"O jogo não pode ficar chato", diz Emanuel Carneiro, veterano dos estádios
Empresário, jornalista e comentarista defende a revisão de 'conceitos atuais' do futebol, como o VAR, em entrevista ao programa 'EM Minas'
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Emanuel Carneiro dedicou 65 anos de sua vida ao futebol. Convidado do programa “EM Minas”, exibido no último sábado (7/3) pela TV Alterosa e Portal UAI, ele lembrou sua trajetória na Rádio Itatiaia, a paixão pelo Atlético e momentos pitorescos da cobertura esportiva. Carneiro acaba de lançar o livro “No ar”, no qual também analisa o momento atual do esporte. O experiente comentarista adverte: o excesso de interrupções demandadas pelo VAR tem comprometido o espetáculo da bola.
“No ar” surgiu do pedido de ouvintes, que queriam mais histórias como aquelas contadas no seu programa de rádio “Turma do bate-bola”. Como foi escrever esse livro?
É um depoimento pessoal, com fatos que vivi durante os anos e anos em que estive na Rádio Itatiaia como repórter, operador de som, plantão esportivo, vice-presidente e depois até como presidente. Uma história longa. Quando passei o comando da rádio, em maio de 2021, sempre me perguntavam: Como era isso na Itatiaia? Como foi aquela cobertura da Copa? Como foi o período do regime militar?”. Fui juntando as histórias com minha mulher, Ilma Araújo. Estávamos fazendo uma viagem de carro pela Espanha, ela pegou uma caderneta e começou a anotar. Época maravilhosa da qual só guardo boas lembranças. Peguei o que precisava de esclarecimento definitivo, da assinatura embaixo para dizer: ‘Foi assim mesmo que eu vivi, e posso testemunhar’.
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Foram 65 anos, não é? O senhor tinha um programa de futebol. No livro, há algo curioso sobre como surgiu essa paixão, inclusive pelo Clube Atlético Mineiro.
Em 1950, eu tinha de 7 para 8 anos. O Atlético foi fazer uma excursão na Europa, primeiro clube brasileiro a visitar a Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Não sei por que, a excursão foi marcada para o final de novembro, quando já era período de inverno. O Atlético jogou em alguns campos em que o gramado estava branco de neve.
Vem daí o termo Campeões do Gelo?
Exatamente. É um título simbólico, não teve taça. Quando a excursão caminhava para o final, da noite para o dia, o empresário, sumiu com as passagens de volta. O Atlético ficou completamente perdido na Europa, sem recursos. Em Belo Horizonte, houve uma comoção. Minha mãe, costureira no Bairro Serra, tinha uma vizinha chamada Augusta, atleticana. Mulher no futebol era uma raridade antigamente. Ela resolveu ir lá em casa, família católica. Minha mãe resolveu fazer novena para o Atlético voltar. Todo dia tinha terço. Elas me chamavam: ‘Manuelzinho, vem aqui rezar o terço para o Atlético’. Logo depois que a novena terminou, o governador de Minas, Milton Campos, mandou as passagens para o Atlético. O time chegou a Belo Horizonte, gloriosamente, como Campeão do Gelo. Aquilo ficou marcado na minha cabeça. A história resumida da novena é esta.
O atleticano nasceu por conta da novena?
É, mas paixão, na verdade, não sei se tive ou se tenho. Depois de algum tempo, passei a ser jornalista esportivo, a comandar a Itatiaia, e a imparcialidade era a regra número um. Sempre dizia para um repórter, um locutor que estava chegando, que ele podia ter clube do coração, mas a imparcialidade deve existir o tempo todo. Convivi muito bem com isso. Tive a virtude de não trocar, em momento algum, a função de locutor pela de torcedor. Isso é imperdoável no jornalista esportivo.
O senhor sente saudade do microfone, da “Turma do bate-bola”?
