Quem tem dinheiro e poder ocupa os melhores espaços. Quem não tem, é empurrado para outros lugares. Foi a partir dessa constatação que o geógrafo baiano Milton Santos (1926-2001) construiu uma das obras intelectuais mais importantes do país.


O pensador argumentava que a globalização vendida como integração universal produziu, na prática, novas formas de exclusão. E que o mundo ficou hiperconectado para o capital, mas não necessariamente para as pessoas. Ao mesmo tempo, defendia que o cotidiano e a experiência de vida das pessoas comuns também produzem conhecimento.


As ideias de Milton Santos, difundidas em obras como “Pensando o espaço do homem” e “Por uma outra globalização”, são chave para compreender o tema da 14ª edição do Festival Literário Internacional de Araxá (Fliaraxá), que será “Meu lugar no mundo”. O evento começa nesta quinta-feira (14/5) e segue até domingo, com programação gratuita, na cidade do Alto Paranaíba.


“Não é um tema decorativo”, diz o cofundador do Fliaraxá e um dos curadores desta edição, Afonso Borges. “Todo o festival, todos os autores, todos os livros, toda a programação estão orientados por esse trecho.” A começar pelos homenageados – o escritor angolano José Eduardo Agualusa, a professora araxaense Maria de Lourdes Bittencourt de Vasconcellos e o também araxaense Jerônimo Pereira de Lima, mestre general de congado.


Brasil e África

Partindo das ideias de Milton Santos, Agualusa representa uma dimensão internacional e pós-colonial da língua portuguesa, marcada por temas como identidade, deslocamento, memória e pertencimento. Sua obra frequentemente aborda as conexões entre África e Brasil, além das marcas do colonialismo e das fronteiras culturais, questões que se aproximam das reflexões do pensador brasileiro sobre globalização, desigualdade e circulação de pessoas e ideias pelo mundo.


Já a professora Maria de Lourdes Bittencourt de Vasconcellos simboliza o saber construído no cotidiano da cidade e transmitido por meio da educação. E, talvez a escolha mais simbólica, Mestre general de congado Jerônimo Pereira de Lima representa a cultura popular negra de Araxá no mesmo espaço destinado a escritores e intelectuais consagrados. Dessa forma, o festival rompe com hierarquias tradicionais de reconhecimento cultural.


A proposta do Fliaraxá também se reflete na escolha dos convidados. Entre eles, o rapper Djonga. “Djonga não vai cantar. Djonga vai falar”, afirma Borges. “O que o Djonga faz é falar. O próprio rap tem uma condução que é falada, além da música. Porque no rap e no hip hop, o conteúdo é central, é o mais importante, junto com a música. Não se trata de entretenimento, o rap nasceu para transformar a realidade”, diz.


A presença de Djonga dialoga com a ideia de que os territórios periféricos também produzem conhecimento. Não por acaso, a edição deste ano do Fliaraxá amplia ações voltadas para escolas, professores e estudantes da cidade. Pela primeira vez, a programação infantojuvenil terá professores de Araxá como palestrantes, em encontros construídos a partir de demandas apresentadas pela própria comunidade escolar.


Prêmio de redação

Também vai ter o tradicional prêmio de redação, que neste ano alcançou 97% de participação das escolas do município, entre instituições públicas e privadas. A edição de 2026 criou uma categoria voltada à Educação de Jovens e Adultos (EJA).


Entre os autores de fora da cidade, o Fliaraxá terá nomes já recorrentes ao longo das 14 edições. Marcelino Freire, Geni Núñez, Sérgio Abranches e Alexandre Coimbra Amaral voltam aos debates. A repetição, contudo, não representa falta de renovação, mas sim continuidade de um diálogo intelectual, segundo o curador. “A carreira de um escritor é muito difícil de conduzir. O autor brasileiro hoje não vive de direito autoral. Vive muito de eventos”, afirma Borges, que diz procurar renovar aproximadamente 40% dos convidados a cada edição.


A estratégia também ajuda a transformar as mesas em espaços de conversa mais horizontais. Além de participarem como convidados, os autores frequentemente atuam como entrevistadores e mediadores de debates. “Marcelino Freire vai mediar seis mesas. Geni também. Sérgio Abranches, além de curador, é mediador”, aponta Borges.


Os debates do Fliaraxá serão transmitidos ao vivo pelo YouTube e, posteriormente, disponibilizados na plataforma. Horários e informações das mesas podem ser consultados no site do festival.

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14º FESTIVAL LITERÁRIO INTERNACIONAL DE ARAXÁ
Desta quinta-feira (14/5) a domingo, no Teatro CBMM, Centro Cultural Uniaraxá (Av. Min. Olavo Drummond, 15, Bairro São Geraldo, Araxá). Entrada franca. Programação completa no site.

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