A fórmula do sucesso o Grupo Galpão não tem. Mas que a trupe belo-horizontina encontrou os elementos certeiros para fazer de “(Um) Ensaio sobre a cegueira” fenômeno teatral, isso é incontestável. Músicas autorais maravilhosas, interpretações viscerais, adaptação impecável do romance de José Saramago (1922-2010) e direção ousada de Rodrigo Portella, que decidiu abrir espaço para 14 pessoas da plateia subirem no palco e contracenar com o elenco durante quase a peça toda.

O resultado foram os prêmios Shell de Melhor Direção e APCA de Melhor Espetáculo de 2025. “É uma peça que foi abraçada pelo público em todas as praças por onde passou”, comenta o ator Eduardo Moreira, um dos fundadores do Galpão. “O que me chamou a atenção é que, infelizmente, o romance do Saramago se tornou mais atual, em certo sentido. Quando foi lançado, há 31 anos, a gente não tinha passado por uma pandemia e nem convivia com a crise mundial dos regimes democráticos, principalmente pela ascensão da extrema-direita”, ressalta.

“(Um) Ensaio sobre a cegueira” volta a ser montado em BH entre 25 de junho a 14 de julho. Dessa vez, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas. A mudança foi estratégica. “A gente sempre gosta de fazer no Cine Horto, mas, em alguns momentos, é importante encontrar outros públicos. Existem pessoas que normalmente não vão ao Cine Horto”, explica o ator.

Estritamente fiel ao romance de Saramago, a peça acompanha uma epidemia inexplicável de “cegueira branca” que mergulha a sociedade no caos. Os acometidos são obrigados a viver num sanatório insalubre, correndo risco de vida.

Quando estreou, no final de abril do ano passado, o espetáculo havia sido montado no teatro de arena da sede do Galpão. Os dramas dos personagens se desenvolviam diante de olhares muito próximos. Era quase como se o público estivesse dentro. Já a nova montagem, será no palco italiano, com certo distanciamento pela boca de cena, cortina e plateia à frente.

Nada disso influencia a montagem, garante Eduardo. “Já fizemos em vários palcos diferentes e funcionou muito bem. Quando o palco é amplo, caso do (palco) italiano, a gente consegue imprimir essa sensação de vazio que o romance traz”.


DRAMA REAL

Enquanto apresentava o drama fictício, dois outros, reais, se impuseram à trupe. Em dezembro do ano passado, Teuda Bara morreu, aos 84 anos, por infecção generalizada. No mesmo mês, veio à tona a notícia de que o proprietário do imóvel onde funciona a sede do Galpão decidiu colocar o prédio à venda, o que causou temor de despejo e perda do espaço ocupado há quase três décadas.

“Estamos em negociação e com boas perspectivas de o Galpão ter o espaço como comodato”, afirma Eduardo. “O Cine Horto cumpriu papel fundamental para a cultura e para o teatro da cidade. Mas vivemos numa sociedade governada pela especulação imobiliária. Por isso, é fundamental que o grupo tenha uma garantia de que vai poder permanecer ali naquele espaço. O problema é que a gente vive a nulidade do poder público, principalmente estadual. Esse governo representa a ineficiência de Minas Gerais”, critica.

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“(UM) ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA”

Adaptação do Grupo Galpão para o romance de José Saramago. Direção: Rodrigo Portella. De 25 a 28/6, quinta-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h. De 3 a 5/7, sexta-feira e sábado, às 20h; domingo, às 19h. De 7 a 14/7, terça-feira a sábado, às 20h; domingo, às 19h. Ingressos: R$ 78 (inteira) e R$ 43 (inteira/valor promocional de acordo com disponibilidade dos ingressos). Na hora da compra, a pessoa pode escolher “Ingresso experiência”, que garante a participação no palco. Vendas na bilheteria ou no Sympla.

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