A crise dos refugiados está no cerne de “O caso dos estrangeiros”, em cartaz no Cine Pátio Savassi. Mas o tratamento que Brandt Andersen dá a seu primeiro longa-metragem é de thriller, ainda que as histórias sejam carregadas de lances dramáticos.

A câmera sobrevoa o skyline de Chicago, com a Trump Tower convenientemente no centro da panorâmica, até chegar a um hospital. Ali, Amira (Yasmine Al Massri) observa um exame de imagem até ser interrompida por seu próprio telefone, avisando que é o dia do aniversário dela.

A ação retrocede oito anos e a coloca em Aleppo, durante a Guerra da Síria. Na urgência de um hospital em pedaços, a médica Amira faz o possível para dar conta dos feridos, independentemente do lado de cada um no conflito.

Terminado o turno, ela busca a filha adolescente Rasha (Massa Daoud) para comemorar seu aniversário em casa, com a família. Em meio à celebração, uma bomba destrói a residência.

“O caso dos estrangeiros” é aberto com um texto atribuído a William Shakespeare sobre a desumanidade com que os imigrantes são tratados. “Sir Thomas More” é inspirado em eventos ocorridos em Londres, no início do século 16, quando tumultos eclodiram na cidade diante da chegada de trabalhadores de outros países.

Lançado no Festival de Berlim de 2024, o filme nasceu do único curta dirigido por Andersen, “Refugee” (2020), também com Omar Sy e Yasmine All Massri. Produtor de projetos de Tom Cruise (“Feito na América”) e Martin Scorsese (“Silêncio”), ele é também ativista.

Criado por missionários americanos, Andersen trabalhou com agências humanitárias, documentou as condições de vida em campos de refugiados na Turquia, Grécia e Itália. Também esteve em Aleppo. O longa foi rodado na Jordânia, Turquia e nos EUA, com as sequências do hospital em Chicago.

O filme é o primeiro longa internacional distribuído pela Angel Studios, com sede em Utah, empresa que realiza projetos via financiamento coletivo, com mais de 1 milhão de membros, mundo afora. O mais conhecido deles é a série “The chosen”, sobre a vida de Jesus Cristo.

Apartir da destruição em Aleppo, mãe e filha têm de fugir. Em sua jornada, que atravessa quatro países – Síria, Turquia, Grécia e EUA –, Amira se depara com personagens tão atormentados quanto ela: o soldado Mustafa (Yahya Mahaynil), o traficante de gente Marwan (Omar Sy), o refugiado Fathi (Ziad Bakri) e o capitão da marinha costeira grega Stavros (Constantine Markoulakis).

O filme entrelaça as histórias dessas pessoas em cinco capítulos, cada um trazendo a perspectiva de um personagem. A grande jogada é a montagem: cada episódio termina em suspense. Não um suspense qualquer, mas um trauma que tensiona o espectador à máxima voltagem. No epílogo, a costura bem-feita explica tudo o que havia ficado em aberto.

O contrabandista Marwan é vivido por Omar Sy, o ator mais conhecido do filme 'O caso dos refugiados'

Paris Filmes/divulgação

Mesmo diante dos sobressaltos, há a tentativa de melodrama. Andersen se esforça para levar o público às lágrimas, em especial com a inserção de crianças em situações de perigo. Uma das histórias traz uma garotinha se despedindo de seu cachorro no campo de refugiados.

O epílogo é um arremate bem-feito, mas o diretor parece tão preocupado em criar tensão que não oferece perspectiva inovadora diante da crise dos refugiados. A Trump Tower do início do filme, que poderia indicar uma discussão maior em torno das pesadas políticas de xenofobia do atual mandatário dos EUA, nunca retorna à história.

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“O CASO DOS ESTRANGEIROS”

(Jordânia/Palestina/EUA, 2024, 104min.) De Brandt Andersen, com Omar Sy e Yasmine Al Massri. O filme está em cartaz no Pátio 8: nesta terça (3/3), às 18h40 e 21h10; quarta-feira (4/3), às 16h35 e 21h35.

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