Olympia Angélica de Almeida Cotta (1889-1976), também chamada Sinhá Olympia, se tornou uma lenda de Ouro Preto. A mítica andarilha caminhava pela cidade com roupas enfeitadas e contando histórias – encantou até mesmo Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, quando visitaram Ouro Preto, em 1960, a convite de Jorge Amado. 

Ângela Mourão, atriz do Grupo de Teatro Andante, roda o Brasil e o mundo há 25 anos com o espetáculo “Olympia”, com texto de Guiomar de Grammont e direção de Marcelo Bones. Ela realiza no Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, temporada desta quinta-feira (6/8) a domingo (8/8), mês em que se celebram os 137 anos do nascimento de Olympia Angélica. 

A peça mescla realidade, ficção e delírios da andarilha ouro-pretana. No solo, a atriz interpreta Olympia, a narradora, a máscara – que representa os delírios da andarilha – e ela própria. Desde 2001, a atriz já apresentou a peça em diferentes regiões do país, além de Colômbia, Argentina, Espanha e Portugal. 





“São quatro registros de vozes diferentes e quatro corpos diferentes, é um espetáculo que exige muito fisicamente. É muita alegria conseguir seguir fazendo bem uma peça que já faço há 25 anos”, afirma Ângela Mourão. 

Na circulação da peça, a atriz percorreu lugares muito distintos, como pátios escolares da região do Vale do Jequitinhonha, hospitais, como o Instituto Raul Soares, e grandes salas, como o Teatro Nacional Cervantes, em Buenos Aires. Para ela, “o que contar” é tão importante quanto “como contar”.

“A Olympia me afirmou algo que eu já tentava com o Teatro Andante – a visão de fazer o teatro fora dos espaços convencionais e para públicos que não tinham acesso à cultura. Naquela época [2001], era muito mais restrito, por isso fazíamos principalmente teatro de rua. Com o espetáculo, aprendi que temos que estar prontos para levar a história para onde ela quiser ser ouvida”, diz a artista.





Olympia Cotta nasceu numa família de 13 filhos e morava em Ouro Preto. Segundo a intérprete, estudou em boas escolas, sabia ler e falava francês. A partir dos anos 1950, passou a percorrer ruas ouro-pretanas usando chapéus e vestidos inspirados na época imperial, já que nasceu na transição entre Império e República. Ela criava os trajes com papéis de bala e tampinhas, objetos que encontrava pelas ruas. 

Pouco antes da criação do espetáculo, Ângela Mourão foi para a Itália estudar produção de máscaras. Foi ali que ela idealizou a máscara que a acompanharia durante anos no espetáculo. “Quando cheguei lá, eles perguntaram o projeto que eu iria desenvolver. Eu disse: ‘quero construir uma máscara para representar uma mulher que vive na fronteira entre a sanidade e a loucura’”, conta. A atriz conta que a máscara é um foco do seu trabalho há décadas, despertado pelo trabalho corporal – envolvendo o corpo, o olhar e as expressões. 

Olympia Cotta, com seu visual excêntrico, tornou-se 'cartão-postal' de Ouro Preto. Em 2026, completam-se 50 anos de sua morte

Eugenio Silva/O Cruzeiro/EM D.A Press/1957

A andarilha foi retratada no documentário “Dona Olympia de Ouro Preto” (1970), de Luiz Alberto Sartori. Toninho Horta e Ronaldo Bastos escreveram a canção-tema do filme, com narração da própria Olympia. A música foi gravada por Milton Nascimento no álbum “Clube da Esquina 2” (1978) e por Toninho no disco solo “Terra dos pássaros” (1980). 

Em 1990, ela foi homenageada pela Mangueira no carnaval carioca, como personagem do enredo “E deu a louca no barroco”. Dona Olympia ainda foi considerada “a primeira hippie do Brasil” por Rita Lee. 

“OLYMPIA”

Solo de Ângela Mourão. Desta quinta-feira (6/8) a domingo (9/8), no Teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Belo Horizonte). Quinta e sábado, às 20h; sexta, às 20h30, e domingo às 19h. Ingressos à venda pela plataforma Sympla por R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia). 

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