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Estado de Minas

Adolescentes organizam grupo para discutir feminismo

Feministas assumidas, jovens batalham em várias frentes para democratizar os debates


20/07/2015 06:00 - atualizado 20/07/2015 07:58

Coletivo Lunáticas: surgiu da ideia de adolescentes como Clara Borges, Alice Vitral, Luana Prates e Gabriela Rezende, de Belo Horizonte. amigas e colegas de escola que se definem como
Coletivo Lunáticas: surgiu da ideia de adolescentes como Clara Borges, Alice Vitral, Luana Prates e Gabriela Rezende, de Belo Horizonte. amigas e colegas de escola que se definem como "meio grupo e meio projeto" (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Aos 14, 15 anos, a vida é feita de sonhos: ter o tênis da moda, fazer a selfie com o ídolo da banda preferida, manter em segredo o querido diário e suspirar pelo gato da escola. Mas, para um grupo de garotas, a adolescência é tempo de desconstruir ideias que não combinam com essa geração. “Meninas só devem vestir rosa”; “futebol é coisa de meninos”; “meninas não andam de skate e precisam ser protegidas”. Nada disso faz sentido no universo das jovens feministas. Coletivos de meninas ganham espaço na rede mundial de computadores. É o caso do Lunáticas, Capitolina e o Amoras Selvagens. São comunidades de meninas com idade entre 13 e 20 anos interessadas na discussão de gênero. A internet tornou-se uma fonte de formação para muitas delas. Mas engana-se quem pensa que elas ficam apenas nas mídias sociais. As discussões ganham a cidade, com ações criativas e provocativas.

É o caso de Clara Borges e Clara Vieira Machado, ambas de 14 anos, Alice Vital e Luna Prates, ambas de 15, e Gabriela Rezende, de 16, que integram o Lunáticas.“Somos um grupo-projeto. O que quer dizer? Somos meio grupo e meio projeto”, diverte-se Alice. Em alto e bom som, as meninas não têm medo de se autointitular feministas. O nome do grupo é em homenagem a Luna, que, nas palavras de Gabriela, “vivia no mundo da lua”. Mas, se a cabeça está no astro, o corpo e a ação dessas meninas estão bem enraizados em Belo Horizonte.

As adolescentes resolveram criar o coletivo a partir de debates e discussões realizadas na Escola da Serra, no Bairro Serra, Região Centro-sul, onde estudam. Desde março, elas ultrapassaram os limites da escola e colocaram as ideias para circular pela cidade. Fizeram lambe-lambe, cartazes para afixar nos postes, e fanzines, que, em uma tradução literal, seriam revistas feitas por fãs. Em três meses, fizeram cinco edições da minizine. “A cidade é um espaço nosso”, diz Alice. “Temos que domá-la e colocar a nossa assinatura”, completa Luna. As meninas entendem a rua não apenas como um lugar de passagem, mas como espaço para interagir e, por que não, expor ideias. “A rua é uma galeria”, define Luna.

A assinatura a que elas se referem são os lambe-lambes que trazem figuras como a pintora mexicana Frida Khalo e mensagens bem provocativas contra o machismo. Com o mundo de referência que a internet descortina, as meninas dialogam com grafiteiras e movimentos artísticos do Brasil e de outros países. Buscam referência no trabalho de artistas de rua, como Negahamburguer, Mag Magrela, Anarkia Boladona e o movimento Riots Girrrl (veja perfis).

Em junho, elas montaram uma banca para apresentar o trabalho no Festival Literário Internacional (FLI-BH) no Parque Municipal Américo Renné Giannetti. Lá falaram para gente de toda idade o que entendem por feminismo. “O que é o feminismo? É a luta pela igualdade de gênero”, afirma Alice, a primeira a propor a discussão entre as amigas. Apesar da pouca idade, as meninas não têm dúvida que a diferença que se estabelece entre elas e eles já é sentida desde a infância. “Os pais falam que a menina corre igual a menino. Que não pode andar de skate e jogar bola. Certa vez, uma garota me parou na Praça JK para me dizer que menina não andava de skate. Eu perguntei a ela, por quê não?”, diz Gabriela.

Para Alice, mesmo as meninas que se encaixam no papel feminino também sofrem com a demarcação de gêneros, vistos como caixinhas onde as pessoas devem permanecer. “Mesmo as meninas que se encaixam no estereótipo são vistas como frívolas.” “Os meninos podem ser livres, leves e soltos. Por que a gente não?”, questiona Clara. As meninas fazem questão de reafirmar que não se trata de guerra entre homens e mulheres e que convivem bem com o sexo oposto. “Muita gente pensa que, com o feminismo, as mulheres passam por cima do homem, mas não é isso”, afirma Luna. “Algumas pessoas falam em femismo, uma palavra que seria o oposto do machismo. Mas isso não existe na prática. É uma simetria só das palavras. Em uma sociedade patriarcal, dominada pelos homens, não tem espaço para existir o femismo”, completa Alice.

As meninas não fazem distinção de idade para conversar sobre o feminismo, mas assumidamente querem fazer diferença entre os colegas de sua faixa etária. Aos poucos elas fazem palavras como empoderamento e autonomia entrarem no vocabulário adolescente. “Com o nosso trabalho, podemos abrir a mente e a cabeça das pessoas. Como colamos o lambe-lambe nas ruas, todas as classes sociais podem ver.” As meninas assumem que, como outras adolescentes, também gostam de interagir nas mídias sociais e, inclusive, criaram a página das Lunáticas no Facebook. No entanto, fazem questão de ocupar os espaços públicos da cidade com suas mensagens.

Não existe assunto tabu para as meninas que, nos zines e lambe-lambes, abordam de tudo sem medo. Falam da sexualidade, da relação de uma menina com outra menina e defendem a autonomia. Até o termo sororidade já entrou no vocabulário das pequenas feministas. “Sororidade: o amor entre as irmãs (minas, manas) ou chamar as minas para dançar na lua cheia com você”, escreveram na edição número 1.

Outros coletivos também divulgam o feminismo. A estudante Bárbara Mesquita, de 17, acompanha a comunidade Amoras Selvagens. “O feminismo é um assunto tão complexo. Dentro do que entendo posso me considerar feminista”, diz. Para ela, as diferenças entre meninos e meninas é muito forte na adolescência. Uma delas, na sua opinião, está no vestuário, uma vez que os meninos têm mais liberdade para vestir o que quiserem e inclusive sair sem camisa. “No carnaval, um amigo me disse que não era tranquilo eu sair de short, mas ele estava sem camisa”, lembra.


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