Sim, foi um tempo muito bom, época dourada. Adoro futebol. Desde menino, assistia aos jogos amadores no Carlos Prates: Juventus e Vasco da Gama, Santanense e Tremedal. Depois, acompanhando meu irmão Januário Carneiro, o fundador da rádio, ia para os estádios. Às vezes, entrava no vestiário, via os jogadores. Tinha aquele cheiro de éter, porque o massagista fazia massagem com éter.
Até o cheirinho veio à memória...
Sinto saudade, mas estou vendo que o futebol precisa trocar alguns conceitos atuais, porque o jogo não pode ficar chato, como tem acontecido algumas vezes. Jogo parado, para decidir um lance de impedimento. Futebol é um esporte que permite contato. Hoje, você vê um jogador trombar, ele põe a mão no rosto e rola como se tivesse sido atropelado por uma carreta.
O VAR veio para mostrar esse tipo de coisa...
Mas até que o VAR venha, (o jogo) fica parado, com o jogador fazendo gesto de cachorro atropelado, como diria Nelson Rodrigues. Sei que existem até novos equipamentos, que podem ser introduzidos no Brasil a qualquer momento para a coisa ficar automática nas decisões fundamentais. Mas por enquanto...
O senhor acha que atrapalha, então.
O futebol precisa resgatar sua intimidade com o torcedor. Ele precisa ir aos treinamentos de vez em quando, frequentar o seu clube. A imprensa precisa acompanhar mais de perto. Você não fica sabendo quando o jogador está contundido, qual é a previsão de retorno. O futebol ficou muito restrito. Na porta dos centros de treinamento, os repórteres esperam a oportunidade de ver um jogador chegar no carro dele. Não tem nenhuma informação pertinente naquilo.
Ficou tudo meio secreto ali...
Exatamente. Isso, às vezes, permite conjecturas, adivinhações, o que não é bom para a credibilidade da imprensa esportiva. Essa restrição é injusta e ingrata. Se vai estrear um jogador importante, o treinador não informa para a imprensa se vai ter ou não esse jogador. Se eu vou ao Palácio das Artes assistir ao Caetano Veloso, sei que o Caetano estará presente, sei qual é o estilo do show, sei as músicas que ele vai tocar. No futebol tinha de ser a mesma coisa.
Em uma de suas coberturas, o torcedor ficou chamando, o senhor foi até ele, que pediu um punhadinho de grama e comeu. Ainda existe torcedor com esse nível de fanatismo?
Muitos. Quis destacar no livro a paixão entre o torcedor e o clube, como o torcedor se identifica com os ídolos, como ele adora jogadores que marcaram uma época. Você vai hoje na Arena MRV, parece que o Reinaldo vai entrar em campo dali a pouco, porque a torcida fica gritando ‘Rei, Rei, Rei’. Isso é muito bom. Nos idos de 1968, tinha 12 anos que o Corinthians não ganhava do Santos. Tomava de quatro, cinco, seis, todo dia. Até que o Corinthians resolveu fazer um time de grandes jogadores e contratou, aqui em Belo Horizonte, o Buião. No Rio de Janeiro, contratou o Paulo Borges. Renovou contrato com o Rivelino, contratou um ex-técnico do Santos, o Lula. Foi ele o criador do time do Santos, com Pelé, Coutinho, Pepe. Então, o Pacaembu estava lotado, 45 mil pessoas...
Estreia do Buião?
Estreia do Buião, e a Itatiaia transmitiu. Fomos eu, Vilibaldo Alves e Oswaldo Faria, infelizmente já falecidos. O jogo terminou 2 a 0 para o Corinthians, uma loucura no estádio. De repente, um torcedor pediu para pegar grama para ele. Arranquei um tufo com terra e tudo, fui até a cerca do Pacaembu, ele pegou aquilo e comeu. E falou: “Jurei que no dia em que o Corinthians ganhasse do Santos, eu ia comer grama com terra e tudo”. Aquilo me impressionou. No livro, eu quis destacar isso, a paixão do torcedor.
Onde é que a gente pode encontrar o seu livro, “No ar”?
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Na (livraria) Leitura. Daqui a alguns dias, porque a gráfica pediu um pequeno prazo.