Comportamento, ambiente de trabalho, hábitos de consumo – tudo mudou, e muito rapidamente, nos últimos 20 anos. Diante disso, não deixa de ser uma boa surpresa ver “O diabo veste Prada 2”, que estreia hoje (30/4), como um filme que fala diretamente com os dias atuais.
Ainda que alimentado pela nostalgia da história original, o longa consegue ser divertido, leve, mas também reflexivo diante do mundo em colapso. É até mais pé no chão do que o primeiro – se é que podemos chamar de pé no chão o universo da alta moda.
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Adaptação do bestseller homônimo de Lauren Weisberger (2003) – ex-assistente da famigerada editora de moda Anna Wintour, ex-Vogue, inspiração para o personagem-título –, o filme fez, em 2006, US$ 327 milhões de bilheteria. Foram anos de negativas de Meryl Streep e Anne Hathaway para a continuação.
Até que ela finalmente aconteceu, com a mesma equipe técnica, capitaneada pelo diretor David Frankel, e o mesmo núcleo de protagonistas. Além das duas atrizes, repetem os papéis Stanley Tucci e Emily Blunt.
Memes e tirania
“O diabo veste Prada” sobreviveu nos últimos 20 anos graças à cultura pop – memes proliferaram na internet e Miranda Priestly, a personagem de Meryl Streep, virou sinônimo de chefes tiranos, para dizer o mínimo.
“Embora estivéssemos cientes do impacto do primeiro filme duas décadas atrás, nenhum de nós estava preparado para a avalanche de atenção que nos envolveu agora”, disse Streep à “Harper’s Bazaar”. A atriz admitiu ter ficado nervosa durante as filmagens em Nova York diante da invasão do set por fãs e paparazzi.
O novo filme começa em ritmo frenético. Assim como no original, Andy Sachs (Hathaway) está se arrumando em casa para trabalhar. Só que o destino é um prêmio de jornalismo. Na cerimônia, seu nome é anunciado como vencedora de uma categoria. Não existe o menor clima de comemoração, pois ela e colegas receberam, um minuto antes, as respectivas demissões por mensagem de texto.
O jornal está sendo reformulado e não há mais espaço para eles – ou para o jornalismo comme il faut. A crise da imprensa escrita é um dos subtemas do filme.
Miranda também está em maus lençóis. A “Runway”, publicação que comanda com mão de ferro, publicou o perfil elogioso de marca denunciada por péssimas condições de trabalho. A “Runway” precisa de um salvador para desviar a atenção do erro, algo que deixou os anunciantes furiosos. Andy será a tábua de salvação.
Emily (Emily Blunt), agora RP da Dior, continua fustigando a presença de Andy (Anne Hathaway) no mundo fashion
É dessa maneira que, da noite para o dia, Andy, a ex-segunda assistente de Miranda, volta para a “Runway”. Agora como editora de reportagens especiais. Segura de si e cheia de ideias, chega à redação. Algumas coisas mudaram, a revista em papel é coisa do passado e de meia dúzia de assinantes, o ambiente é mais diverso. Mas outras, não.
Miranda simplesmente não a reconhece. Bem-sucedida na carreira após 20 anos, Andy se sente quase estagiária no encontro com a ex-chefe. Este é apenas o primeiro susto em seu retorno ao trabalho.
Na reunião à qual vai com Miranda e seu fiel escudeiro Nigel (Stanley Tucci) para acalmar os ânimos de um anunciante, ela descobre que quem está à frente das relações públicas da Dior é ninguém menos que sua ex-colega Emily Charlton (Blunt). Esta fica horrorizada com a volta de Andy ao mundo da moda. O comentário sobre as sobrancelhas da jornalista é apenas um lembrete de por que a primeira assistente de Miranda foi o papel que levou Blunt para o estrelato.
Andy tentando se encaixar na “Runway” e sofrendo diante do desprezo de Miranda é apenas o primeiro ato dessa história. A trama, nos dois atos seguintes, segue com a luta da “Runway” pela sobrevivência e a própria reinvenção de Miranda. Esta tem aguardado há tempos ser nomeada chefe de conteúdo global para todas as marcas da empresa.
A estrela
Meryl Streep sempre foi a razão de ser de “O diabo veste Prada”. Ainda que só fale uma vez o “that’s all” (isso é tudo) que virou bordão no primeiro filme, é incrível acompanhar sua interpretação minimalista. A cada virada de olho, muxoxo ou baixar de voz para um comentário, ela domina a cena. Sua Miranda, agora, é mais humana – ou o mais humano que se pode esperar dela.
As diferenças geracionais são outro tema que o filme explora bem. Pessoas são agora positivas ou negativas, Miranda aprendeu que o adjetivo gorda não faz parte de nenhum dicionário. Entre os novos personagens, Kenneth Branagh faz o compreensivo novo marido dela; Patrick Brammal um affair pouco inspirado de Andy.
O quarteto de volta: Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci e Anne Hathaway no lançamento mundial de 'O diabo veste Prada 2' no Lincoln Center, em Nova York, em 20 de abril
É o bilionário Benji Barnes, interpretado sem freios por Justin Theroux, a melhor novidade da história. A entrada dele traz a reboque a IA, a precarização do trabalho, o mundo corporativo cheio de engravatados (agentes funerários, nas palavras de Andy).
Alianças têm de ser feitas para que todo mundo continue ganhando. Ou, pelo menos, um pouco. Miranda e Andy têm consciência (como também nós, na plateia) de que a guerra já foi perdida. Mas ainda restam algumas batalhas a serem vencidas. E é uma delícia acompanhá-las.
Lady Gaga, que faz participação especial em 'O diabo veste Prada 2', foi ao lançamento do filme em Nova York
Gaga na passarela
Não haveria sentido em fazer um novo “O diabo veste Prada” sem todo o aparato do mundo da moda. Há participações de famosos com diferentes graus de celebridade. Na parte final, a trama segue para Milão. Há uma sequência inspirada de Miranda Priestly sozinha na Galleria Vittorio Emanuele. A apresentação de Lady Gaga no desfile final vai atrair muitos olhares, mas o melhor é a interação dela com Meryl Streep.
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“O DIABO VESTE PRADA 2”
(EUA, 2026, 119min.) – De David Frankel, com Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci e Emily Blunt. O filme estreia nesta quinta (30/4) em todos os complexos de cinema da Grande BH
