Na pintura, quando se fala em sombra, é difícil não lembrar Goya, Rembrandt e, principalmente, Michelangelo Caravaggio. Na exposição “O chão que piso”, Nina de Souza-Lima propõe outra leitura da sombra, fazendo com que ela deixe de servir ao drama da cena para assumir papel de protagonista.
“Não é o emocional que me move”, garante a artista natural de Virginópolis, cidade do Vale do Rio Doce, radicada em Belo Horizonte desde 1962. O que ela faz é, em suas palavras, “evoluir, construir e desconstruir” objetos e imagens, por meio da fotografia e da pintura.
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São assim as 22 pinturas da individual que ficará em cartaz na Sala Celso Renato de Lima do Centro Cultural UFMG até 28 de junho. Nina partiu da observação de uma ponte rústica de madeira do Parque dos Mangabeiras, formada por tábuas e corrimão de corda, para desviar o olhar do objeto em si em direção a algo secundário.
“Nos espaços entre uma tábua e outra, o sol projetava a luz em ritmo próprio. O que me impressionou foi a sombra”, conta. “Ninguém repara muito na sombra, ela fica sempre em segundo plano. Então, decidi mudar isso. Assim, os intervalos adquirem cor diferente do preto em que normalmente a sombra é projetada.”
Detalhe de quadro de Nina Souza-Lima. Série exposta em BH surgiu da observação de raios de sol passando por frestas de tábuas em ponte de madeira
A cor é o único elemento visual capaz de ser forma e conteúdo simultaneamente, observa a artista. Por isso, ela evita o uso do preto convencional, utilizando azul-marinho, vermelho, amarelo e verde para dar destaque a manchas e linhas, na tentativa de revelar aquilo que Nina chama de “forma original” da sombra.
Estrutura visual
O que importa para a pintora não é a sombra em seu sentido tradicional, mas a estrutura visual que deriva dela, projetada pela luz. Em vez de representar a ponte rústica do Parque das Mangabeiras, vê-se nas telas o desenho que a ponte produz ao ser iluminada. As cordas do corrimão se transformam em linhas entrecruzadas, enquanto as tábuas surgem como rastros geométricos.
Em alguns quadros, a própria ponte se torna irreconhecível, dando origem a formas abstratas, com faixas, linhas e massa circular.
A escolha da cor muda a percepção do observador. Os tons mais claros e vivos, no lugar do preto e do cinza, transformam a sombra em presença ativa.
“Até certo período, pintei as obras sobre a tela branca”, comenta Nina. “Depois, nesta mesma série, pintei sobre o fundo amarelo. É possível ver que são pinceladas soltas – as pessoas pensam que é pontilhado, mas não é. O fundo sobressai e interfere na imagem que está em primeiro plano. Às vezes, nem fica perceptível ao observador. Mas está ali, funcionando para dar um pouco mais de luz às cores em primeiro plano”, explica.
A série “O chão que piso” propõe uma reflexão sobre percepção, materialidade e transformação, enfatizando a potência criativa de ressignificar aquilo que, à primeira vista, poderia parecer apenas transitórioou efêmero.
Deslocamento
A origem do nome da exposição traz a ideia de deslocamento do olhar na intenção de despertar uma espécie de percepção que se perde com o fim da infância. “Quando foi a última vez que você viu uma sombra no chão?”, provoca a artista. “É o chão que eu piso. Eu piso o chão, não piso na sombra”, afirma.
Nina espera que o público possa “fruir” suas obras, mesmo que não entenda do que elas tratam ou não consiga enxergar o papel de protagonista da sombra nas pinturas.
“Tenho dois netos pequenos. Quando eles chegam aqui em casa e alguma obra está secando no cavalete, eles olham e elogiam. Será que entenderam alguma coisa? Acredito que não, mas gostaram. Eles estão fruindo aquilo: a cor e a forma”, conta.
“Isso é muito bacana, principalmente vindo de crianças com 3, 4 anos”, acrescenta. “É a idade em que elas estão interagindo com o mundo por meio do desenho. Esse desenho não é arte, mas é compreensão do mundo, a maneira de se comunicar com o pai, a mãe, a tia, a professora. Por isso, não é bom tentar interpretar. O melhor é perguntar o significado dele”, afirma.
Objetos e memórias
Além de “O chão que piso”, o Centro Cultural UFMG recebe a mostra “Entre objetos e memórias”, da pintora Ana Júlia Bicalho. A Sala Ana Horta exibe pinturas de objetos ligados a lembranças e ao cotidiano da artista, realizadas a partir de pesquisa sobre cor, afeto e experiência sensível.
As obras podem ser conferidas gratuitamente até 28 de junho.
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“O CHÃO QUE PISO”
Exposição de Nina de Souza-Lima. Até 28 de junho, na Sala Celso Renato de Lima do Centro Cultural UFMG (Av. Santos Dumont, 174, Centro). Funciona de terça a sexta-feira, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 9h às 17h. Entrada franca.
