Pouco mais de duas décadas depois do lançamento de “Edifício Master”, do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho (1933-2014), a cineasta paraguaia Paz Encina quis voltar ao prédio de Copacabana para saber como estavam a estrutura e os personagens do filme. Não era saudosismo, mas o desejo de realizar um longa documental que dialogasse diretamente com a obra de Coutinho.



O acaso, no entanto, parecia jogar contra a paraguaia. Duas das três síndicas do edifício não autorizaram a entrada de Paz e sua equipe no prédio. Uma delas, inclusive, disse que não queria nem saber “dessa história de cinema”. A terceira permitiu a entrada, mas por tempo limitado e em pouquíssimos apartamentos. Para piorar, nenhum dos 37 moradores entrevistados por Coutinho havia sido localizado até então.


Essa foi a saga de Paz Encina para rodar “Carta a un viejo Master”, exibido nessa sexta-feira (25/9), dentro da programação da 20ª Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte (CineBH). Homenageada do evento, Paz participou da sessão que marcou sua passagem pela mostra. Ela retornou ao Paraguai no fim de semana.



Em “Edifício Master”, Coutinho transforma o prédio que dá nome ao filme em um pequeno universo humano. Durante uma semana, conversou com moradores de diferentes idades e trajetórias, deixando que histórias de amor, solidão, sonhos, frustrações e memórias desenhassem um retrato da vida urbana brasileira. O prédio é o cenário, mas o que interessa ao documentarista são as pessoas e aquilo que elas compartilham.


Personagem principal


Em “Carta a un viejo Master”, o prédio deixa a condição de cenário para se tornar personagem principal. É ele quem, no fim das contas, promove uma espécie de encontro entre a diretora paraguaia e o documentarista brasileiro. Na ausência dos personagens que deram depoimentos a “Edifício Master” – muitos já mortos, outros vivendo fora do bairro, conforme Paz constatou em conversas com moradores atuais –, o recurso encontrado foi a solidão.



Ela se impõe nas imagens de corredores vazios e portas fechadas, na narração sóbria da própria diretora e nos momentos de silêncio, quando se ouvem apenas os ruídos das obras em construções vizinhas. É como se o próprio Master tivesse se calado.


“O silêncio tem um peso muito grande e é um suporte muito potente”, disse Paz em entrevista recente à reportagem. “Acho, inclusive, que ele diz muito mais. E, além disso, pelo menos para mim, é mais belo”, acrescentou.


A cineasta paraguaia Paz Encina foi uma das homenageadas da 20ª Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, a CineBH

Leo Lara/Universo Produção/Divulgação


Personagens marcantes


O filme de Paz não exige que o espectador tenha assistido “Edifício Master” para entender do que se trata. Em sua narração, Paz escreve uma espécie de carta ao brasileiro, na qual rememora cada um dos personagens do documentário.


É o momento em que quem não viu o filme de Coutinho passa a conhecer Alessandra, que declarou abertamente diante da câmera ser mentirosa, mas ponderou ter sido inteiramente sincera durante a entrevista; Daniela, que lidava com forte fobia social; Henrique, viúvo aposentado que adotou as músicas de Frank Sinatra como lema existencial; Fabiana, garota de programa que lutava para sustentar a filha e a irmã; entre tantos outros.



No fim das gravações, Paz conseguiu encontrar uma antiga moradora que vivia no prédio há 22 anos e também havia participado do filme de Coutinho. A entrevista concedida ao novo longa pouco importa. É a surpresa do encontro que vale mais.


“Carta a un viejo Master” chega a ser um contraplano ao filme de Coutinho. Os planos fixos, que dão a sensação de vazio e solidão, se contrapõem àqueles, cheios de vida, dos moradores do Master.


Com material limitado que tinha em mãos, Paz não desistiu de fazer o filme, que se mostrou decisão muito assertiva. Parafraseando o próprio Coutinho, explicou: “Isso é o que eu tenho, isso é o que eu sou”.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia



20ª CINEBH
A partir desta terça-feira (22/9), com exibição de filmes, debates, seminários, sessões comentadas e outras atividades, no Cine Humberto Mauro, Cine Theatro Brasil, Cine Santa Tereza, Belas Artes, Centro Cultural Unimed-BH Minas, Teatro Sesiminas e Praça da Liberdade. Programação gratuita, disponível no site da mostra. 


compartilhe