De um lado, a atriz Fernanda Montenegro, do alto de seus 96 anos, diz que “Velhos bandidos”, que estreia nesta quinta-feira (26/3) nos cinemas de todo o Brasil, é um presente do filho, Claudio Torres, diretor, produtor e corroteirista do filme. De outro, Claudio entrega: “Velhos bandidos” é a realização do antigo desejo de dirigir a mãe como protagonista – portanto, o longa só existe em função dela. Ter ciência dessa troca de amabilidades familiar embasa o novo filme.

O elenco central conta também com Ary Fontoura, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Bruna Marquezine. Orbitando esse núcleo figura um notável time de veteranos: os nonagenários Tony Tornado e Nathalia Timberg; Reginaldo Faria, de 88 anos; Vera Fischer, Teca Pereira e Hamilton Vaz Pereira, na casa dos 70. Considerada a faixa etária, o título do filme prescinde de maiores explicações. A história é dada de bandeja, pronta para o consumo.

O roteiro, assinado por Claudio Torres em parceria com Fabio Mendes e Renan Flumian, acompanha o casal de aposentados Marta (Fernanda Montenegro) e Rodolfo (Ary Fontoura), que flagra os jovens Sid (Vladimir Brichta) e Nancy (Bruna Marquezine) assaltando sua casa. Com um contragolpe ardiloso, os dois anciãos revelam que têm arquitetado um plano para roubar um banco e chantageiam os jovens para apoiá-los.

No decorrer da trama, o espectador descobre que Marta e Rodolfo são bandidos com atuação sistemática no mundo do crime, assessorados por equipe de “especialistas”. Num dado momento, os outros veteranos são apresentados, cada qual com talento e função adequados para levar o plano adiante. Lázaro Ramos é o investigador Oswaldo Aranha, que está no encalço da quadrilha.

Comédia de ação

A produção é apresentada como uma comédia de ação. Com efeito, tanto a graciosidade quanto alguma dose de adrenalina estão presentes no longa, que, na verdade, é uma salada de referências. Claudio Torres assume sem o menor pudor que todos os elementos do filão “filme de assalto” estão presentes, citando “11 homens e um segredo”, “O grande golpe”, “O quinteto da morte” e “Crown, o magnífico”.

Apresentados os personagens, há o planejamento do assalto, com a desconfiança entre os envolvidos pairando no ar; em seguida vêm a execução do plano e o desfecho. Tudo soa meio caricatural e despretensioso. A não ser pela reviravolta engenhosa na reta final, “Velhos bandidos” segue dentro da mais estrita previsibilidade, pensada na medida para a fruição descomplicada.

O filme guarda um gostinho da clássica “Sessão da tarde”, da TV Globo. O amontoado de clichês é mais divertido do que irritante. Não se trata de sátira aos filmes do gênero, mas de reverência terna a eles.

O tom algo descompromissado meio que desnuda a trama e os personagens – como a história não demanda muito, é possível imaginar o clima de camaradagem dos atores nos bastidores.

Tony Tornado, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira e Reginaldo Faria formam a 'turma da pesada' da dupla Marta e Rodolfo

Conspiração Filmes/divulgação

A propósito, a despeito de ser filme “fácil”, a atuação do elenco é digna de nota – a de Fernanda Montenegro, especialmente.

Num primeiro momento, ela surge frágil, com a voz titubeante, fazendo o espectador crer que essa é uma condição da atriz pela idade avançada, e não da personagem. Com o desenrolar da trama, fica claro que Fernanda está muito bem, vivaz. E a esperta Marta, propositalmente, faz o papel de velhinha debilitada.

Ary Fontoura também brilha. Com apoio do núcleo central de atores, sua atuação faz rir e chorar. Mesmo com estrutura simplória, “Velhos bandidos” consegue conduzir, com êxito, as emoções do espectador. Uma cena em especial, quando Marta, Rodolfo, Sid e Nancy inalam o gás do riso, evidencia a destreza do diretor e do elenco para alternar humor e drama com eficiência, garantindo o entretenimento.

Mosaico de referências

Além de se inspirar no gênero “filme de assalto”, o diretor Claudio Torres brinca com diversas referências do cinema e da cultura pop. Os nomes dos personagens de Vladimir Brichta e Bruna Marquezine vieram da icônica dupla punk formada pelo baixista da banda Sex Pistols, Sid Vicious, e a namorada, Nancy Spungen, cuja história ganhou a telona em 1986, com “Sid e Nancy – O amor mata”, dirigido por Alex Cox.

Em determinada cena, Nancy/Bruna tem o ombro deslocado para poder passar por um duto estreito. Depois, ela se encarrega de recolocar o ombro no lugar, batendo-se na parede, assim como Riggs, personagem de Mel Gibson em “Máquina mortífera”. Essas e outras referências surgem como um convite lúdico para o espectador “pescar” de onde elas foram tiradas.

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“VELHOS BANDIDOS”

Brasil, 2026, 93 min. De Claudio Torres, com Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Vladimir Brichta, Bruna Marquezine e Lázaro Ramos. Estreia nesta quinta-feira (26/3), em cinemas dos shoppings BH, Big, Boulevard, Cidade, Contagem, Del Rey, Diamond, Estação, Itaú, Minas, Monte Carmo, Pátio Savassi, Ponteio e Via Shopping, além de salas do UNA Cine Belas Artes.

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