Cia Favelinha ocupa o Palácio das Artes com funk e 'Gambiarra'
Espetáculo de dança homenageia as matriarcas das periferias do Brasil, com estreia nesta quarta-feira (3/6) à noite, no Grande Teatro Cemig
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No dia de seu aniversário, a matriarca de uma grande família da periferia sai cedo para trabalhar. Enquanto está fora, filhos, netos, afilhados e agregados correm para organizar a festa-surpresa. Entre áudios de WhatsApp, redes de apoio improvisadas e pequenos gestos de cuidado, a celebração se transforma em retrato das estratégias afetivas que sustentam a vida nas favelas do Brasil.
Desta ideia nasceu “Gambiarra”, novo espetáculo da Cia Favelinha, que faz única apresentação nesta quarta-feira (3/6), às 20h, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes. Com dramaturgia de Léo Garcia e direção-geral de Kdu dos Anjos, a montagem transforma o conceito de gambiarra, associado ao improviso, em linguagem cênica para falar de amor, memória, religiosidade e sobrevivência.
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Depois de levar “Brinco de ouro” ao Palácio das Artes em 2023, a primeira montagem de funk apresentada no Grande Teatro, a companhia do Centro Cultural Lá da Favelinha, no Aglomerado da Serra, Região Centro-Sul de BH, volta àquele palco para reafirmar a potência do gênero. Desta vez, com foco no amor e nas famílias periféricas.
“Quando se espera que um grupo de funk esteja nos teatros, não é esperado que a gente fale de amor. E, se for falar, não é esperado que seja deste tipo de amor: o amor de uma pessoa mais velha da família, avó, madrinha, tia ou matriarca que acaba sendo mãe de todo mundo ali na comunidade”, afirma Kdu dos Anjos.
“‘Gambiarra’ fala sobre a gambiarra dos afetos, sobre as formas que a gente encontra para continuar vivo”, ressalta o idealizador do Lá da Favelinha.
Embora seja personagem central, a matriarca nunca aparece em cena. Pela voz da atriz Aruana Zambi, ela surge em mensagens de WhatsApp enviadas aos parentes, participando da performance como metáfora de cuidado e memória. Em torno dela, bailarinos ocupam o quintal improvisado entre lençóis, toalhas e roupas nos varais, o que sugere um lar se organizando para receber parentes e amigos.
A própria linguagem do espetáculo é construída como uma gambiarra. O funk contemporâneo se mistura a referências do congado, da folia de reis e da umbanda, enquanto a trilha sonora adota a lógica do MTG, montagem musical a partir de fragmentos de ritmos e canções diferentes.
Máscaras inspiradas no teatro de bonecos do Grupo Giramundo, projeções audiovisuais e elementos da cultura popular mineira completam a encenação.
A gambiarra retratada no espetáculo, de acordo com Kdu, vai além da improvisação técnica e ajuda a explicar formas de existência nas periferias. “A favela não é rebocada por fora porque, entre rebocar a casa e construir mais um cômodo, eu construo o cômodo. É uma maneira de sobreviver. A gambiarra não é só o prego no chinelo, é também a forma como a gente reorganiza a vida”, afirma.
Depois de Belo Horizonte, “Gambiarra” inicia a circulação nacional do projeto Favelinha na Estrada, levando o espetáculo a 15 estados até 2027. A turnê também inclui apresentações de “Brinco de ouro”, batalhas de funk e ações formativas ligadas à cultura periférica.
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“GAMBIARRA”
Direção-geral: Kdu dos Anjos. Dramaturgia: Léo Garcia. Com Cia Favelinha. Nesta quarta-feira (3/6), às 20h, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia), à venda na bilheteria e na plataforma Sympla. Informações: (31) 3236-7400.