Dois pais divorciados se unem para realizar os desejos do filho antes que ele perca a visão. A história já foi contada no cinema em 2018, em “Ya veremos”, do mexicano Pedro Pablo Ibarra. Agora, ganha uma versão francesa em “Olhe o mar”, em cartaz no Cine Belas Artes, dirigida por Emmanuel Poulain-Arnaud.
Este é o terceiro longa do diretor, que já abordou as relações familiares em situações inusitadas. Em “Les cobayes” (2020), Emmanuel acompanhou um casal junto desde a adolescência que entra em crise após o nascimento do primeiro filho. Já em “Le test” (2021), o cineasta mostrou uma mãe que encontra um teste de gravidez positivo no banheiro de casa e tenta descobrir qual dos filhos é o responsável.
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“Olhe o mar” começa com imagens do litoral francês em um dia ensolarado. Um telefone toca e o espectador é transportado para o quarto de Chris (Audrey Fleurot), uma mãe divorciada que passou a noite bebendo com um homem que agora divide a cama com ela.
Do lado de fora, o filho Milo (Ewan Bourdelles) e o ex-marido Antoine (Dany Boon) esperam para que ela abra a porta. O pai está ocupado e pede que Chris leve o garoto para surfar. Sem conseguir explicar a situação dentro de casa, ela aceita.
No caminho para a praia, Chris percebe um machucado no corpo do filho e pergunta o que aconteceu. O garoto tenta desconversar, mas, diante da insistência da mãe, admite que acredita estar com um problema de visão.
Os dois vão ao médico e o garoto recebe o diagnóstico de retinite pigmentosa, uma doença genética e degenerativa que afeta a retina. No caso de Milo, a condição já está em estágio avançado e fará com que ele perca a visão gradualmente. A notícia muda a rotina da família e obriga Chris e Antoine a deixarem de lado os próprios conflitos para enfrentar juntos a nova realidade do filho.
Poulain-Arnaud, que também assina o roteiro, escolhe a comédia como ponto de partida para abordar o tema. A decisão foi influenciada por sua experiência durante o tratamento de um câncer, quando descobriu que crises familiares também podem revelar momentos de humor e afeto.
BRAILLE E BENGALA
Em “Olhe o mar”, a perda gradual da visão de Milo funciona como o ponto de partida para a reconstrução dos laços entre pais e filho. O adolescente precisará aprender braille, usar bengala e passar a frequentar um instituto especializado para jovens cegos. Diante da notícia, os pais decidem colocar as diferenças de lado. Chris propõe que os três passem juntos os últimos 15 dias antes do início dessa nova etapa da vida do garoto.
Os pais cogitam levá-lo para destinos como Brasil, México ou Tanzânia. A escolha final, porém, parte de Milo. Ele prefere voltar ao litoral onde passou os verões da infância para reencontrar Nina (Amalia Blasco), uma paquera antiga de férias.
Em determinado momento, Milo e os amigos conversam sobre o que gostariam de ver caso estivessem prestes a perder a visão. Um deles cita o Taj Mahal, outra menciona Timothée Chalamet sem roupa. Em consenso, os colegas decidem que o protagonista deveria aproveitar o tempo que lhe resta para ver pela primeira vez os seios de uma mulher.
Com cerca de 90 minutos de duração, o longa aposta na comédia dramática e evita transformar a deficiência em sofrimento. A escolha produz momentos divertidos, o problema é que acaba eliminando quase por completo o peso emocional da situação.
Milo parece mais incomodado com a convivência forçada entre os pais do que com a perspectiva de perder a visão. A mesma simplificação se aplica aos adultos. Antoine e Chris passam anos acumulando ressentimentos. No entanto, bastam alguns dias de viagem para que os conflitos desapareçam.
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O resultado é um filme simpático, leve e por vezes engraçado, mas que evita mergulhar nas consequências mais complexas de sua própria premissa.
