Segundo Irvine Welsh, parte do que preserva a atualidade de seu romance de estreia, “Trainspotting”, é que a juventude de hoje ainda enfrenta os mesmos problemas de três décadas atrás: o desemprego e o vício.
Em “Homens apaixonados”, o autor britânico retoma os personagens do primeiro livro, de 1993, que virou filme cult de Danny Boyle três anos depois.
Escrito como um mosaico de cenas desconectadas, “Trainspotting” acompanhava os amigos Spud, Sick Boy, Begbie e Renton em meados dos anos 1980.
Heroína
Entediados e sem perspectiva, pertencentes à geração da classe trabalhadora para a qual as conquistas de seus pais, como manter o emprego e conseguir casa própria, pareciam desinteressantes e inalcançáveis, os quatro adotavam a heroína como estilo de vida, problema que dispensava pensar em todos os outros.
Para Welsh, parte do que explica a vida longa do universo de “Trainspotting” é que a falta de trabalho e o mergulho nas drogas permanecem vivos. “Esses caras (do livro) estavam experimentando o desemprego pela primeira vez”, diz. “Agora somos todos membros do precariado.”
O cenário não se restringe à Escócia ou ao Reino Unido. No Brasil, o desemprego apresenta a menor taxa desde o começo da série histórica, em 2012, mas cerca de 40% da mão de obra trabalha na informalidade, sem carteira assinada ou CNPJ.
Já o vício se universalizou. “É como se tudo fosse viciante agora. O celular é um canal de acesso para todos os vícios que podemos querer: apostas, sexo, drogas, comida. Tudo de um jeito compulsivo, obsessivo, até o que faz bem, como o exercício físico. Os algoritmos estão nos destruindo, e a internet, destruindo nossa cultura.”
A obra de Welsh caiu no gosto do povo. O livro e sua adaptação se tornaram fenômenos. No cinema, houve a continuação “T2 Trainspotting”, de 2017. Recentemente, o livro se tornou um musical, com temporada no Reino Unido.
“Homens apaixonados” (Rocco) recupera a turma original logo após os eventos que encerram o primeiro livro. Cada um a seu jeito, todos vão encarar o amor enquanto deixam para trás o primeiro momento da vida adulta.
Por conveniência, o primeiro livro se despede dos protagonistas quando eles estão chegando aos meados dos 20 anos, momento em que, para o autor, se começa a pensar a sério no amor.
“É quando as pessoas começam a tomar consciência da própria mortalidade. Se antes, cansadas da própria família, elas se entregavam aos amigos, começam então a se cansar deles também. Querem outra coisa para ser o centro de suas atenções, normalmente, um relacionamento”, diz Welsh.
“Homens apaixonados” se passa na virada dos anos 1980 para os anos 1990. Após dar um golpe em seus amigos no fim de “Trainspotting”, Renton foge para a Holanda e passa a viver em Amsterdã, onde cresce a cena de música eletrônica. Na vida noturna, conhece a libertina Monique, com quem firma uma relação, e começa a trabalhar organizando festas.
Sick Boy se apaixona por Amanda, filha rebelde de uma família endinheirada, e passa a enxergar nela a possibilidade de ascensão social. Desajeitado e bondoso, Spud vive de bicos ao lado de Alison, sua companheira, e busca um caminho para deixar a pobreza e superar os problemas com drogas. Tão violento como sempre, Begbie divide sua atenção entre a paternidade e a busca por Renton, de quem quer se vingar.
Arte, amor e juventude são as apostas de Irvine Welsh para um mundo melhor. Para ele, os dois motores da humanidade são a vontade de se expressar e se conectar com outras pessoas, capazes de, na sua leitura, trazer de volta a sensação típica dos jovens de que as coisas podem mudar para melhor, mesmo contra todas as evidências.
Reação
A leitura que Welsh faz do estado do mundo é amarga, mas nem só de pessimismo vive o cronista da desilusão. O escritor enxerga um movimento crescente de pessoas voltando ao analógico, discotecando em bares, juntando-se para ouvir poesia e música e buscando depender menos do digital.
“Minha teoria é que as pessoas são passivas de várias formas. Você pode explorá-las, tirar suas identidades, mas elas realmente reagem ao tédio e à frustração. A internet está ficando um tédio, está ruim. A revolução sempre começa com a juventude entediada e frustrada com o jeito como as coisas estão, e é o que está acontecendo”, afirma.
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“HOMENS APAIXONADOS”
• Livro de Irvine Welsh
• Editora Rocco
• 416 págs.
• R$ 114,90
