Um jovem professor de escola primária da pequena Karabash, cidade russa com pouco mais de 10 mil habitantes, que vive com uma calopsita e um cachorro salsicha em apartamento modesto, conseguiu despertar a ira de Vladimir Putin no Kremlin. Ironicamente, isso ocorreu porque ele cumpriu ordens do governo após a Rússia invadir a Ucrânia em fevereiro de 2022.

O professor é Pavel Talankin. Ele costumava gravar vídeos dos alunos em eventos escolares, mas, com o início da guerra, foi obrigado a registrar aulas patrióticas e cerimônias cívicas, a fim de comprovar que a escola seguia a diretriz oficial de incutir propaganda nacionalista nos estudantes.

Talankin nunca apoiou o conflito. Revoltado com o posicionamento da Rússia, reuniu o material captado em sala de aula em “Um Zé Ninguém contra Putin”, vencedor do Oscar deste ano de Melhor Documentário em Longa-Metragem. A produção chega à plataforma Filmelier+ nesta quinta-feira (26/3).

Ao longo de 90 minutos, o ex-professor contextualiza o ambiente escolar e apresenta os personagens centrais do filme: professores e alunos. Com exceção de um único docente, ligado ao partido governista, os demais demonstram desconforto com as novas exigências. Eles são obrigados a ler mensagens que supostamente justificam a guerra, classificando ucranianos como “neonazistas militarizados”.

Os textos exaltam a “Mãe Rússia” e sustentam que se opor ao governo é se opor à própria pátria – portanto, um ato de traição. “A professora está lendo isso porque é obrigada”, diz Talankin, atrás das câmeras, após registrar uma dessas falas na escola.

Enquanto o conflito se intensifica, a partir de 2023, jovens em idade de alistamento passam a ser convocados. Entre eles, alunos de Talankin prestes a se formar. No primeiro momento, os rapazes encaram a situação com aparente naturalidade. Mas na confraternização filmada discretamente pelo professor, um deles chora escondido, confidenciando ao amigo que não quer ir para o front.

Na mídia, o discurso pró-guerra se radicaliza. O documentarista resgata entrevistas com declarações absurdas, como a de um homem que afirma: “Não estamos matando (os ucranianos) por ódio, e sim por amor. Amor aos nossos filhos. Amor à nossa pátria”.

Esse movimento se reflete diretamente na escola de Karabash. Os alunos passam a marchar, prestam continência à bandeira, participam de aulas de tiro e arremesso de granadas. A propaganda surte efeito. As crianças, antes indiferentes ao conflito, passam a repetir, com entusiasmo, o discurso oficial. Não por acaso, Putin afirma diretamente aos professores: “O trabalho de vocês é fundamental”.

Pavel Talankin feliz com seu Oscar no Dolby Theatre, em Los Angeles, no último dia 15 de março

Angela Weiss/AFP

Talankin expõe as mentiras disseminadas pelo governo e contrapõe versões oficiais com imagens contundentes. Justamente por isso, o filme não poderia ser concluído nem exibido na Rússia.

Quem viabilizou o projeto e garantiu sua circulação foi a britânica BBC, que ajudou o diretor a deixar o país e se refugiar em local desconhecido na Europa, bem longe do alcance do Kremlin.

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“UM ZÉ NINGUÉM CONTRA PUTIN”

Alemanha/Reino Unido/Dinamarca/República Tcheca, 2025, 90 min. De Pavel Talankin, codireção de David Borenstein. Disponível na plataforma Filmelier+.

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