A comida como memória, identidade e herança cultural é o fio condutor de “América Latina: Tudo que a Terra Guarda”, documentário mineiro que foi exibido nesta sexta-feira (21/8), às 15h (horário local), no Food Film Fest Bergamo, na Itália. A película foi selecionada entre os 41 finalistas da competição internacional que reuniu cerca de 400 inscrições. Dirigida por Marcelo Araújo, o filme de aproximadamente 33 minutos dedica à relação entre cinema e à cultura alimentar, colocando histórias e saberes da América Latina em diálogo com produções de diferentes países.

Mais do que apresentar pratos e receitas, o documentário busca mostrar o que existe antes deles serem criados. Ingredientes, técnicas culinárias e formas de preparo aparecem como caminhos para chegar às pessoas e aos territórios onde esses conhecimentos foram construídos e transmitidos ao longo das gerações.

A participação no festival, dedicado à relação entre cinema e cultura alimentar, colocou uma produção mineira em contato com obras de diferentes países. A seleção também ampliou o alcance de uma narrativa que parte da América Latina para discutir temas como preservação cultural, pertencimento e a importância de manter vivos saberes tradicionais.

Saberes que atravessam gerações

No documentário, a alimentação é tratada como uma forma de contar a história dos povos. Cada receita, ingrediente ou modo de fazer carrega marcas do território e das pessoas que ajudam a manter essas tradições.

A equipe percorreu diferentes regiões do Brasil, Bolívia, México e do Peru para acompanhar comunidades e personagens ligados à produção e à preparação de alimentos. O olhar da produção se volta para os conhecimentos que permanecem presentes no cotidiano e são repassados de uma geração para outra.

A proposta é mostrar que a cultura alimentar não se resume ao que chega à mesa. Ela envolve a relação das comunidades com a terra, os ingredientes disponíveis em cada região, as formas de cultivo e preparo e as histórias que se acumulam ao redor da comida.

Para Elke Rezende, a diversidade cultural e alimentar da América Latina é um patrimônio que merece ser registrado e compartilhado. A seleção no Food Film Fest, segundo ela, cria a possibilidade de apresentar essas histórias a um público internacional.

“A América Latina tem uma diversidade cultural e alimentar extraordinária, e cada território carrega sabores, histórias, conhecimentos e modos de fazer que são parte de um patrimônio que tivemos a chance de registrar nesse documentário”, destaca Elke Rezende, CEO da Nossa Senhora das Produções.

Documentário "América Latina: Tudo que a Terra Guarda" será exibido no Food Film Fest Bergamo, na Itália

Divulgação/ Documentário "América Latina: Tudo que a Terra Guarda"

Para ela, o documentário ser selecionado para uma competição internacional como o Food Film Fest é uma oportunidade de mostrar ao mundo que, por trás de cada alimento, existe uma história, uma comunidade e uma identidade. “Quando valorizamos esses saberes e colocamos essas narrativas em circulação, também contribuímos para que esse patrimônio permaneça vivo e seja reconhecido pelas novas gerações.”

Mulheres no centro da narrativa

Durante a realização do documentário, a equipe também identificou a presença feminina como um dos elementos importantes para a continuidade dos saberes culinários.

De acordo com o diretor Marcelo Araújo, em diferentes países visitados pela produção, as mulheres aparecem ligadas à preservação de receitas, ingredientes e modos de preparo. Elas são responsáveis por transmitir conhecimentos dentro das famílias e comunidades e ajudam a manter práticas que atravessam gerações.

“Durante as filmagens, percebemos que existe um elo muito forte entre a gastronomia e as mulheres. Em diferentes países, são elas que preservam receitas, protegem ingredientes e transmitem os modos de fazer entre gerações. Mais do que cozinhar, elas mantêm viva a memória dos territórios e transformam o alimento em patrimônio cultural”, afirma o diretor.

A câmera acompanha justamente esses gestos e processos. "O documentário aproxima a câmera dessas pessoas, das mãos, dos gestos e das histórias que garantem a continuidade das tradições e mostram que preservar a cozinha local é também preservar a identidade de um povo”, destaca o diretor.

Cinema como forma de preservar

Para o chef e curador Edson Puiati, aproximar o audiovisual da cultura alimentar permite registrar conhecimentos que poderiam se perder com o passar do tempo. “Quando colocamos a culinária diante das câmeras, estamos falando também de território, de memória, de pessoas e de identidade.”

Segundo ele, o documentário tem essa capacidade de registrar e, ao mesmo tempo, provocar uma reflexão sobre aquilo que queremos preservar para as próximas gerações. “Chegar a um festival internacional dedicado à cultura alimentar mostra a força desses saberes e a importância de contar essas histórias”, observa.

Além das sessões cinematográficas, a programação do festival reúne degustações de produtos típicos, encontros com produtores, agricultores e chefs, conferências e debates. A proposta do evento é aproximar o público de diferentes manifestações da cultura alimentar e discutir a relação entre comida, território e patrimônio.

De Belo Horizonte para o mundo

A participação na Itália dá continuidade ao percurso do documentário, que teve a pré-estreia em Belo Horizonte durante a quarta edição do Matula Film Festival, realizada no Mercado Central. Foi ali que a produção teve o primeiro contato com o público antes de seguir para o circuito internacional.

Para Eduardo Cruvinel, presidente da Belotur, a presença do filme em Bérgamo também contribui para divulgar a capital mineira fora do país.

"Belo Horizonte tem na cultura alimentar uma de suas grandes forças e esse reconhecimento também ajuda a projetar a cidade internacionalmente. A presença de uma produção mineira em um festival como o Food Film Fest mostra que a nossa cozinha, os nossos territórios e as histórias que existem por trás deles têm capacidade de despertar interesse e criar conexões com públicos de diferentes partes do mundo. É uma oportunidade de fortalecer a imagem de BH como uma cidade que valoriza sua cultura, sua criatividade e sua vocação gastronômica”, define.

Com a exibição em Bérgamo, “América Latina: Tudo que a Terra Guarda” amplia a circulação de uma produção que usa a comida como ponto de partida para falar sobre pertencimento. Ao levar para a tela receitas, ingredientes e modos de fazer, o documentário coloca em evidência também as pessoas responsáveis por manter essas histórias vivas.

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*Estagiária sob supervisão do subeditor Humberto Santos

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