Foi preciso olhar para trás para seguir em frente. Sem conseguir criar espetáculo inédito enquanto atravessava momento delicado na vida pessoal, a coreógrafa Deborah Colker mergulhou no acervo de sua companhia para encontrar ali um novo projeto.

O resultado é “Remix”, que reúne cenas de quatro espetáculos criados entre 1994 e 2014. As releituras chegam a BH neste fim de semana, com três sessões esgotadas. Restam poucos ingressos para a extra de sábado (1º/8), às 16h30, no Sesc Palladium.

“Remix” é a maior produção da Companhia de Dança Deborah Colker, que completa 32 anos. São toneladas de equipamentos, cortina de 12m de altura, roda gigante de 5m de diâmetro e instalação formada por 90 vasos. O espetáculo reúne trechos de “Vulcão” (1994), “Rota” (1997), “4x4” (2002) e “Belle” (2014).

A ideia surgiu depois da homenagem de crianças reunindo coreografias inspiradas em espetáculos do grupo. Deborah atravessava um período difícil: a morte do neto Theo, aos 14 danos, de epidermólise bolhosa, doença genética rara, e problemas de saúde do companheiro, o cantor Tony Platão, que sofreu um AVC no fim de 2024. Ela quase abandonou a criação.

“Precisei olhar para dentro, buscar forças para prosseguir”, revela. Ao se reencontrar com as coreografias, percebeu que elas dialogavam com o presente. Algumas ganharam novos movimentos, outras tiveram a dinâmica alterada.

“Cada espetáculo levou pelo menos dois anos e meio de pesquisa. Quando revisitamos o material, vi que ele ainda tinha força e relevância”, diz. A viagem pela história da Companhia Deborah Colker começa por “Vulcão”, o espetáculo de estreia embalado por canções românticas populares. “Não é sobre o amor. É sobre a paixão, aquele momento em que você está descontrolado, impetuoso”, explica Deborah.

Na sequência vem “Belle”, inspirado no romance “A bela da tarde”, de Joseph Kessel, sobre mulher dividida entre a vida burguesa e o desejo de explorar o desconhecido. “Bem-casada e envolvida pelo amor, ela sente um vazio e precisa conhecer esse submundo”, resume a coreógrafa.

Os mesmos vasos

O primeiro ato termina com “4x4”, grande destaque do repertório. O palco se transforma em tabuleiro, sobre o qual se dispõem 90 vasos pintados à mão. Bailarinos atravessam espaços entre as peças e, em certos momentos, Deborah toca piano ao vivo.

“Esta coreografia exige muita habilidade do bailarino. É preciso dançar em um espaço muito restrito, sem derrubar ou quebrar nenhuma peça”, diz Deborah. Detalhe: os vasos atuais são os mesmos da estreia, em 2002.

A roda gigante de “Rota”, no segundo ato, precisou passar por reformas. Atualmente, a companhia trabalha com duas estruturas, que se revezam por causa da manutenção do equipamento.

'Rota' desafia a Lei da Gravidade com sua roda gigante que tem 5m de diâmetro

Cia de Dança Deborah Colker

Com 5m de diâmetro, a roda recebe até oito bailarinos ao mesmo tempo. “A gente ocupa e explora o espaço. A gravidade parece desaparecer e os bailarinos entram no estado de flutuação”, explica.

Em cena estão 16 bailarinos. A maioria ingressou no grupo há dois ou três anos, não participou das montagens originais. Alguns nem sequer haviam nascido quando “Vulcão” e “Rota” estrearam. Deborah explica que a renovação do elenco é inevitável, “pois são espetáculos que demandam muito fisicamente.”

Surpresa

A recepção a “Remix” encanta a criadora. “Quem já conhecia a companhia ficou muito feliz por rever os espetáculos. Quem está chegando agora pergunta: 'Como alguém dança dentro desta roda? Como consegue dançar entre estes vasos?'. É a mesma surpresa que a companhia provocava nos anos 1990 e 2000”, diz a coreógrafa.

Deborah Colker comemora as quatro sessões lotadas em Belo Horizonte. “A gente sempre batalhou pela formação de público, viajando e fazendo espetáculos com muito cuidado para mostrar a força da dança, para fazer este universo se comunicar com as pessoas”, finaliza.

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“REMIX”

Com a Companhia de Dança Deborah Colker. Sexta-feira (31/7) e sábado (1º/8), às 20h30; domingo (2/8), às 18h. Grande Teatro do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Todas as sessões lotadas. Restam ingressos para a plateia 3 da sessão extra de sábado, às 16h30. Preço: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia), na plataforma Sympla e na bilheteria.

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