Nem adaptação ao pé da letra, nem mera apropriação de ideias. É assim que o diretor Marcio Abreu define “Sonho elétrico”, nova montagem da Companhia Brasileira de Teatro, que estreia nesta sexta-feira (6/3), no CCBB-BH, onde fica em cartaz até o próximo dia 30.
O espetáculo integra uma trilogia iniciada com “Ao vivo (dentro da cabeça de alguém)”, protagonizada por Renata Sorrah e apresentada em BH em abril do ano passado, que aborda o amor e a relação mãe e filho. A pesquisa terá continuidade com “História”, atualmente em processo de criação, com estreia prevista para junho e temática ainda não revelada.
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As três peças investigam a relação entre memória íntima e memória coletiva e como essas dimensões se atravessam e moldam a experiência do presente. Em “Sonho elétrico”, a reflexão se amplia para os sonhos e para a imaginação como forças concretas da vida.
Criado em diálogo com o neurocientista Sidarta Ribeiro, especialmente a partir de ideias do livro “Sonho manifesto”, o espetáculo parte de uma provocação feita pelo autor na obra: “Visto de cabeça para baixo, esse mundo torto pode ter jeito”. No livro, Sidarta defende a urgência de imaginar coletivamente outros caminhos possíveis para o planeta.
“É uma peça que pensa como a memória, o sonho e a imaginação podem ser entendidos como perspectivas da vida, e não como algo fora dela”, afirma Abreu. “Geralmente tratamos o sonho e a imaginação como dimensões que não interferem na vida concreta. Mas existem muitas cosmovisões que entendem isso como parte essencial da existência. Essa perspectiva, desenvolvida de várias maneiras pelo Sidarta, está muito presente na peça.”
Show e bis
A encenação começa no fim do show de uma banda, no momento do bis. Para o diretor, é uma provocação sobre recomeço e responsabilidade coletiva. Será que temos mais uma chance como humanidade? Vamos nos dar outra oportunidade de olhar para o mundo e para a vida de uma maneira diferente?
Depois do show, os músicos saem para a rua, e pequenos acontecimentos urbanos se encadeiam em sequência. Uma manifestação, um assalto, alguém que se joga de um prédio, casais que se separam, pessoas que se encontram. Em meio a uma tempestade, uma das integrantes da banda é atingida por um raio e entra em coma.
A partir daí, a peça mergulha em uma jornada onírica. A segunda parte acompanha o que pode se passar na mente dessa personagem, enquanto ela revisita a própria vida e os amigos tentam, do lado de fora, estimular sua memória. Na terceira parte, o público descobre se ela desperta ou não.
O elenco mudou desde a estreia, com as saídas de Jesuíta Barbosa e Cleomacio Inácio. A montagem reúne artistas de diferentes regiões do país, entre eles os mineiros Idylla Silmarovi, de Contagem, e Cris Meirelles, radicado em São Paulo, além de Jessyca Meyreles, do Rio de Janeiro, e Verónica Valenttino, do Ceará.
Piano ao vivo
A música tem papel central na dramaturgia. Há piano ao vivo e trilha sonora assinada em parceria com Felipe Storino. A cantora e compositora Juliana Linhares integra a equipe criativa e assina duas canções do espetáculo. A terceira música é de Juliano Holanda. “O próprio texto tem uma dimensão sonora muito forte, justamente por causa desse chamado ao sensível que a peça propõe”, diz Marcio Abreu.
Sidarta Ribeiro participou de três encontros promovidos pelo projeto, contribuindo para o processo de pesquisa da companhia. Mais do que transpor para o palco os conteúdos do livro, o que despertou seu interesse foi o modo de pensar e a linguagem adotada pelo autor.
“Ele é um exemplo, entre muitos artistas e pensadores contemporâneos com quem dialogo, que imaginam possibilidades de vida em um mundo tão violento, complexo e cheio de desafios para a manutenção da vida”, afirma o diretor.
Dentro da perspectiva de imaginar futuros possíveis, Marcio Abreu diz que o teatro, por excelência espaço de encontro, é importante para provocar novas formas de perceber o mundo. “É uma experiência ao vivo, presencial, em que as pessoas estão juntas, mas com liberdade para imaginar à sua maneira. O teatro não é um lugar de mensagem única. É um espaço para viver o que ainda não conhecemos, olhar para o mundo e para nós mesmos de outro jeito, provocar sensibilidades, reflexões e também diversão.”
Neste ano, a Companhia Brasileira de Teatro completa 26 anos. A trilogia marca a celebração de uma trajetória contínua de criação e circulação pelo país. Só “Ao vivo” já foi visto por mais de 50 mil espectadores no Brasil. “É a celebração de um trabalho construído ao longo do tempo, do encontro com muitos artistas e da possibilidade de seguir se deslocando pelo país, em diálogo com públicos diversos”, afirma Abreu.
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“SONHO ELÉTRICO”
Espetáculo da Companhia Brasileira de Teatro. Estreia nesta sexta (6/3), no Teatro I do CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450 - Funcionários). Temporada até 30/3, com sessões de sexta a segunda, sempre às 20h. Ingressos disponíveis no site do centro cultural e na bilheteria, a R$30 (inteira) e R$15 (meia).
