A história chocou o país. Em 2012, a técnica em enfermagem e ex-acompanhante de luxo Elize Matsunaga matou o marido Marcos Matsunaga, herdeiro da empresa Yoki, com um tiro na cabeça. Esquartejou e jogou o corpo perto de Cotia, no interior de São Paulo. Fez tudo isso com a filha bebê em casa. Condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão, Elize obteve liberdade condicional em 2022. Desde então, vive com relativa discrição na cidade paulista de Franca.

O crime voltou a chamar a atenção por causa da série “Tremembé” (Prime Video), lançada no ano passado, e, agora, devido ao longa-metragem “Elize: Sombras de uma mulher”, que estreia nesta quarta-feira (22/7), na Netflix. Com direção de Felipe Vellas e roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres, é a primeira ficção sobre o caso, que chega na esteira do sucesso dos true crimes.

“Existem muitas obras sobre a Elize. São documentários, livros e reportagens. A ficção nos dá a possibilidade de desenvolver um pouco mais a relação do casal e o que levou a acontecer o que aconteceu”, diz o diretor.

Para ele, seu longa não é mero entretenimento. “Nós nos baseamos em laudos, autos da polícia e da Justiça e em todas as informações, porém com o ponto de vista da Elize. Não é um filme só sobre o crime, mas sobre esse universo, tão atual hoje em dia, de tantos casos de feminicídio, violência doméstica, relações tóxicas, ciúmes e violência psicológica.”

No entanto, Vellas ressalva: “Não estou aqui para defender nenhum dos lados. O que eu quero é o debate.”

O filme “Elize: Sombras de uma mulher” contempla o período de três anos, desde quando a protagonista, interpretada por Lorena Comparato, conhece Marcos (Henrique Kimura) em um site de prostituição até a descoberta da autoria no homicídio pelas autoridades.

Nas primeiras cenas, Marcos ainda é casado. Durante programa com Elize, o telefone toca duas vezes. Do outro lado da linha está a esposa, descrita por ele como “louca” e prestes a ser internada em uma clínica psiquiátrica.

O relacionamento evolui rapidamente. Marcos abandona a primeira mulher, assume Elize e lhe dá um carro de presente. Em visita à família no interior do Paraná, a protagonista relembra traumas de infância, como o abuso sexual cometido pelo padrasto e a relação conflituosa com a mãe.

Filme destaca a relação tóxica entre ex-garota de programa Elize (Lorena Comparato) e o milionário Marcos Matsunaga (Henrique Kimura)

Ana Pazian/Netflix

“A pergunta que a gente se fazia era: o que levou Elize a esse ato tão brutal? O tiro muita gente consegue entender, mas ela fez uma coisa além: esquartejou o corpo. A gente não vai alcançar essa verdade, mas o que podíamos fazer é trazer discussões sobre violência e sobre como você lida com traumas”, ressalta a roteirista Mariana Torres, no material sobre o filme enviado à imprensa.

“A Elize foi uma menina que sofreu muita violência. Isso marca a vida de qualquer mulher. Depois ela caiu numa relação abusiva, a repetição do padrão. O alerta sobre a violência é importante. Acho que talvez este seja o maior trunfo do filme”, acrescenta a roteirista.

A vida de casada não é ruim no início. As coisas começam a desandar quando o casal percebe dificuldades de Elize para engravidar. Para piorar, as viagens de Marcos passam a ser cada vez mais frequentes e, aos poucos, o herdeiro da Yoki se revela manipulador, infiel e violento.

Gota d'água

A esperada gravidez chega, mas isso não faz com que Marcos mude. A desconfiança de Elize aumenta. Investiga por conta própria e descobre que o marido pediu recentemente informações a respeito de internação compulsória em clínica psiquiátrica. Passa a acreditar que Marcos a trai e pretende interná-la, como fez com a ex-mulher.

A filha do casal nasce. A rotina da casa se mantém e Elize contrata um investigador para seguir o marido. Descobre, então, que ele a trai com uma garota de programa. É a gota d’água.

“Usei a Elize ficcional para contar a história real dela”, afirma Vellas. “Todas as vezes que, no filme, a pessoa pode começar a ter sentimento de pena ou empatia, crio uma sequência quase matematicamente para não se gostar mais dela (de Elize). Fiquei criando essa dualidade na cabeça das pessoas justamente para plantar a dúvida”, explica.

O cineasta diz que “Elize: Sombras de uma mulher” aborda questões importantes. “Existe um tema escondido no meio disso tudo: a relação tóxica. O lugar de submissão da mulher em que a Elize, no filme pelo menos, não quis se colocar. As mulheres estão cansadas do que vem acontecendo com elas: feminicídio, violência, desigualdade no mercado de trabalho… Então, acho que o filme pode trazer reflexões”, afirma.

“Não estou falando que a pessoa vai virar criminosa. Mas é um filme para pensar um pouquinho”, pondera o cineasta.

“ELIZE: SOMBRAS DE UMA MULHER”

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Brasil, 2026, 90 min. De Felipe Vellas. Com Lorena Comparato, Henrique Kimura e Miwa Yanagizawa. Disponível na Netflix.

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