Três tempos do fio em BH
Artes têxteis ganham destaque nas mostras de Isabel Miranda, Rita de Souza e Marlene Barros em cartaz na Funarte MG, Casa Fiat de Cultura e CCBB-BH
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Marina Baltazar*
Especial para o EM
Na contramão do postulado por Anni Albers, as artes têxteis vêm tendo um recrudescimento tanto no mercado da arte quanto nas exposições mais recentes. Mas até que ponto isso diz respeito a um retorno às atividades manuais do tecer ou a uma instagramatização desses fazeres artísticos.
Em Belo Horizonte, três exposições em torno do fio ocorrem simultaneamente, de tons e gestos que se aproximam e se distanciam quase que na mesma medida. O tempo dedicado ao fio é aquele que remete à duração e à delonga, nos convidando a habitar o presente mais demorada e atentamente.
“GESTOS TECIDOS NO TEMPO”
Com show de abertura de Sérgio Pererê, o feriado de Tiradentes fez encontrar, por meio dos tecidos e da música, uma espécie de oração ao tempo. Ao pesquisar performance e corpo, a artista Isabel Miranda, em sua exposição “Gestos tecidos no tempo”, na Funarte-MG, remonta os gestos e os vincula à genealogia terrosa dos materiais que usa, e também das companhias que convoca para sua criação: mãe, avó, cachorros, formigas, árvores e casa, incorporada como personagem por meio das tintas engobes que cobrem as telas e os tecidos, fazendo pontes com a casa de infância cujas paredes eram revestidas de argila.
Segundo a curadora Luíza Marcolino, os trabalhos surgem do encontro entre corpos e terreiros, terra e gente, caminhos de passos e de esperas, giros e registros, gesto e memória. A série tríptica que origina a exposição trata-se de fotografias de uma performance que dão a ver cabelos trançados e partes extremas de um corpo, mas ampliam o rosto para o feminino comum, o corpo negro da mulher que, segundo Grada Kilomba, trata-se do outro do outro.
As tranças seguem pelos fios tingidos e sempre coletivos em tons ocres e terrosos, que brotam das pinturas em espirais, como em redemoinhos infinitos, movimentos circulares que não acabam em seu próprio eixo, mas se expandem para a materialidade desses fios que também ocupam a instalação de galhos de árvores, costurando-os ao mesmo tempo em que os deixam em suspensão.
A projeção é de difícil acompanhamento devido à iluminação próxima, mas parece dar continuidade ao pensamento vegetal, por meio de uma mulher que carrega raiz, tronco e copa da árvore com sua coluna, misturando, além do mineral da matéria bruta que tinge e pinta, vida vegetal e animal, errância e enraizamento.
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Os panejamentos, ao serem separados, escancaram o lugar da pausa, e também da continuidade – os tempos se encontram em meio, começo e meio, como proposto por Antônio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), referência da exposição desde a epígrafe do texto curatorial: “Onde começam e terminam o passado e o presente e onde começa o futuro?”.
Talvez as partes mais interessantes, sejam as cascas de árvores simuladas entremeadas às pinturas, que nos colocam em dúvida se tratam-se ou não da materialidade vegetal. Mais do que os brotos e mudas colocadas nas obras de entrada, a partilha da incerteza da vida parece vir da emulação das cascas, esses restos que sustentam e costuram a fragilidade e a força das obras de Isabel. Ela expõe até 20 de maio, na Funarte MG (Rua Januária, 68, Centro).
“REPARAR ENTRE LINHAS”
Desde o título da sua individual, “Reparar entre linhas”, Rita de Souza ocupa bem a Piccola Galeria da Casa Fiat com 14 obras que transitam entre desenho e bordado sobre papel, e sobretudo ante a ambiguidade fundamental do reparar, que vai desde ver, observar, até emendar o tecido de chita que é a base de seus trabalhos. A chita que, todavia, não se faz presente de maneira imediata, mas subvertida como desenho do pano que carrega a memória do popular e da resistência, da cor e da forma floral, e que não desbota mesmo com água sanitária. Diante de experimentos, a artista contrapõe a produção em massa para a delonga do rompimento do tecido, que vai se transformar em outras linhas que registram também outras temporalidades.
