A história do azeite em Minas e no Brasil é recente. A primeira extração de um óleo extravirgem em solo nacional ocorreu em 2008, em Maria da Fé (MG), sob a liderança da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). Quase 20 anos depois disso, em 2026, o que se observa é uma evolução rápida que vem rendendo frutos – e medalhas.

A azeitóloga e sommelière de azeite Ana Beloto destaca a evolução rápida desse produto em Minas e também chama a atenção para o futuro. “Vejo uma evolução muito significativa. Os produtores passaram a conhecer melhor seus terroirs, entender o comportamento das diferentes variedades em nossas condições de cultivo, aprimorar o manejo e investir em tecnologia de extração, controle de qualidade e conservação. Hoje, Minas já se posiciona como uma das principais regiões produtoras de azeites de qualidade do Brasil, com produtos que conquistam reconhecimento internacional.”

Vice-presidente da Associação dos Olivicultores dos Contrafortes da Mantiqueira (Assoolive), Vanessa Bianco relaciona ainda o bom desempenho de produtores nacionais e mineiros em eventos internacionais à maior presença de rótulos daqui.

“O aumento das premiações é resultado tanto da evolução da qualidade dos nossos azeites quanto de uma maior presença dos produtores brasileiros e mineiros nessas competições. E os resultados mostram que os azeites produzidos em Minas Gerais têm qualidade para ocupar esse espaço.”

Mudanças climáticas


A crescente no número de premiações também tem relação com uma boa safra – a de 2026. Diferentemente da última, quando muitos produtores tiveram desempenhos abaixo do esperado ou produções quase ínfimas, esta foi o que chamam de “super safra”. Tudo isso graças às boas condições climáticas para a produção, com um bom número de horas de frio.

Esse fator tão poderoso quanto o clima também pode preocupar os especialistas em relação à evolução da olivicultura mineira. Nesse ponto, Vanessa destaca as imprevisíveis mudanças climáticas.

'Minas já se posiciona como uma das principais regiões produtoras de azeites de qualidade do Brasil, com produtos que conquistam reconhecimento internacional' - Ana Beloto, azeitóloga

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press


“Ainda temos um caminho longo, justamente porque estamos cultivando no Brasil uma espécie que não é nativa e cuja tradição produtiva está historicamente ligada ao Mediterrâneo. Por isso, acredito que a pesquisa seja fundamental e deve continuar avançando. As mudanças climáticas tornam esse trabalho ainda mais importante, porque temperatura, regime de chuvas, umidade e outros fatores interferem diretamente no desenvolvimento da oliveira, na florada, na frutificação e, consequentemente, na produtividade e na qualidade dos azeites.”


Ana Beloto, por sua vez, ressalta que a consistência é o próximo passo a ser conquistado pelos produtores. “A olivicultura mineira já demonstrou que é capaz de produzir azeites de excelência; o desafio é transformar essa qualidade em consistência, identidade e reconhecimento de mercado. Não basta produzir um excelente azeite em uma determinada safra. Precisamos compreender cada vez melhor a relação entre variedade, altitude, clima, solo e manejo, para que cada região possa expressar suas características e construir uma identidade própria”, defende.

Mais acesso

Mais um ponto importante no caminho que o futuro guarda para a olivicultura mineira é o maior acesso a esses rótulos. “Outro desafio importante está fora do olival: o acesso ao produto e a comercialização. Ainda precisamos ampliar os canais de distribuição e facilitar a chegada dos azeites mineiros ao consumidor, fazendo com que estejam mais presentes no varejo, na gastronomia e na mesa dos brasileiros”, alerta.

Apesar de todos os desafios, a especialista vê no olivoturismo uma oportunidade enorme. “Minas tem uma paisagem, uma gastronomia e uma cultura que podem ser associadas ao azeite para criar experiências de visita aos olivais, degustações, colheitas e contato direto com os produtores. Isso não apenas gera uma nova fonte de receita para o setor, mas também aproxima o consumidor da origem e ajuda a construir valor para o produto”, comenta Ana Beloto.

Nesse sentido, inclusive, é interessante educar os brasileiros e mineiros sobre o azeite extravirgem produzido aqui. Diferentemente do que se encontra no mercado, os aromas herbais e até frutados são muito mais acentuados nos produtos artesanais.

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“Ainda existe muito a ser feito para que as pessoas compreendam as características de um azeite extravirgem fresco, produzido localmente e em pequena escala, e entendam as diferenças entre esse produto e os azeites produzidos em grande escala. Portanto, vejo dois caminhos que precisam avançar paralelamente, que são a pesquisa e o conhecimento técnico no campo e a educação e a formação do consumidor”, completa Vanessa.

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