CINEMA

Filmes mineiros têm fase de destaque dentro e fora do país

Ricardo Alves Jr. estreia em festival na Espanha o terror "A professora de francês", estrelado por Grace Passô, diretora de "Nosso segredo", que ele produz

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Ricardo Alves Jr. vive hoje um dos melhores momentos da carreira. O longa “Nosso segredo”, de Grace Passô, do qual é produtor, saiu do último Festival de Cinema de Gramado com os kikitos de Melhor Filme, Fotografia e Direção de Arte. Nos próximos dias, “A professora de francês”, que ele dirige e tem Grace Passô no elenco, será exibido no festival de San Sebastián, na Espanha, no próximo dia 24, e, em outubro, no Rio de Janeiro.

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Embora seja uma coprodução entre Brasil, França e Portugal, o filme foi rodado em Belo Horizonte e acompanha Graça (Grace Passô). Ela mora com a namorada francesa, Clara (Jehnny Beth), e sobrevive dando aulas particulares de francês. Depois de uma emergência de saúde do pai, Graça volta à casa onde cresceu e encontra vizinhos que lideram uma seita na comunidade.



Ricardo tem definido o novo filme como “terror social”, já que as desditas enfrentadas pela protagonista funcionam como alegoria do aumento da violência na sociedade brasileira, a reboque da ascensão da extrema direita. “Não é um filme que tem elementos clássicos do gênero terror, como um monstro ou algo sobrenatural. O terror é muito concreto, muito real”, afirma.



“A professora de francês” demorou 10 anos para ser realizado. Nesse período, Ricardo acompanhou, perplexo, a escalada da intolerância em diferentes segmentos da sociedade brasileira, passando pela política institucional e pelas liberdades individuais.



De certa forma, isso implicou na dificuldade de terminar o filme. “Tivemos um desgoverno durante esse período, com uma política de audiovisual muito difícil”, diz o cineasta. “Com Bolsonaro, a Ancine [Agência Nacional do Cinema] parou. Em Minas Gerais, tivemos uma política do audiovisual praticamente desfeita ao longo dos últimos oito anos. Essa demora é um reflexo disso”.



LINGUAGEM PRÓPRIA


Ricardo começou a trabalhar no roteiro de “A professora de francês” ao lado de Germano Melo logo depois de rodar o circuito de festivais com seu primeiro longa-metragem, “Elon não acredita na morte”, no qual o personagem-título procura solucionar o mistério do desaparecimento da esposa, mas só encontra mal-entendidos pelo caminho.



Desde que migrou do teatro para o cinema, no início da década de 2010 – primeiro trabalhando como montador, roteirista e, depois, dirigindo –, ele tem desenvolvido uma linguagem própria, com preocupação muito grande em relação ao corpo do ator e à performance. Assim como no teatro ele procurava levar a ideia de câmera para as cenas, no cinema, leva a linguagem teatral para a interpretação, sem fazer de seus filmes teatro filmado.



Outro traço recorrente é o gosto por trabalhar nas fronteiras entre ficção e documentário. “Parque de diversões” (2024), seu longa anterior, segue nesta linha. Entre as décadas de 1940 e 1950, o Parque Municipal de BH virou local de flertes secretos entre homens. A trama, no entanto, reimagina o local como cenário para relações entre um grupo de anônimos que invade o local à noite, em busca de prazer.



Já em “Tudo o que você podia ser” (2023), que também conta com roteiro assinado por Germano Melo, Ricardo Alves Jr. coloca em cena Aisha Brunno, Bramma Bremmer, Igui Leal e Will Soares, pessoas reais que surgem no filme com os próprios nomes.



O longa tem como foco o valor da amizade e a dor antecipada da perda, afinal Aisha está indo para São Paulo, enquanto Igui comemora o fato de ter sido aprovada para estudar em Berlim. Em uma espécie de encontro de despedida, o grupo se reúne e compartilha experiências marcantes.



políticas públicas


O diretor faz parte de uma geração de cineastas mineiros que tem despontado nacional e internacionalmente. “Minas vive um bom momento do cinema, apesar do governo estadual”, diz Ricardo.



“O cinema feito por essa geração é um cinema que vem de políticas públicas. É feito por quem acredita que ele é um bem cultural de um país. Sem política pública, não conseguiremos ter diversidade de produção de imagens, porque serão feitos apenas os filmes que o grande mercado deseja”, diz.



Ele aponta ainda a necessidade de políticas públicas para o audiovisual terem continuidade. “A gente tem, hoje, a Ancine com recursos para o audiovisual, mas é muito necessário ter continuidade e aprimoramento. Por exemplo, ter um calendário para que os produtores possam trabalhar com previsibilidade. Essa talvez seja a crítica que eu faço hoje à Ancine. Não temos um calendário aberto ao público e sabemos que existe um gargalo imenso no campo da exibição. Temos muitos filmes e poucos cinemas.” 

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MINEIROS E O OSCAR


A Academia Brasileira de Cinema divulga nesta quarta-feira (9/9) a pré-lista com seis longas habilitados a representar o Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional da 99ª edição do Oscar, marcada para março do ano que vem. No mês passado, foi divulgada a primeira lista, com 15 longas dos quais vão sair os seis da pré-lista. Estão na disputa “100 dias”, de Carlos Saldanha; “A Conspiração Condor”, de André Sturm; “A fabulosa máquina do tempo”, de Eliza Capai; “A natureza das coisas invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Ato noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher; “Cinco tipos de medo”, de Bruno Bini; “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes; “Feito pipa”, de Allan Deberton; “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias; “O rei da internet”, de Fabrício Bittar; “Quando vira a esquina”, de Chris Alcazar; “Malês”, de Antonio Pitanga; “Papagaios”, de Douglas Soares; e os mineiros “Nosso segredo”, de Grace Passô; e “Vicentina pede desculpas”, de Gabriel Martins. A decisão final do título escolhido será anunciada no dia 16 de setembro.




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