ARTES CÊNICAS

Ator de ‘Quem ama cuida’ vive três personagens em solo teatral em BH

Vandré Silveira, o Edson na novela, está em cartaz no CCBB-BH com ‘A hora do boi’, uma história sobre afeto, empatia e a relação entre humanos e animais

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Mineiro de Belo Horizonte radicado no Rio de Janeiro há quase 20 anos, o ator Vandré Silveira conta que sempre admirou a figura de São Francisco de Assis e sempre quis fazer um espetáculo que tratasse da relação dos homens com os animais. O mote para a realização desse desejo foram seus 25 anos de carreira. Em 2023, ele idealizou e levou à cena o monólogo “A hora do boi”, que, depois de quatro temporadas cariocas e duas paulistas, finalmente chega à sua terra natal.

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Em cartaz no Teatro 2 do CCBB-BH até o próximo dia 31, com apresentações de sexta a segunda, sempre às 19h, a peça tem direção de André Paes Leme e dramaturgia assinada por Daniela Pereira de Carvalho, a partir da ideia original de Silveira e de uma notícia que Daniela leu, publicada no jornal “A Tarde”, de Salvador, em 2018, sobre um boi que fugiu de uma feira agropecuária, foi para a praia de Stella Maris, na capital baiana, e sumiu em meio às fortes ondas do mar.


O enredo do espetáculo gira em torno de três personagens: Seu Francisco, que trabalha em um matadouro; o boi Chico, que está sob seus cuidados e com o qual mantém uma forte relação de afeto; e São Francisco de Assis, que é o narrador da história, dirigindo-se à plateia, numa quebra da quarta parede.


Silveira se alterna entre os papéis. “Há toda uma partitura vocal e de movimentos, bem como uma carga emocional para cada um deles”, diz. Ele explica que o boi Chico, por exemplo, é dotado de uma sensibilidade aguçada, um animal poeta que recita Baudelaire, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa e outros autores que ouve a filha do dono do matadouro lendo nas noites de insônia.


“Já o homem, Seu Francisco, está preso em uma estrutura capitalista, é servil, cumpre ordens, é manso e submisso, abateu centenas e centenas de cabeças de gado a mando dos patrões sem sentir nada, nem refletir sobre seus atos”, comenta.


À medida que vai se aproximando o momento em que o funcionário do matadouro terá que abater o boi que criou, reflexões sobre amor e empatia vão ditando os rumos do monólogo. “Existe essa equivocada visão antropocêntrica de que o homem é superior às outras criaturas. Ele lida de forma predatória com os animais e com os recursos naturais, de maneira geral. Eu queria discutir isso por meio da relação de afeto entre esse personagem e o boi. Procurei a Daniela e fomos desenvolvendo a ideia”, conta Silveira.


O ator ressalta que a montagem, que chegou a ser indicada a prêmios como Shell e APTR, não se limita a falar dos direitos dos animais e tampouco tem a pretensão de converter ninguém ao vegetarianismo – embora já tenha ouvido relatos de espectadores que deixaram de comer carne após assistirem à apresentação.


“A hora do boi” aborda, de forma tangencial, a forma como a engrenagem capitalista atua sobre homens e animais e também foca outras questões, como o machismo arraigado.


“A filha do patrão, essa moça que lê os autores que o boi Chico recita, é rejeitada pelo pai, que queria ter um filho homem”, diz Silveira. Ele pontua, entretanto, que o tema central do espetáculo é o amor. “Estamos vivendo um momento de muito individualismo, com a revolução digital, com as redes sociais, que geram um foco muito grande no eu. Precisamos olhar para o outro, para o coletivo. O amor é isso, sair de si, deixar o próprio umbigo, para se conectar com o próximo; é a grande mudança de que o mundo necessita”, afirma.


Silveira conta que das seis temporadas realizadas entre Rio e São Paulo, apenas uma contou com patrocínio. “É um esforço hercúleo produzir arte, teatro, então fico muito feliz de estar dando prosseguimento a esse projeto, que é muito caro para mim, porque reflete um momento da minha vida de maturidade pessoal e profissional.”


Sua última passagem por Belo Horizonte foi em 2016, com o espetáculo “O homem elefante”. Ele afirma que voltar a se apresentar em sua cidade natal tem um gostinho especial. “Sou cria do Cefart, da Fundação Clóvis Salgado, e tenho muito orgulho da minha formação e trajetória profissional, então sempre bate uma saudade de pisar nos palcos de BH. Fico feliz de poder mostrar para o público mineiro essa história de amor e empatia que nos faz repensar nossa relação com o planeta e com os seres que o habitam”, diz.

No ar na novela

Vandré Silveira também pode ser visto atualmente na televisão, integrando o elenco da novela “Quem ama cuida” (Globo), no papel do golpista Edson, e no remake de “Dona Beja”, na HBO Max, como o capitão Moacir.

Ele aguarda para 2027 a estreia de dois filmes da doutrina espírita nos cinemas: “Nosso lar 3 - Vida eterna” e “Emmanuel”, em fase de finalização. Neste último, o ator dá vida a Paulo de Tarso, mentor espiritual de Chico Xavier. Silveira classifica como “maravilhosa” a possibilidade de se alternar entre o teatro, a TV e o cinema.

“Trabalhar nesses dois filmes foi uma coisa que me sensibilizou não pela questão religiosa, mas pelo simbolismo, no sentido de que você pode sempre fazer outras escolhas, que te colocam num caminho de evolução. Estar na televisão também é muito bom, porque traz uma visibilidade grande, inquestionável, e acho muito gostoso as pessoas me abordarem na rua para parabenizar pelo papel. E 'A hora do boi' é uma joia, é o lugar para onde volto e me reconecto, me reabasteço, porque foi o teatro que me formou como ator”, comenta.

“A HORA DO BOI”

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Solo de Vandré Silveira. Em cartaz no Teatro 2 do CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários), com sessões de sexta a segunda, às 19h. Até 31/8. Ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia), à venda no site e na bilheteria do CCBB-BH.

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