De dentro da nave, o cientista rebola, mostra o muque e faz uma dancinha. Uma criatura de pedra que vem lá de fora, do espaço sideral, imediatamente repete os movimentos. Nasce aí a amizade improvável que guia “Devoradores de estrelas”, novo filme protagonizado por Ryan Gosling.
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Ele interpreta Ryland Grace, professor de ciências que é levado a uma missão suicida no céu, a fim de encontrar um jeito de salvar o Sol da morte iminente. A certa altura, o homem se depara com um alien de corpo rochoso que apelida de Rocky, brincadeira com “rock” (pedra, em inglês). À deriva, eles criam uma relação inabalável e tentam descobrir como recuperar a energia que alimenta seus planetas.
Lançado nesta quinta (19/3), o filme põe Gosling para interpretar mais um herói meio abobado, o que parece ter virado a tônica de sua carreira. Fez isso no boneco Ken, em “Barbie”, e na comédia “O dublê” (2024).
Gosling aprendeu na marra a valorizar o bom humor quando, no começo, era censurado por se abrir ao cômico. “Fiz muitos filmes independentes e, sempre que algo engraçado acontecia, eles cortavam e diziam ‘vamos repetir’. Existia o sentimento de que coisas engraçadas não podem acontecer em meio ao drama”, diz ele.
O ator discorda dessa ideia e por isso topou “Devoradores de estrelas”. Quando leu o livro que inspirou o filme, enxergou ali potencial para fazer rir – e chorar também – exatamente o que diz almejar hoje no cinema. Sem estragar a surpresa da história, após as interações desengonçadas, humano e alienígena embarcam em uma jornada de sobrevivência mais grave, com entradas de flashbacks que revelam traumas e dores.
Gosling lança “Devoradores de estrelas” para reforçar seu status de astro do cinema blockbuster, muito distante dos filmes autorais que o puseram no centro da órbita nos anos 2000. Naquele momento, em início de carreira, ele era visto só como ator do circuito independente americano, ideal para personagens estranhos, deslocados, quebrados.
Sorte e tempo
“Tive a sorte de tudo acontecer de forma gradual”, diz. “Comecei nos programas de televisão, fiz filmes independentes e só depois os maiores. Tive tempo para me ajustar.”
Em 2007, por exemplo, foi indicado ao Oscar de melhor ator por “Half Nelson: Encurralados”, em que faz um professor viciado em crack. No mesmo ano, lançou “A garota ideal”, sobre um rapaz que se apaixona por uma boneca.
Gosling só decolou quando protagonizou “Drive” (2011), filme de ação que virou uma espécie de cult contemporâneo. Embora pouco fale no longa, o ator marcou o imaginário como o motorista caladão de jaqueta branca.
Cinco anos depois, veio “La la land” e, ao lado de Emma Stone, fez um casal apaixonante, em meio a cenários de Hollywood, que o tornou estrela de vez na Hollywood da vida real. O filme rendeu a ele mais uma indicação a Melhor Ator.
Em “Barbie”, Gosling mostra o peitoral e o tanquinho enquanto entoa as angústias do personagem que cansou de ser só um rostinho bonito em “I'm just Ken”. Virou uma das cenas mais comentadas do filme de Greta Gerwig, e levou o ator ao palco do Oscar num terno rosa para apresentar a canção. Gosling terminou a performance aplaudido de pé pela nata de Hollywood.
Talvez por causa desse jeito desinibido, Andy Weir tenha pensado que Gosling faria bem as palhaçadas do cientista de“Devoradores de estrelas”. Escritor do livro que inspirou o filme, Weir enviou ao ator uma prova antecipada da obra, antes de ela ser publicada, em 2021. O livro saiu no Brasil pela editora Suma.
Química fácil
Era importante que o ator conseguisse contracenar com uma pedra. O protagonista tinha de ser alguém de química fácil – o que Gosling aparentemente conseguiu rápido com Emma Stone, Margot Robbie e Emily Blunt. Tudo cooperou, então, para que ele ficasse com o papel principal.
Mas não há nada de romântico na relação entre Grace e Rocky, claro. Ela, na verdade, lembra o que Steven Spielberg fez em “E.T. - O Extraterrestre”.
Numa das cenas de “Devoradores de estrelas”, homem e alienígena aproximam os punhos – se é que dá para chamar pedra de punho – no que pode ser interpretado como uma alusão à cena em que o garoto Elliott toca nos dedos do colega de outro planeta.
Os diretores do filme, Phill Lord e Chris Miller, dizem que não estavam tentando imitar Spielberg, mas que acabaram viajando até o filme dele, sim, e que foi difícil evitar semelhanças. “‘E.T.’ foi o primeiro filme que me fez chorar”, diz Miller.
Rocky é mais fofo e espevitado que o alienígena de Spielberg, e age como um pet, com movimentos que lembram um cãozinho sapeca. Para dar forma ao personagem, a equipe construiu um animatrônico, pôs efeitos especiais por cima na hora da edição e ainda contratou um ator, James Ortiz, para que Gosling não precisasse forçar risos e choros diante de um objeto inanimado.
Os diretores dizem ter exigido que Ortiz interpretasse com ar de superioridade, emulando um cliente impaciente num restaurante, não alguém à espera de carinho. Talvez não tenha saído do jeito que eles esperavam.
Cargo de produtor
Além de protagonista, Ryan Gosling é produtor do longa. Ele diz que assumiu o cargo porque queria escolher a equipe, tipo de exigência que atores costumam passar a ter conforme a indústria dá mais moral a eles, algo que o ator chama de “evolução natural”.
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“Montar o time é essencial quando há a responsabilidade de adaptar um livro como esse”, diz. (Guilherme Luis)
