Estrela Leminski lança o disco ‘Completamente poeta’
Filha caçula de Paulo Leminski grava "um lado afetivo mais aflorado e íntimo" na obra do pai, conforme ela diz; álbum chega às plataformas neste sábado (22/8)
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Quando Paulo Leminski (1944-1989) começava a escrever, fazia uma única exigência aos filhos: “Silêncio!”. Mas, na hora que pegava o violão, o pedido era outro. Reunia a esposa e os pequenos na sala, com a proposta: “Vamos brincar de fazer música?”.
“Era muito recorrente”, lembra a filha caçula, Estrela Leminski, que, neste sábado (22/8), lança o álbum “Completamente poeta”, só com canções do pai. O disco chega às plataformas digitais 12 anos depois do lançamento de “Leminskanções – Estrelinski e os Pauleiras”, projeto dela com a mãe, Alice Ruiz, que jogou luz sobre a produção musical do poeta curitibano pela primeira vez.
Em 2014, a proposta era reunir e dar nova vida às composições de Leminski, muitas delas inéditas ou pouco conhecidas, caso de parcerias com Itamar Assumpção (1949-2003), Moraes Moreira (1947-2020), Zé Miguel Wisnik, Ivo Rodrigues (1949-2010), Zeca Barreto, entre outros.
Com “Completamente poeta”, a ideia é outra. “As músicas deste álbum ficaram de fora do ‘Leminskanções’, e eu tinha muita vontade de cantá-las”, conta Estrela. “Também fui percebendo que havia outro aspecto do Paulo Leminski que não havia sido mostrado no disco de 2014, um lado afetivo mais aflorado e íntimo, justamente o que eu vivi com ele e que é pouco conhecido do público em geral.”
As faixas mais puxadas para o rock n’ roll de “Leminskanções” dão lugar às melodias sinuosas, com contornos sofisticados e complexidade harmônica, dentro de um repertório que transita entre a canção popular e o samba. Elas refletem a paixão do poeta pela música brasileira e até uma ligação mais forte com as religiões de matriz africana. “Tem várias coisas que eu acredito que foram resultado da influência que ele teve a partir da convivência com Moraes Moreira, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Paulinho Boca de Cantor”, avalia a filha.
INFLUÊNCIA DA BAHIA
“Flor de cheiro” é a que mais se aproxima da sonoridade dos baianos. A base feita pelo violão tem malemolência doce, acompanhada pela leve percussão e pelos versos suaves de “vi você à sombra de uma flor, com outra flor na mão”. Já “Eu vi a lua no mar” é um típico samba à la “Reconvexo”, de Caetano Veloso. A letra, no entanto, não nega a autoria de Leminski: “Eu via lua no mar, baby. / Maior que um copo de leite / e comecei a rezar / pra que você me aceite”.
A faixa-título de “Completamente poeta” é mais puxada para o bolero, enquanto “Tigre royal (Feel me)” tem leve roupagem de jazz e “Quem faz amor, faz barulho” volta ao samba. Dessa vez, ao samba de morro, com o toque acentuado da cuíca.
Na sequência, “Aonde você pensa que vai, guria” revive o lado rock n' roll de Leminski. A música, inclusive, guarda semelhanças com “Rock da cachorra”, composição-sátira de Leo Jaime, popularizada por Eduardo Dusek, em 1983, no álbum “Cantando no banheiro”. Até a ironia na letra se mantém (“Aonde você pensa que vai, guria? / Vai ficar com o papai”), embora não tenha o mesmo apelo social.
“Eu, o Téo [Ruiz, responsável pela direção musical do disco] e o Gus [Gustavo Ruiz, produtor do álbum] ouvimos essas versões no bruto, da maneira que meu pai gravou, em fitas cassetes. O Gus preservou as divisões musicais, efetivamente como meu pai fazia. Porque há algo muito peculiar: cada palavra tem musicalidade própria dentro do poema. O pensamento dele a respeito da divisão da música era totalmente por meio do tamanho da frase”, afirma.
“Tem muita coisa que foi desafiador para a banda tirar e gravar, porque é totalmente quebrado. Quer dizer, não é quebrado, soa natural. Mas segue uma lógica diferente do que normalmente os músicos costumam seguir”, comenta a cantora, citando a faixa “Você partiu”, cuja letra é um poema de Maiakovski (1893-1930) traduzido por Haroldo de Campos.
“APENAS POETA”
Em 1982, Paulo Leminski deu uma entrevista marcante ao jornalista curitibano Aramis Millarch com mais de quatro horas de duração, na qual revela o pensamento boêmio, o deboche e a erudição pop.
Em determinado momento, ele se irrita com o rótulo de “apenas poeta” e afirma explicitamente que se tornou músico no mosteiro beneditino onde viveu na adolescência, local em que estudou canto gregoriano.
Ainda ironiza a ideia de que não saberia música ou violão de verdade, argumentando que grandes nomes da MPB, como Caetano Veloso e o grupo A Cor do Som, gravaram suas composições respeitando exatamente as melodias que ele próprio criou no violão. Essa autodefesa de Leminski entra na faixa “Vida bandida”, que conta com participação de Vítor Ramil.
A única canção de Leminski que não é inédita em “Completamente poeta” é “Xixi nas estrelas”, parceria dele com Guilherme Arantes para o especial infantil “Pirlimpimpim 2”, exibido pela TV Globo em 12 de outubro de 1984.
“É extremamente atual, porque é uma música que acaba falando de poluição espacial, de lixo espacial”, ressalta Estrela. “Era algo que estava ali no ar um pouco no pós-Guerra Fria, mas que agora é uma realidade. A gente realmente está poluindo a nossa visão atmosférica e espacial”.
FAIXA A FAIXA
“Flor de cheiro”
“Eu vi a lua no mar “, com Léo Fressato
“Completamente poeta”, com Téo Ruiz e Manoel Cordeiro
“Tigre royal (Feel me)”, com Maurício Pereira
“Quem faz amor, faz barulho”, com Janine Mathias
“Aonde você pensa que vai, guria”
“Mãos ao alto”
“Vida bandida”, com Vítor Ramil
“Energia solar”, com Guilherme Arantes
“Xixi nas estrelas”, com Tulipa Ruiz e Téo Ruiz
“Você partiu”, com Ná Ozzetti
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“COMPLETAMENTE POETA”
• Disco de Estrela Leminski comcanções de Paulo Leminski
• 11 faixas
• Disponível nas plataformas digitais a partir deste sábado (22/8)