Os yanomamis acreditam que sonho e realidade coexistem sem fronteiras, um influenciando constantemente o outro. Inspirados por essa visão indígena, Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar dirigiram “Dolores”, que estreia nos cinemas de Belo Horizonte nesta quinta-feira (4/6).

A personagem-título, interpretada por Carla Ribas, tem 65 anos e decide se reinventar após a morte do marido. Moradora da periferia de São Paulo, vende calcinhas em frente a uma prisão e alimenta o sonho de abrir um cassino, apesar do antigo vício em jogos.

Dolores tem a filha Deborah (Naruna Costa), que espera a saída do namorado da prisão para recomeçar a vida, e a neta Duda (Ariane Aparecida), funcionária de loja de armas que deseja se mudar para os Estados Unidos.

O filme “Dolores” encerra a “Trilogia do afeto” concebida pelo roteirista e diretor Chico Teixeira (1958-2019). Assim como os filmes “A casa de Alice” (2007) e “Ausência” (2014), acompanha personagens atravessadas por limitações emocionais, sociais e econômicas.

Chico Teixeira fez o argumento do longa, posteriormente desenvolvido pela dupla de diretores. Marcelo Gomes diz que o trabalho foi atualizar algumas visões das personagens, aprofundando relações, desejos e contradições.

O tema dos sonhos foi incluído pelos cineastas. Em trabalhos recentes, Marcelo explorou o inconsciente ao dirigir “Criaturas da mente” (2025), enquanto Maria Clara fez o documentário “Explode São Paulo, Gil” (2025), sobre empregada doméstica que sonha ser cantora.

“O cinema do Chico, o cinema da Maria Clara e o meu cinema são filmes de personagens contraditórios, que estão em busca de realizar seus desejos. Para isso, eles não veem limite”, afirma Marcelo Gomes.

A ausência de fronteiras se reflete na linguagem do filme. “A gente queria desconstruir a barreira na qual a pessoa dorme, sonha, acorda e volta para a realidade. Queríamos que sonho e realidade fossem quase a mesma coisa e se contaminassem”, diz o diretor. O longa preserva ambiguidades até a cena final, cabendo ao espectador decidir o que pertence a cada esfera.

Periferia sem vitimismo

As pesquisas para o roteiro contribuíram para construir a representação pouco habitual da periferia paulistana. Em vez de enfatizar a precariedade, os diretores optaram por retratar vidas marcadas por prazeres cotidianos.

A família de Dolores, formada majoritariamente por mulheres, enfrenta dificuldades, mas não é reduzida à condição de vítima. “Elas são afetadas por várias ações machistas da sociedade, mas vão à luta”, define Gomes.

Das limitações enfrentadas pelas personagens surge o tema da liberdade, que tem papel central na trama, apresentando diferentes formas de emancipação.

“Quando a Duda dança no topo daquela escada, é um grande sonho e desejo de liberdade. Quando Deborah decide mergulhar no trabalho e ser criativa, é um exercício de liberdade. Quando Dolores decide pelo tudo ou nada na vida, também”, comenta o diretor.

Nas buscas individuais – Duda mirando os Estados Unidos, Deborah o Paraguai e Dolores a abertura do cassino –, as três se encontram na dimensão dos sonhos. Para Marcelo Gomes, essa conexão remete à visão de mundo dos yanomamis. “Eles falam que o sonho é coletivo. É algo que a gente só pode construir junto. Ao realizar o desejo do outro, de uma forma ou de outra, você constrói um sonho coletivo.”

Na coletividade dos sonhos reside o afeto de “Dolores”. O cineasta ilustra essa concepção a partir da cena em que Deborah e Duda, mãe e filha, se divertem na piscina de caixa d’água improvisada, enquanto Dolores as observa da casa vizinha, já com dinheiro para abrir o cassino.

“É um momento lindo de afeto que surge quase inesperadamente. Quando alguém tem afeto, mas também tem projeto pessoal, precisa construir uma equação. Talvez pense primeiro no projeto individual, porque, depois que construir o processo, vai conseguir ajudar as pessoas que ama”, afirma Marcelo Gomes.

Hollywood

Roteirista de “A casa de Alice”, filme lançado há quase duas décadas, ele diz que sua percepção sobre afeto mudou ao longo dos anos.

“Hollywood promoveu uma construção de afeto que às vezes parece algo puro a ser atingido. Mas você também pode atingir o afeto errando. Um possível desafeto pode ser uma prova de amor”, defende.

Como exemplo, Marcelo cita a relação conflituosa de Dolores e Deborah. “Houve um processo de julgamento entre elas. O afeto, antes de tudo, é não julgar. Isso eu aprendi. Quando a gente tem afeto por alguém, precisa entender suas qualidades e defeitos, abraçar aquela pessoa como um todo”, afirma o diretor.

“DOLORES”

Brasil, 2025, 84 min. Direção: Marcelo Gomes e Maria Clara Escobar. Com Carla Ribas, Naruna Costa e Ariane Aparecida. Em cartaz na sala 3 do Cine Belas Artes, às 17h.

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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria

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