Carla Madeira: 'O escritor é um corpo em processo de escuta'
Autora lota auditório da Casa Fiat no lançamento do novo livro, 'Quando', e tem novo encontro com os leitores de BH no dia 1º de setembro
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“Fiquei mais nervosa do que na Flip, acredita?”, revelou Carla Madeira, logo após o final do bate-papo com a editora Ana Lima Cecilio sobre “Quando”, mais recente romance da escritora mineira. O auditório da Casa Fiat de Cultura teve a lotação esgotada e parte do público acompanhou o encontro em telão montado na entrada do espaço cultural na noite da última quarta-feira (19/8).
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Com mais de um milhão de exemplares vendidos dos livros anteriores (“Tudo é rio”, “Véspera”, “A natureza da mordida”), a autora de Belo Horizonte fez questão de fazer o primeiro lançamento na cidade natal depois de conversar sobre o novo romance, em junho, na Festa Literária Internacional de Paraty com o escritor português Valter Hugo Mãe. “Ele considera ‘Quando’ o melhor livro de Carla”, lembrou Ana Cecilio, editora de literatura brasileira na Record, casa editorial que publica os livros da mineira.
Diante de quase 200 pessoas no auditório lotado, Carla Madeira contou que “Quando” nasceu após “sequência de lutos”, série de perdas de pessoas muito próximas. “Senti a necessidade de usar um recurso, o da linguagem, para dar conta do real”, contou. “Muitas vezes é mais importante o lugar de onde a literatura me tira do que o lugar para onde a literatura me leva”, ressaltou.
A escrita de “Quando” foi iniciada “de forma caótica”, mas com um ponto de partida bem definido: a história de uma mãe que denuncia à polícia o próprio filho. “É um livro bem diferente dos anteriores, e é muito notável como os livros se diferenciam entre si, mas percebemos de imediato que pertence ao ‘Universo Carla Madeira’”, observou a mediadora da conversa.
“Esse livro nasce de uma pergunta: Por que, coletivamente, estamos produzindo um mundo que, individualmente, a gente não quer? O que nos faz produzir um mundo tão desigual e violento?”, questionou Carla Madeira. “Temos uma tolerância com a desigualdade que é insustentável e a gente acha normal.”
Sobre o processo criativo, a escritora ressaltou que suas histórias não são autobiográficas. “Eu faço ficção: as personagens existem, mas não são reais. É tudo imaginação, mas os afetos são alguns que eu vivi ao longo da vida”, revelou. “Olho para a personagem e vejo o que ela faz para depois entender o que ela é. Não faço roteiro. Sou autora de improviso, mas no sentido que tem na música. Para improvisar, você precisa conhecer a tonalidade, de qual lugar você pode voar e a extensão do seu voo senão você se perde”, comparou Carla.
Em conversa descontraída, Carla quis saber quem havia lido “Tudo é rio”. Quase todos os presentes levantaram as mãos. Ela, então, falou sobre o seu maior best seller: “Nunca parto de uma pauta. Descobri que ‘Tudo é rio’ era um livro sobre perdão somente depois que foi publicado.”
“Acompanhar a Carla como editora é um privilégio imenso. Ela tem um domínio da escrita e uma certeza do que está fazendo raros de ver. Nossas conversas são mais acréscimos que direções, e se eu, como editora de um fenômeno como ela, às vezes me questiono sobre alguma coisa específica, ela parece não ter dúvida nenhuma. É muito bonito de ver”, afirmou a editora Ana Lima Cecilio.
Diante de familiares, amigos e admiradores de diferentes gerações, Carla provocou risadas ao contar a advertência que faz às pessoas próximas: “Pense bem no que você vai falar porque estou ouvindo”. “O escritor é um corpo em processo de escuta”. Ela contou também ter prometido à filha, Ana, que o próximo livro “será uma coisa mais leve”. E revelou a sucinta observação do filho, João, sobre o novo romance: “Gostei”.
Depois da conversa, encerrada pouco depois das 20h, a autora autografou “Quando” até as 22h. Além da assinatura, carimbou nos exemplares a imagem de um ramo de alecrim, uma das plantas favoritas da mãe, Irlanda, falecida em 2022. Pouco antes da morte, já gravemente doente, a mãe teve um momento de “felicidade intrusa” ao se deparar com um alecrim e admirá-lo. “No meio do caminho, tinha uma alegria”, lembrou a escritora, que levou uma muda da erva aromática para o lançamento e a ergueu ao fim do bate-papo.
“O lançamento do novo livro da Carla Madeira na Casa Fiat de Cultura é uma oportunidade de ampliar esse espaço de encontro com o público e com a produção cultural brasileira. A literatura, assim como as artes visuais e as demais linguagens que integram nossa programação, é capaz de provocar reflexões e criar novas formas de olhar para o mundo”, afirmou Ana Vilela, gestora cultural da Casa Fiat de Cultura. “Ter a presença de uma escritora tão próxima dos leitores mineiros reforça a vocação da Casa Fiat de Cultura de ser um lugar de experiências inspiradoras e de acesso à arte e ao conhecimento”, complementou.
Os leitores de BH terão, em breve, nova chance de escutar Carla Madeira falar sobre o novo livro. No dia 1º de setembro, às 19h30, ela participa do projeto “Sempre um papo” no Cine Theatro Brasil (Grande Theatro Unimed BH) em conversa mediada pela escritora paranaense Giovana Madalosso. A entrada é gratuita, por ordem de chegada, sujeita à lotação e capacidade do espaço. Cada pessoa poderá retirar um ingresso na bilheteria do teatro, a partir de 17h30, no dia do evento.
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