Incluído entre os seis filmes pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar 2027, “Vicentina pede desculpas”, de Gabriel Martins, faz sua estreia mundial neste sábado (12/9), na mostra competitiva do 51º Festival Internacional de Cinema de Toronto.


O diretor, um dos fundadores da prestigiada produtora Filmes de Plástico, e a atriz Rejane Faria, protagonista do longa, estão na cidade canadense para acompanhar o início da caminhada de “Vicentina pede desculpas”.


Gabriel Martins observa que esta é a primeira vez que um longa que dirigiu sozinho participa de um grande festival internacional – “No coração do mundo”, que fez com Maurílio Martins, esteve no de Roterdã, em 2019.


“A abertura [do festival] aqui em Toronto foi muito calorosa, com um clima muito bom. Me parece que é um público interativo e interessado. O entorno do centro do festival está bastante animado e nós, bastante ansiosos”, comenta. O diretor destaca o fato de que a competitiva de Toronto é, desde sua criação, mais voltada para projetos autorais.


Para Rejane, tudo o que um longa precisa é estrear em um evento desse porte. “Estamos num ótimo lugar para dar a largada nessa trajetória. A expectativa é grande para ver como as pessoas vão receber esse filme”, diz. Gabriel já destacou, em entrevistas anteriores, que “Vicentina pede desculpas” é um filme “profundamente brasileiro” em sua essência. Ele acredita que isso pode pesar mais a favor do que contra, no que diz respeito à recepção que terá em Toronto e no circuito internacional, de modo geral.


FIDELIDADE ÀS IDEIAS

“Uma coisa que aprendi com 'Marte Um' (seu primeiro longa solo, escolhido para ser o representante brasileiro no Oscar em 2023) é que, quanto mais fiel nós somos às nossas ideias e à nossa identidade, mais isso ressoa fora do país”, diz.


Ele observa que as pessoas têm uma percepção equivocada de que, para se internacionalizar, um filme tem que ser mais genérico. “Acho que toda a identidade de 'Vicentina' pesa em favor dele. A temática do filme, por si só, cria uma empatia, porque a premissa é muito forte”, avalia.


Vicentina é uma mulher cujo filho, motorista de um ônibus que despenca de um viaduto, matando quase todos que estavam dentro – inclusive ele próprio –, é suspeito de ter causado o acidente propositalmente, em uma ação suicida. Ela decide fazer um périplo em busca das famílias afetadas para, como indica o título, se desculpar.


Rejane destaca a entrega à personagem e a compreensão de cada mínima camada da trama que vai sendo construída. “Por mais medo ou insegurança, eu tinha certeza de que Gabriel ia tirar muitas coisas boas de mim com essa personagem”, afirma.


O diretor observa que, para além de uma produção específica, existe a questão da amizade e da confiança. “A gente não se conheceu para fazer este filme. Ele é, também, resultado de muita convivência e de conversas que vão além dos trabalhos que fazemos juntos”, diz.


Ele observa que, nos últimos anos, a parceria entre os dois tem se avultado em projetos maiores, como a série “O Natal dos Silva”, da Netflix. “Acordo com vontade de ir para o set, entusiasmado de saber que é essa pessoa que vou ficar olhando pela lente da câmera”, diz.


POSSÍVEL VITÓRIA

Sobre as chances de o longa sair vitorioso da competição em Toronto, o diretor diz que viajou para ver isso acontecer. “A gente tem que acreditar”, enfatiza. Rejane garante que também está otimista. “A forma como construímos o filme não deixa dúvidas de que ele é bom. Acho que 'Vicentina' tem muitas chances, porque é sincero, é honesto”, comenta.


Para o diretor, a atriz entregou, com sua interpretação da personagem que dá título ao longa, a maior atuação de sua carreira no audiovisual até o momento.


Ele já declarou que Vicentina foi pensada como um presente para Rejane. Ela, por sua vez, afirma que vem sendo presenteada há muito tempo por Gabriel, com quem já realizou diversos trabalhos.
“Considero que sou uma construção desse diretor, um cara que investiu no que ele viu em mim até chegarmos neste ponto. Me sinto presenteada o tempo inteiro, mas 'Vicentina' foi, sem dúvida, um grande momento”, afirma.


Com “Vicentina pede desculpas”, a Filmes de Plástico estreia parceria de produção e distribuição com a Netflix. O filme chega à plataforma em mais de 90 países no dia 20 de novembro, 15 dias depois de estrear no circuito comercial de salas de cinema no Brasil.


Gabriel Martins acredita que esse alcance e a participação em festivais como o de Toronto vão gerar um reconhecimento internacional sem precedentes para a produtora.


“Maurício Tizumba e Sérgio Pererê dizem que o tambor mineiro é do mundo, porque fazemos parte da cultura mundial. Penso o mesmo com relação aos nossos filmes. Nossas especificidades dialogam universalmente; só é difícil atravessar a fronteira, porque o ambiente é muito competitivo lá fora. No caso de 'Vicentina pede desculpas', são momentos que vão cravando selos para que ele ganhe mais atenção”, afirma.

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Rejane Faria considera que o olhar do mundo para o cinema brasileiro está mudando. “Agora temos a oportunidade de estar em mais lugares por conta dessa parceria (com a Netflix). Existe um desejo do mundo inteiro de ver coisas brasileiras, então isso é uma construção que vem de antes, com um festival aqui, outro acolá. Quando isso entra nas plataformas, é amplificado”, ressalta.

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