A ruptura dos retalhos, dos cortes, dos padrões que vão sendo desfiados e reparados, carregam ainda os vestígios das cores, que vão ser tecidos por meio do desenho do grafite sobre papel, refazendo as linhas desfiadas e imprimindo-lhes outra materialidade, espécie de sutura que varia do coser e do bordar, remendar e restaurar. Observando os detalhes, cada linha vai se entremeando em uma poética que a curadora, Lorena D’Arc, precisa como da imperfeição, dando a devida atenção ao banal, no mesmo movimento de ressignificação das práticas manuais e têxteis, que já foram consideradas menores. “Os fios entremeados pela artista aludem ao conceito japonês do wabi-sabi, que encontra beleza na simplicidade, nas fissuras e nas marcas do tempo, considerando que nada que existe é livre de imperfeição. Nesse sentido, Rita de Souza experimenta sua poética da imperfeição, evidenciando o ordinário, aquilo que a princípio passaria despercebido, ganha visibilidade ao ser reinventado”.
Ao duplicar a aposta nas linhas, do desenho e do bordado, Rita repara os fios que ligam a chita à arte contemporânea brasileira, o gesto do tecer ao do tempo estendido de fazer, desfazer e refazer, o popular, o feminino e o ancestral que, mesmo cheio de furos, voltam para ficar e podem ser feitos, desfeitos e refeitos de maneira autêntica, acenando para o passado ao mesmo tempo que inscrevem novos futuros para o fio. Rita expõe até 24 de maio, na Casa Fiat de Cultura (Praça da Liberdade, 10, Funcionários).
“TECITURA DO FEMININO”
Embora abarque debates importantes, como a desvalorização histórica e o enclausuramento doméstico do trabalho feminino ligado à costura e à pejoratividade frequentemente vinculada ao artesanato, a exposição “Tecitura do feminino”, de Marlene Barros, no CCBB-BH, parece vir cumprir a agenda de um grande circuito cultural, expandindo a dessubjetificação do feminino e se justificando ante metáforas gastas do fio e do corpo. Muitas vezes com obras homônimas a artistas como Anna Maria Maiolino, mas sem conseguir contrapor ou mesmo somar à genealogia de costurar ao mesmo tempo que deixa tudo por um fio.
Os rostos esburacados e costurados escancaram um maneirismo latente, que vão se repetir em outras intervenções têxteis e na multiplicação vertiginosa de úteros, ovários e seios, que parecem querer mas não causam nem desconforto nem espanto, pois já vimos isso em muitas outras instalações antes. Os crochês figuram em instalações instagramáveis que obviamente estão cumprindo seu papel nas redes sociais.
Talvez a obra mais curiosa se configure nos limites do material de fato precário, feito pelo amontoado do feltro, aglutinado e comumente utilizado como cobertor, mas que forma um casaco cujo interior aponta e duvida de sua própria presença.
Com ações formativas e visitas mediadas nas efemérides do Mês e do Dia Internacional da Mulher, podemos questionar novamente se toda arte já não é política e de que maneira as repetições devem se dar por meio de diferenças, mesmo que sutis, singulares.
De qualquer maneira, é importante que o fio siga ocupando os debates, e nos faça questionar os limites da arte e das suas justificativas curatoriais e expográficas. Marlene Barros expõe até 1º de junho, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários).
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* Marina Baltazar é crítica cultural, pesquisadora e professora. Doutoranda em teoria da literatura e literatura comparada pela UFMG, onde desenvolve a tese “O fio e o fim: ficções, apocalipses, bordados e o problema da literatura”. Publicou “Escrever Leonilson: expansão da poesia” (2022, Relicário Edições).