Dado Villa-Lobos, com 40 anos de carreira, faz aniversário hoje e constroi jornada autoral, enquanto mantém o legado da Legião Urbana
- (crédito: Bossa Bossa Bossa/divulgação)
crédito: Bossa Bossa Bossa/divulgação
“É sempre um desafio lançar música nova. As pessoas querem ouvir Legião Urbana. Você tem que desencanar e ir em frente”. Dado Villa-Lobos, que completa 60 anos nesta segunda-feira, sabe, há muito, que não há como fugir ao legado. Tem plena consciência de que o modus operandi na música mudou não é de hoje.
“Há 40 anos o meu ofício é fazer bolacha. Hoje, com tudo no digital, você não ouve o disco. Fiz tudo à minha maneira, pois não sei fazer de outra”, acrescenta Dado, em referência a seu novo álbum, “O que você quiser”. São 12 faixas, já disponíveis nas plataformas, com edição em vinil saindo no final de julho.
Músico solo desde o fim da Legião, 30 anos atrás, após a morte de Renato Russo (1960-1996), Dado faz álbuns bissextos. O atual é o quarto da carreira discográfica iniciada em 2004, com “Jardim de cactus”. Ainda que intercale tal produção com a criação de trilhas para cinema e TV, continua pensando a música de forma coletiva. “Não faço nada sozinho, sempre em conjunto. Música, para mim, é a sintonia entre as pessoas.”
Isso explica a quantidade e diversidade de músicos e compositores que participaram do novo trabalho. De Fausto Fawcett, coautor da faixa-título, a Humberto Gessinger, parceiro de “Adeus bem-vinda” (a guitarra aqui é de Herbert Viana).
Na composição, os parceiros mais constantes foram Nenung, que divide canções com Dado desde a estreia dele em disco.
Humberto Gessinger e Dado Villa-Lobos são parceiros em 'Adeus bem-vinda', faixa do álbum 'O que você quiser'
Instagram/reprodução
“O que você quiser” está saindo agora pelo Rockit!, selo e estúdio de Dado, mas começou a ser gestado na pandemia. Durante a reclusão, veio a explosão criativa. “Mais quieto em casa, comecei a ficar irrequieto e criei certos temas que tinham relação com o que estávamos vivendo. Era quase um diário do cotidiano conturbado do Brasil.”
'Portal' da Antártida
Nessa seara estão as faixas da primeira parte do disco. Dado dá início ao trabalho de forma ousada, com “Endurance”, faixa instrumental gélida. A referência imediata é o explorador britânico Ernest Shackleton (1874-1922) e suas façanhas inigualáveis como comandante do veleiro Endurance na Antártida. “Essa música é meio um portal para entrar na história do disco”, comenta.
O clima é mais duro em algumas canções. Dado quase recita o petardo apocalíptico que Fawcett criou para a camada de guitarras e sintetizadores em “O que você quiser”. Já “Lado a lado” é um rock com levada e refrão fáceis, mas letra pesada, que trata de exilados e fronteiras. O punk rock, praia em que Dado trafega desde sempre, é a base de “Kill the Klan”.
O tema da imigração é desenvolvido de outra maneira em “Exílio no meu bairro”, canção de tom mais suave criada em outra fase da pandemia. Dado tem dois filhos e cinco netos. A filha caçula, Miranda, vive em Portugal. Em dado momento de 2021, ele viajou para Lisboa. “Quando cheguei, veio a (variante) Ômicron. Fiquei 10 meses lá, pois não tinha voo. Mas a família se juntou, foi incrível.” Desta safra vieram “Exílio do meu bairro” e “Os pássaros”.
Pandemia
No pós-pandemia foi retomada a agenda da Legião, que se estendeu até 2024. “Ainda que absorvido por aquilo, continuei trabalhando paulatinamente no estúdio. Fui montando as canções, chamando os parceiros e entendendo o que o repertório estava representando. Quando mostrei pra galera, falaram: ‘Cara, esse disco está meio sombrio, pesado. Então resolvi fazer canções mais solares, mais bonitinhas.” Sob esse viés vieram “Adeus bem-vinda” e “Dois brilhantes” – esta tem relação com o nascimento dos netos gêmeos, no Rio.
Mas é outra neta, Aurora, quem brilha no disco. É dela a letra de “Instituto Vida Livre”. Ao lado do estúdio de Dado, no Jardim Botânico, existe o instituto que dá nome à canção. A iniciativa socorre animais silvestres e os recupera para depois levá-los de volta para seu habitat.
A menina portuguesa, de 7 anos, estava passando férias no Rio. “Foi quando apareceu uma maritaca desfalecida lá em casa. Falei com ela para irmos ao instituto levá-la. Tocamos a campainha e vimos o lugar cheio de bichos, todos em recuperação. Logo depois, Aurora, que fica inventando músicas o tempo todo, disse que tinha feito uma sobre o lugar.”
Faixa-bônus do novo trabalho, “Instituto Vida Livre” encerra o álbum de maneira simples e amorosa, trazendo a menina, com seu português lusitano, cantando com o avô.
Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos vão tocar canções da Legião Urbana em agosto, no festival paulistano C6 no Rock
JP Sofranz/divulgação
Qualquer mal-estar entre Dado e Marcelo Bonfá diante de declarações recentes do baterista (que afirmou que eles se afastaram por “incompatibilidades ideológicas”) será posto de lado em breve. Os dois voltam a tocar Legião Urbanano festival C6 no Rock, em 22 e 23 de agosto, no Parque Ibirapuera, na capital paulista.
Vão executar, na íntegra, o álbum “Dois”, ao lado da banda com que excursionaram na última década. O evento recria, no palco, discos clássicos que completaram 40 anos: “Selvagem?” com os Paralamas; “As aventuras da Blitz” com a banda e Fernanda Abreu; “Rádio Pirata ao vivo”, com Paulo Ricardo, entre outros.
“Estou tocando Legião há 10 anos. Já deu, vamos partir pra outra. Mas aí veio a Monique (Gardenberg, idealizadora do festival) convocando, é impossível falar não pra ela. Vamos ensaiar três dias, ir para São Paulo e ‘tá massa’”, diz Dado. Pelo menos por ora, será apenas um show.