Quando se conta uma mentira que passa por verdade, o que fazer? Há dois caminhos: desmenti-la ou tentar transformá-la em realidade. Foi exatamente a segunda opção que a jornalista, influencer e agora atriz Thai de Melo Bufrem escolheu, há cerca de três anos, ao dar uma declaração a um jornal de grande circulação no país dizendo que preparava uma peça de teatro. Até então, nunca havia pisado em um palco e suas atuações se limitavam a vídeos curtos para o Instagram.

“No meio da declaração, eu já estava pensando: ‘Por que estou mentindo?’”, lembra ela, bem-humorada, em entrevista por telefone. A resposta, no entanto, vinha de um sentimento de vergonha, fruto da pressão que sentia por já ter 30 anos e não vislumbrar nenhum projeto ou plano concreto. “Aí, menti”, diz.

O problema é que amigos, familiares e seguidores viram a declaração e passaram a cobrá-la. O ápice veio quando a atriz Mônica Martelli acreditou no projeto e apresentou Thai a produtores. Novamente pressionada, a influencer e atriz escreveu o monólogo “Como é que eu vim parar aqui?”, que chega a Belo Horizonte para sessões no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas, neste sábado (28/3), às 20h, e no domingo, às 18h.

No palco, Thai transpõe a personagem que interpreta nas redes sociais: uma mulher de traços andróginos, que subverte expectativas em relação ao papel social feminino. Vivendo sozinha em uma garçonnière – apartamento pequeno, tradicionalmente utilizado em encontros amorosos –, a “Thai do Instagram” expõe contradições, frustrações e dúvidas ao falar sobre fama, maternidade e casamento. Tem dois filhos, mas trata-os como se fossem um só, gritando: “Marcelorenzo!”.

“Teatro é outra linguagem”, diz Thai. “Precisei de direção de movimento para reaprender a andar e me movimentar no palco. Toda a minha movimentação é uma performance. E essa performance é inspirada em Bob Fosse (1927-1987)”, conta, referindo-se a um dos coreógrafos mais influentes do século 20 no teatro musical e no cinema.

Em quase dois anos de turnê, ela perdeu seis quilos por causa da exigência física. Além da performance coreografada, teve de lidar com a pressão – pela terceira vez – de ver na plateia das primeiras apresentações nomes como Fernanda Lima, Rodrigo Hilbert, Adriane Galisteu, além de críticos de jornais e revistas.

Miss Roraima

Natural de Boa Vista, onde viveu até os 16 anos, Thai tem o estado de Roraima como elemento central na construção da própria identidade. Não por acaso, faz questão de iniciar cada apresentação de “Como é que eu vim parar aqui?” portando uma faixa de Miss Roraima.

A ligação da influencer e atriz com o universo da estética não é novidade. Ela, que já participou de campanhas da Gucci e da Dior, costuma dizer que a moda é uma ferramenta poderosa de comunicação. Com humor ferino, brinca que “a moda tem o poder de dar voz a quem não tem nada a dizer, enquanto as pessoas que têm muito a dizer a consideram fútil”.

Sob direção de Bruno Guida, a encenação aposta em uma construção estética singular ao reunir criadores de diferentes áreas. O figurino é de Alexandre Herchcovitch e Flávia Laffer, a trilha sonora de Dan Maia, a direção de movimento de Gabriel Malo e a direção de arte de Ana Ariette. O texto é da própria Thai, em parceria com Juliana Rosenthal.

“Considero essa peça a coisa mais bonita que fiz na vida”, afirma. A instigante história dos bastidores de “Como é que eu vim parar aqui?” deve virar livro. É, inclusive, um dos planos da artista. Ainda assim, ela pondera: “Pode ser que eu esteja contando uma mentira aqui. Uma mentira em primeira mão”.

"COMO É QUE EU VIM PARAR AQUI?"

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Texto: Thai de Melo e Juliana Rosenthal. Direção: Bruno Guida. Com Thai de Melo. No Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Neste sábado (28/3), às 20h; e domingo, às 18h. Ingressos à venda por R$ 120 (Plateia 1 / inteira) e R$ 50 (Plateia 2 / inteira), na bilheteria do teatro e no Sympla. Meia-entrada na forma da lei. Clientes Nubank ultravioleta têm 30% de desconto do valor da inteira na Plateia I.

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