O Culto da Rua, nova banda de Belo Horizonte, completa um ano em maio, mas já conquistou a cena independente por seu caráter de “movimento cultural”, comemora a baterista Valéria Santos, fundadora do grupo. A proposta é levar a cultura preta e feminina para espaços públicos da cidade.
A banda faz apresentação gratuita amanhã (19/4), às 11h, no Teatro Francisco Nunes, como atração principal do projeto Música de Domingo. A edição deste mês celebra o Dia Mundial do Jazz, comemorado em 30 de abril. O show contará com o pianista carioca Jonathan Ferr, destaque da nova cena jazzística brasileira.
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A ideia da banda surgiu após uma viagem de Valéria a São Paulo. “Voltei com a cabeça quente, querendo fazer uma coisa diferente”, conta. “Sou baterista, nunca havia tido um projeto meu, sempre toquei para os outros.”
A formação reúne artistas com quem ela já havia colaborado: Carol Ramalho (baixo), Fernanda Valadares (vocal), Isaque Talles (vocal), Lauane Mackenzie (vocal) e Maria Mônica (teclado e guitarra). Atualmente, todos trabalham com outros grupos. Valéria, por exemplo, é a baterista da banda belo-horizontina Lamparina.
Formado majoritariamente por mulheres e pessoas LGBT, O Culto da Rua é projeto independente que faz, essencialmente, shows em espaços públicos, levando instrumentos e equipamentos de som para as calçadas.
Um dos locais recorrentes das apresentações é o bar 2 Black Beer, no Viaduto Santa Tereza, que Valéria considera o “QG” da banda.
“BH tem uma cena imensa de músicos, mas a maioria parou de tocar na rua, só (faz isso) quando tem um festival ou Virada Cultural. Nosso princípio é popularizar a música, fazer com que todos, mesmo pessoas em situação de rua, consigam acessar a cultura e a arte”, explica a baterista.
Mentes pensantes
Jonathan Ferr também pensa assim. Nascido em Madureira, o pianista carioca é artista de jazz, mas foge aos padrões convencionais ao misturar hip-hop, R&B e música eletrônica para alcançar diferentes públicos.
“Quanto mais acesso à cultura se tem, há mais mentes pensantes sobre si mesmo e sobre o outro. Consequentemente, tem menos violência”, defende.
O pianista pondera que democratizar não significa subestimar. “Penso em democratizar a minha música e o acesso ao jazz criando música que seja simples, sem ser simplória. Que faça as pessoas se conectarem, mas sem ser muito rebuscada. Cada vez mais, vejo que não é sobre como acessar a música, mas sobre como se acessa”, afirma o pianista.
Pianista Jonathan Ferr leva hip-hop, eletrônica, ReB, umbanda e candomblé para seu jazz
O repertório d’O Culto da Rua reúne releituras de artistas negros do Brasil e do exterior. Há a ideia de valorizar mulheres dedicadas a diferentes gêneros musicais, como Alcione, Beyoncé, Elza Soares, Erykah Badu, Lauryn Hill, Liniker e Melly. Também se destacam clássicos de autores masculinos, como Michael Jackson e Djavan.
As versões ganham arranjos vocais e instrumentais inéditos. Nanhuma canção mantém o formato original. Uma das técnicas utilizadas é simular instrumentos de sopro por meio da voz.
“A gente não tem sopros no instrumental, então isso vira um recurso vocal. A voz é a pedra preciosa desta joia que é O Culto da Rua”, resume Valéria.
A participação de Jonathan Ferr amplia a abordagem experimental. Ligado ao afrofuturismo, o pianista incorpora tecnologias como o autotune. “Autotune é linguagem do rap, mas serve para qualquer coisa no jazz”, explica.
Ancestral e futurista
“Brinco que faço música ancestral futurista. Tenho referências da cultura de matriz africana, da umbanda e do candomblé, mas uso todas as tecnologias disponíveis para expressar essa música de uma outra maneira. É como se tivesse o pé no presente, segurando o passado de quem chegou antes de mim, mas mirando o futuro”, ressalta o pianista.
Para Ferr, fazer arte é construir coisas novas. “Sou artista desobediente. A minha arte sempre foi disruptiva. Quero descobrir o novo porque caminhar sobre pedras que já foram pavimentadas por todo mundo não faz sentido”, diz.
No show, O Culto da Rua vai apresentar duas canções autorais: “Cria de favela” e a inédita “Jeito faceiro”. Segundo Valéria, o foco em releituras é transitório, a intenção é consolidar repertório próprio.
“Somos uma banda nova, mas todos já temos trabalho palpável. O que estamos fazendo agora é resultado do que a gente vem construindo individualmente. É um chamado ancestral, fomos escolhidos para viver isso”, ressalta a baterista.
MÚSICA DE DOMINGO
Show da banda O Culto da Rua com o pianista convidado Jonathan Ferr. Neste domingo (19/4), às 11h, no Teatro Francisco Nunes (Av. Afonso Pena, 1.377, Centro). Entrada gratuita, mediante retirada de ingressos na portaria a partir das 10h.
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* Estagiária sob supervisão da editora-assistente Ângela Faria
