GRAMADO, RS (FOLHAPRESS) - O Festival de Gramado chegou ao fim na noite deste sábado (22/8) coroando "Nosso Segredo" com o Kikito de melhor longa-metragem de ficção. O longa de Grace Passô ainda triunfou nas categorias de fotografia e direção de arte.

Nas outras alas principais, "Gonzaguinha, da Maior Liberdade", de Susanna Lira, foi eleito melhor documentário. "Feito Pipa" foi o preferido pelo júri popular e "Leite em Pó", o preferido da crítica.

Entre as atuações laureadas, José Loreto e Christian Malheiros dividiram o prêmio de melhor ator - o primeiro por "Chorão: Só os Loucos Sabem" e o segundo, por "Justino - Nos Bastidores do Reino" - e Teca Pereira levou melhor atriz, por "Feito Pipa".

Também com o último filme, Lázaro Ramos foi escolhido melhor ator coadjuvante, enquanto Naruna Costa arrematou o troféu de atriz coadjuvante, por "Pele de Rinoceronte".

Tanto na premiação quanto nas rodas de conversa de Gramado, os filmes que mais empolgaram o festival neste ano foram justamente "Nosso Segredo", "Feito Pipa" e "Justino - Nos Bastidores do Reino". Os três refletem sobre convivência e pertencimento em ambientes, por vezes, hostis. É uma coincidência interessante a pouco mais de um mês das eleições presidenciais.

"Feito Pipa" conta a história de Gugu - interpretado pelo promissor Yuri Gomes, que recebeu uma menção honrosa na premiação -, um garoto que mora em uma pequena cidade do Ceará com a avó, vivida Teca Pereira. A diferença geracional não impede o laço estreito dos dois, que encontraram família um no outro diante da ausência da mãe de Gugu e da distância de seu pai, Batista, vivido por Ramos.

O pai não aceita o filho, que gosta de dançar e se maquiar. O menino também adora futebol, mas Batista não dá muita bola para isso. O menino parece um desvio na sua vida atual, ocupada por outra mulher e filhos, enquanto avó e neto criam códigos próprios para entender um ao outro.

"Nosso Segredo", primeiro longa-metragem da celebrada atriz e dramaturga Grace Passô, também joga luz no cotidiano de uma família. Mãe, tia e quatro filhos, três maiores de idade e um menino, vivem debaixo do mesmo teto. O pai, única pessoa branca da casa, morreu há pouco.

A convivência funciona, apesar do luto, mas há sempre uma tensão estranha no ar. É como se houvesse um assunto proibido que empesteia o local. Se os habitantes da casa fazem companhia uns aos outros, seu estranho silêncio alimenta o que parece ser uma força sobrenatural.

Já "Justino - Nos Bastidores do Reino", de José Belmonte, toca em um tema contemporâneo e mais político, ainda que abordado de forma intimista.

Baseado no livro "Nos Bastidores do Reino: A Igreja Universal do Reino de Deus", o filme mostra como a igreja Universal, do bispo Edir Macedo, conseguiu se tornar uma das instituições mais poderosas do país ao conquistar milhares de fiéis e expandir a sua influência para a mídia e a política.

O longa acompanha Justino, vivido por Christian Malheiros, da série "Sintonia", garoto pobre que nasce em uma comunidade no Rio de Janeiro. Revoltado com sua realidade, ele almeja mudar de vida, até que conhece a igreja neopentecostal. A partir daí, ele se torna um pregador prodígio e uma importante peça na engrenajem do pastor Azevedo, vivido por Caio Blat - os nomes das pessoas reais foram trocados na obra.

Justino não é herói, mas também não é vilão. A fé o leva a encontrar uma comunidade e uma vocação. Para estar na igreja, porém, ele reprime a própria sexualidade e desvia do chamado que o levou à vida beata.

Outros filmes exibidos em Gramado, como "Antártida", "Pele de Rinoceronte" e "Leite em Pó", se debruçaram sobre a violência física e sexual contra a mulher - um tema igualmente atual, diante do aumento de casos de feminicídio e de denúncias de agressão por parte de mulheres na mídia.

Junto a "Antártida", gravado no maior estúdio de painéis de LED da América Latina, outra produção foi "Chorão - Só Os Loucos Sabem", cinebiografia protagonizada por José Loreto. Além de mostrar a personalidade conturbada do líder do Charlie Brown Jr, o filme mostra a relação complicada entre o cantor e Graziela Gonçalves, casada com ele por 15 anos.

Nesta edição, o festival coroou Selton Mello e Maria Fernanda Cândido com o Kikito de Cristal, dado a nomes de destaque do cinema nacional.

Ambos estiveram em "Ainda Estou Aqui" e "O Agente Secreto", respectivamente, filmes que impulsionaram a visibilidade sobre o cinema brasileiro na Europa, ao passarem por Veneza e Cannes, e nos Estados Unidos, com a corrida pelo Oscar.

Como era de se esperar, os discursos frisaram a importância dos festivais para a saúde do audiovisual no país, tema especialmente sensível depois de o Festival de Brasília, irmão mais velho de Gramado, quase foi cancelado por falta de financiamento.

O tom engajado deu lugar à emoção quando, em meio ao festival, morreram as atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes, coroadas em Gramado em 2005 e 2023, respectivamente, com o Oscarito. As homenagens transformaram a tristeza em uma espécie de compromisso coletivo com a continuidade do legado das damas da teledramaturgia.

Vencedores

 - Melhor longa-metragem brasileiro: 'Nosso Segredo'

 - Melhor longa-metragem documental: 'Gonzaguinha, Da Maior Liberdade'

 - Melhor filme pelo júri popular: 'Feito Pipa'

 - Melhor filme pelo júri da crítica: 'Leite em Pó'

 - Menção honrosa documentário: 'Empleitada'

 - Melhor direção: 'Feito Pipa', de Allan Deberton

 - Melhor ator: José Loreto, por 'Chorão - Só Os Loucos Sabem', e Christian Malheiros, por 'Justino - nos Bastidores do Reino'

 - Melhor atriz: Teca Pereira, por 'Feito Pipa'

 - Melhor roteiro: 'Leite em Pó'

 - Melhor fotografia: 'Nosso Segredo'

 - Melhor montagem: 'Justino - Nos Bastidores do Reino'

 - Melhor trilha musical: 'Chorão - Só os Loucos Sabem'

 - Melhor direção de arte: 'Nosso Segredo'

 - Melhor atriz coadjuvante: Naruna Costa, por 'Pele de Rinoceronte'

 - Melhor ator coadjuvante: Lázaro Ramos, por 'Feito Pipa'

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 - Melhor desenho de som: 'Leite em Pó'

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