Ana é uma jornalista negra franco-brasileira que vive em Paris. Muito ligada à avó, Alice, brasileira nascida em Belo Horizonte, ela tem a vida abalada pela morte repentina da matriarca.
Ao organizar os objetos da avó, Ana encontra uma caixa com uma carta, uma fotografia, duas chaves e um endereço em Belo Horizonte. Intrigada com as pistas, decide viajar à capital mineira para investigar o passado da família.
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Essa é a premissa de “Ana, en passant”, animação de Fernanda Salgado, que estreia nesta quinta-feira (5/11), no Cine Belas Artes e no Centro Cultural Unimed-BH Minas.
Coprodução brasileira com Portugal e França, o filme acompanha a viagem de Ana. Ao chegar a Belo Horizonte, ela conhece outra mulher chamada Alice, moradora do antigo apartamento da avó. A semelhança física entre as duas chama a atenção, e o encontro introduz um elemento fantástico na narrativa, levando a protagonista a questionar a própria identidade, suas origens e os vínculos entre passado e presente.
A viagem ao Brasil se transforma, então, em uma busca por pertencimento e ancestralidade. Belo Horizonte deixa de ser apenas o lugar de origem da família e passa a integrar a investigação de Ana sobre quem ela é e de onde vem.
“Eu já vinha trabalhando com essa história desde 2012, quando a ideia original foi selecionada para o Script Station (programa de desenvolvimento de roteiros ligado ao Festival de Berlim). Mas, ao longo do caminho, muitas coisas aconteceram e me fizeram amadurecer a ideia”, conta a diretora.
Ao longo desses quase 15 anos, Fernanda engravidou, passou a se dedicar mais ao Apiário Estúdio Criativo, cofundado por ela em 2011, e escreveu e dirigiu o curta-metragem “Tormenta” (2014).
Quando retomou o projeto, em 2018, sentiu a necessidade de modificar uma série de elementos, entre eles o nome da protagonista, que inicialmente se chamaria Marina.
A trama original se concentrava mais na busca de uma jovem por sua identidade individual. A versão atual ampliou o foco para a experiência geracional de mulheres negras e a redescoberta da memória e da ancestralidade.
Duas cidades
Os cenários também ganharam importância. Paris e Belo Horizonte, cidades onde a história se passa, tornaram-se personagens e funcionam como uma espécie de duplo uma da outra. Outra mudança significativa foi o papel da avó de Ana, que se tornou um elo central da trama, conectando as personagens e conduzindo a narrativa.
Se Belo Horizonte e Paris se complementam, Ana e Alice também estabelecem uma relação de espelhamento. O encontro entre elas permite que cada uma enxergue aspectos de si mesma que ainda não compreende.
“Os ecos e reflexos dentro do filme são elementos muito sutis e essenciais”, diz Fernanda. “Essas aproximações e separações eram muito importantes para a gente, porque havia uma necessidade de perceber que essas duas mulheres são iguais, apesar de se apresentarem de maneiras diferentes e terem identidades muito diferentes”, comenta.
Embora “Ana, en passant” seja uma animação, o filme foi construído a partir de atuações filmadas em estúdio, posteriormente utilizadas no processo de animação. A atriz Jéssica Pierina não apenas deu voz às protagonistas, Ana e Alice, como contracenou com o restante do elenco, formado por Zezé Motta, Carlos Francisco, Odilon Esteves, entre outros. A dinâmica de trabalho se aproximou daquela de uma produção em live-action.
“Foi um desafio muito grande, porque não tínhamos cenário nem elementos cênicos”, conta Jéssica. “Estávamos numa sala branca, tendo que usar nossa imaginação.”
DESCOBERTAS
A atriz, no entanto, encontrou pontos de identificação com as protagonistas. Assim como Ana, ela chegou a Belo Horizonte sem conhecer a cidade. Natural de Ouro Branco, mudou-se para a capital aos 16 anos e, durante algum tempo, caminhava sem rumo pelas ruas para descobrir o lugar onde passaria a viver.
“Além disso, elas têm a coisa de pensar nesse lugar da mãe e das relações familiares. São coisas muito comuns para mim e para as mulheres da minha família. Então, quando eu vejo esse filme, não enxergo apenas duas personagens, mas uma vastidão de histórias de diversas mulheres negras”, afirma.
As questões raciais, aliás, também são abordadas sob a perspectiva da diáspora africana. O mar, sobretudo o oceano Atlântico, é outro elemento recorrente na narrativa, associado às memórias e histórias que conectam diferentes territórios e gerações.
“Ele é cheio de memórias e histórias”, destaca a diretora. “É algo que dialoga diretamente com o filme”, observa.
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“ANA, EN PASSANT”
(Brasil/Portugal/França, 2026, 90 min.) Direção: Fernanda Salgado. Animação. Com Jéssica Pierina, Zezé Motta, Carlos Francisco e Odilon Esteves. Estreia nesta quinta-feira (5/11), no Cine Belas Artes (Sala 1, 16h10) e no Centro Cultural Unimed-BH Minas (Sala 1, 15h10 e também às 17h, somente nesta quinta; às 10h30, nos dias 7/11 e 8/11).
