tiver a responsabilidade de liderar a companhia, seguirei dedicada a acelerar sua transformação e entregar resultados para a sociedade, para os municípios e para todos os acionistas.

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