María Sol Tetzlaff tinha 17 anos quando soube que seu mundo, sua família e seu país não eram nada do que conhecia. Sete anos foram consumidos para comprovar sua identidade, assumida em 2000. Victoria Montenegro é um dos 500 bebês roubados por militares argentinos. Ela foi criada como filha pelo coronel Hernán Antonio Tetzlaff, o mesmo homem que a roubou, recém-nascida, e desapareceu com seus pais, Roque Montenegro e Hilda Torres.
Victoria, que cumpriu até dezembro de 2025 o segundo mandato como deputada na Argentina, é uma das personagens de “Fronteiras da memória”. A minissérie documental em três episódios entra no ar hoje (24/3) no streaming CurtaOn por uma razão. Em 24 de março de 1976, exatos 50 anos atrás, a presidente Isabelita Perón foi deposta por golpe de Estado que deu início ao último período militar argentino. Trinta mil pessoas foram mortas ao longo de oito anos de terror.
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Idealizada e dirigida pela gaúcha Stela Grisotti em parceria com Marcelo Machado, a produção revisita não só a ditadura argentina, como também a brasileira (1964-1985) e a chilena (1973-1990). A memória é reconstituída por meio de pessoas que vivenciaram a repressão na pele, como também por filhos e netos de desaparecidos e mortos.
Victoria Montenegro, roubada ainda bebê pelo militar que matou seus pais durante a ditadura argentina
Além de ir a campo ouvir vários personagens, a série procura lugares símbolo da repressão. Na Argentina, por exemplo, acompanhamos Leonardo Fossati, filho de desaparecidos, na visita à 5ª Comissaria de La Plata, um dos 500 centros clandestinos de detenção que funcionaram durante a ditadura. Ele próprio relata seu nascimento em cativeiro, a partir das lembranças de pessoas que estiveram com sua mãe.
Praça de Maio
Símbolo maior da luta argentina por justiça, o movimento Mães da Praça de Maio, que originou as Avós da Praça de Maio, abre a série com o depoimento de Vera Jarach. Morta em outubro de 2025 aos 97 anos, ela lutou para descobrir o que ocorreu com a filha Yara, sequestrada em 1976 aos 18 anos.
As mulheres de lenço branco na cabeça que se reúnem ainda hoje às quintas-feiras no coração de Buenos Aires começaram seu movimento em março de 1977, um ano após o golpe. Eduardo Longoni tinha 20 anos na época, era o mais jovem dos fotógrafos que registraram o início do movimento. Lembra-se da violência com que as mulheres eram tratadas. Uma cena antológica registrada por ele mostra policiais a cavalo partindo para cima das manifestantes.
Longoni também se emociona ao falar sobre a cobertura do Julgamento das Juntas, em 1985, quando os militares foram condenados pelo governo democrático por sequestro, tortura e assassinato, algo que nunca ocorreu no Brasil.
O fotógrafo conta que ficou tão emocionado que começou a chorar. Conseguiu fazer algumas fotos, uma delas histórica, que correu o mundo, mostrando os acusados se enfileirando no tribunal.
Marcado para morrer
O episódio dedicado ao Brasil começa antes de 31 de março de 1964. A primeira lembrança que vem a público é bem menos conhecida do que a prisão e desaparecimento do ex-deputado Rubens Paiva, em 1971.
Em 1962, em Sapé, interior da Paraíba, João Pedro Teixeira, agricultor pai de 11 filhos que havia se tornado líder da liga camponesa em seu estado, foi assassinado por dois policiais quando voltava para casa. O crime foi encomendado por um grupo de latifundiários.
Elizabeth Teixeira, viúva do agricultor João Pedro Teixeira, morto em 1962 no Brasil, e Stela Grisotti, diretora da série 'Fronteiras da memória'
A trajetória do militante e de sua família, em especial a da viúva, Elizabeth Teixeira (101 anos, completados em fevereiro, entrevistada no episódio), veio à tona em “Cabra marcado para morrer” (1984), de Eduardo Coutinho.
Imagens do clássico, uma aula para gerações de documentaristas, é exibido no episódio, que também destaca filhas e netas de João Pedro e Elizabeth e o trabalho realizado no Memorial das Lutas Camponesas, na casa onde a família foi criada.
“Feliz ano velho” (1987), adaptação de Roberto Gervitz do romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva em torno do acidente que o deixou tetraplégico na juventude, é outro filme cujas imagens são recuperadas na série.
Obviamente o autor fala de “Ainda estou aqui”, o livro de cunho memorialista que trata da luta de sua mãe, Eunice Paiva, para descobrir o destino do marido desaparecido.
A série leva Marcelo a visitar o Memorial da Resistência, inaugurado em São Paulo em 2009 no prédio onde funcionou o antigo Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops/SP).
A importância dos espaços de memória é destacada também por artistas cearenses. Nascidos pós-ditadura, criaram o coletivo Aparecidos Políticos para dar voz à trajetória de antigos militantes.
Estádio Nacional do Chile
Ao contrário de Brasil e Argentina, o Chile teve uma figura central, o general Augusto Pinochet, em 17 anos de ditadura militar. O episódio dedicado àquele país percorre diversos lugares. Na zona rural do Paine, na Patagônia chilena, memorial foi criado para lembrar 70 trabalhadores mortos.
Já na capital Santiago a série encontra Manuel Méndez, ex-preso político que hoje é guia do memorial criado no Estádio Nacional. O local foi escolhido porque nos primeiros meses do regime de Pinochet o estádio foi usado como prisão improvisada, recebendo 40 mil pessoas – um terço dos detidos não tinha qualquer relação partidária.
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“FRONTEIRAS DA MEMÓRIA”
A série, com três episódios, estreia nesta terça-feira (24/3) no streaming CurtaOn. No canal Curta!, a estreia será em 10 de abril
