“A mulher foi sempre meu leitmotiv. Esteve presente desde os primeiros rabiscos até o fim”. Artista que transitou pela pintura, instalação, desenho, gravura e serigrafia, Teresinha Soares viveu até os 99 anos. Morta na madrugada de terça-feira (31/3), no Hospital Felício Rocho, onde estava internada havia três semanas após quebrar o fêmur, ela será velada na quinta-feira (2/4), das 9h às 13h, na Funeral House, na capital mineira.

A produção multifacetada de Teresinha foi realizada durante uma década, a partir de 1966. Sempre ligada às vanguardas, ela teve amplo reconhecimento em sua época. Participou de três bienais de São Paulo, expôs no exterior, ganhou destaque na imprensa. Deixou o mundo das artes em 1976. 

“Olha, eu acho que, atualmente, ninguém tem mais, né? A Teresinha Soares já está com 90 anos, velha coitadinha. Não dá mais trabalho. Mas, naquela época, as pessoas tinham medo de mim”, foi o que ela afirmou ao Estado de Minas, em 2017.

Serigrafia de Teresinha Soares exposta no Palácio das Artes em 2018

Bianca Aun/Divulgação

A entrevista ao jornalista Pablo Pires ocorreu quando foi aberta a exposição “Quem tem medo de Teresinha Soares?”, retrospectiva realizada no Museu de Arte de São Paulo (Masp), com cerca de 60 trabalhos, alguns inéditos e outros desaparecidos por muito tempo, entre pinturas, gravuras, cartazes e objetos, além da documentação de performances. A representação do corpo feminino é o eixo central não só desta exposição, como de toda a obra da artista.

“A mulher tem que ter prazer, desejo, sem crime e sem castigo. É a coragem de se mostrar, de se sentir à altura do homem, de se questionar – incluindo suas zonas erógenas –, da emancipação, do prazer, do encontro. Isso tudo está no meu trabalho”, declarou ela ao EM.

Tate Modern

Na última década, a obra de Teresinha passou por um resgate, com trabalhos expostos na Tate Modern, em Londres, em 2015; no Hammer Museum, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, em 2017. No ano seguinte, ela ganhou grande exposição no Palácio das Artes.

Serigrafia 'A ordem dos fatores' (1967), de Teresinha Soares

Bianca Aun/divulgação

Sua última individual foi “Teresinha Soares: Um alegre teatro sério”, realizada em 2023 pela Gomide&Co, em São Paulo. A mesma galeria a levou, no ano passado, a expor pela primeira vez ao lado da filha, a artista Valeska Soares, na SP-Arte Rotas 2025.

Nascida em Araxá em 1927, Teresinha carregou o pioneirismo desde sempre. Naquela cidade, foi duas vezes a primeira: bancária e vereadora.

Professora, lia cartas do namorado para os alunos. O casamento com o advogado Britaldo Silveira Soares, que presidiu o Estado de Minas e foi condômino dos Diários Associados, a trouxe para Belo Horizonte. Aqui nasceram os cinco filhos: Valeska, Carmela, Riza, Britaldo e Luiz Eugênio.

Frederico Morais

Ainda que houvesse relação com a arte desde a infância, Teresinha só se entregou de fato depois dos filhos nascidos. O despertar veio por meio do teatro. Fez duas peças, escreveu um texto infantil. Chegou a se apresentar no Copacabana Palace. Um curso com o crítico Frederico Morais a levou para as artes plásticas.

Serigrafia da série 'Um homem uma mulher', de Teresinha Soares

Bianca Aun/divulgação

Os primeiros trabalhos eram assinados com o pseudônimo Terry. “O Britaldo era diretor (jurídico) dos Diários Associados, então pensei que poderiam achar que ele estava me protegendo, que minha arte não tem valor. Mas na primeira exposição que fiz, mandei objetos que fizeram muito sucesso. Resolvi pôr meu nome, Teresinha Soares”, contou ela em 2017.

Na exposição “Artistas mineiros 60/70”, realizada durante o 5º Festival de Inverno de Ouro Preto, em julho de 1971, Teresinha foi incluída no grupo de artistas de vanguarda.

“A trajetória artística (...) tem sido um constante happening pontilhado de surpresas e escândalos (…). Apareceu faz quatro anos, disposta a tudo: a insultar, a brigar, a condenar e a perdoar, e, acima de tudo, a aconselhar o amor, mas nunca o ódio”, escreveu Pierre Santos no catálogo.

Anjo de negro

Performances dela nos vernissages eram comuns. A instalação “Túmulos” (1972-1973), em que a artista escreveu a epígrafe “Plantaram-me alfaces e eu as comi todas. T. Soares, 27-72”, trouxe a reboque momentos antológicos. 

Em 1973, ela apresentou este trabalho no 22º Salão Nacional de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Deitada como morta embaixo de folhas de jornal, a artista era descoberta pelo próprio público.

Instalação 'Túmulos' em exposição de Teresinha Soares no Rio de Janeiro, na década de 1970

Arquivo O Cruzeiro/EM/D.A Press

No mesmo ano, no Palácio das Artes, em exposição pré-Bienal, Teresinha apresentou “Túmulos” de forma ainda mais ousada, na performance “Ressurreição”, como descreveu o crítico Márcio Sampaio no “Suplemento Literário”.

“Teresinha ressuscitou. Ela veio de negro, trazendo asas brancas de anjo. Uma reminiscência dos tempos felizes de criança quando saía inocentemente branca para coroar Nossa Senhora (...) Teresinha apareceu ressuscitada da morte, e era então o anjo exterminador, prometendo casamento breve para quem pegasse primeiro o queijo – ilusão da noiva ao jogar o seu buquê”, afirmou Sampaio.

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Ao EM, Teresinha falou sobre esta performance: “Foi tudo planejado e difícil de arrumar. Fiz tudo especial, fui no Perrella (tradicional frigorífico de BH), encomendei a linguiça grossa, a estátua da Liberdade, o anjo, o ressuscitar. A gente pensa na vida depois da morte, mas eu não acredito. Mas não quero falar, porque vão me jogar pedra.” 

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