O lançamento de “Oito canoas para o céu – O santo do sertão”, nesta quarta-feira (8/4), às 19h30, no Bar do Museu Clube da Esquina, marca a primeira parceria literária de Márcio Borges com a filha caçula, Helena Borges. Escrito há mais de 20 anos, o romance ficou engavetado até ser retomado, lapidado e reorganizado por ela. A desistência do autor, quando finalizou o original, se deveu a algumas ressalvas de seu editor, Luiz Fernando Emediato.

“Oito canoas para o céu – O santo do sertão” é inspirado na trajetória espiritual de Jetsün Milarepa, importante referência do budismo tibetano, mas ambientado no sertão brasileiro. O protagonista Jústen Palmeira, um construtor de barcos, trilha árduo caminho de expiação entre rios, matas e povoados esquecidos. A narrativa constrói uma travessia interior que dialoga com temas universais, como culpa, transformação e espiritualidade.

“Quando comecei a escrever essa história, Helena ainda estava no grupo escolar, não tinha nem 10 anos. Hoje está com 30. Quando finalizei, entreguei para o Emediato, grande escritor e editor, meu amigo há 40 anos. Ele repassou para a conselheira editorial dele, que disse que o livro estava muito grande, truncado, com história confusa. Perguntou se eu não poderia reduzi-lo, mas deu preguiça e engavetei”, diz Márcio, compositor do Clube da Esquina.

A caçula cresceu e se formou em teatro e literatura. Certo dia, leu “Oito canoas para o céu” e considerou o livro muito bom, embora pecasse um pouco pelo excesso.

“Helena acabou concordando com a conselheira do Emediato. Passado todo esse tempo, também concordei, mas não queria mais mexer no livro. Falei para ela pegar a tarefa. Helena eliminou coisas, acrescentou outras e me devolveu um livro totalmente palatável”, diz.

Helena Borges comenta que havia “partes engasgadas”, bom conteúdo geral, passagens emocionantes e outras engraçadas. “Tem a inspiração do Milarepa, mas com personagem brasileiro, uma coisa meio mística, mas embalada por linguagem sertaneja. É mistura de Guimarães Rosa com Stephen King”, diz, acrescentando que a espiritualidade sempre esteve presente em sua família.

O primeiro desafio foi reduzir as 500 páginas para a metade disso. “Primeiro li do jeito que estava, depois fui cortando a cada nova leitura, mexendo em algumas frases, atualizando algumas expressões. O passo seguinte foi ver o que faltava. Escrevi algumas cenas criando a jornada do herói, eliminando zigue-zagues da história, que assumi como minha”, ressalta.

'Detalhe besta'

Márcio conta que levar a trajetória de Milarepa para o sertão surgiu de um “detalhe besta”. “Saquei que Milarepa é anagrama de Palmeira, aí foi meio caminho andado. Quando bolei o nome do personagem, Jústen Palmeira, a história estava criada, era só questão de transpor.”

Jetsun Milarepa, fonte de inspiração para Márcio Borges, na capa do livro 'Os cânticos de Milarepa: Todas as canções sobre o dharma'

Reprodução

O “santo do sertão” a que o subtítulo do romance alude é o protagonista que, a mando de seu mestre, constrói canoas com destinos trágicos. “Ele passa 20 anos fazendo canoas que afundam. Vão todas indo embora, até que alcança a iluminação”, revela o autor.

Márcio Borges não tem interesse específico por budismo, hinduísmo ou esoterismo, mas pelo estudo de religiões comparadas. “É um interesse genérico pelas culturas religiosas em geral. Sou um pouco da linha dos comparativos, a partir dos quais a pessoa pode moldar sua espiritualidade. Chego às minhas conclusões observando a miscelânea de religiões espalhadas pelo mundo, mas o que me prende mesmo é a literatura, não a religião”, destaca.

Nova editora

Márcio e Helena afirmam que “Oito canoas para o céu – O santo do sertão” abre precedente para outras parcerias.

“Saquei que tenho uma escritora fora de mim, então estou esvaziando a gaveta, passando tudo para as mãos dela. Tenho mais dois livros escritos. Um deles se chama 'Viagens de ventania', com 200 páginas e um quê de autobiográfico, mas mal escrito, então ela vai ter que consertar”, graceja Márcio.

Helena e a mãe, Cláudia Brandão, criaram a editora B&B (de Brandão e Borges) para lançar “Oito canoas” e os próximos livros da família.

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“OITO CANOAS PARA O CÉU – O SANTO DO SERTÃO”

• Livro de Márcio Borges e Helena Borges
• Editora B& B
• R$ 99
• Lançamento nesta quarta-feira (8/4), às 19h30, no Bar e Museu Clube da Esquina (Rua Paraisópolis, 738, Bairro Santa Tereza)

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