Carlos Pertkold *

Especial para o EM


O quadro que ilustra este artigo é um autorretrato de Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), sem data, mas pela aparência física é de 1960/62, quando o artista contava com 64/66 anos. Parecia mais velho, como todas as pessoas de sua geração nesta idade comparadas às atuais com os mesmos anos vividos. As vicissitudes da vida, em geral, eram piores, então, vivia-se menos. Estamos celebrando seus 130 anos de nascimento em fevereiro de 2026. Morreu aos 66 anos, em 1962. Cedo demais, como tantos pintores seus contemporâneos.


Marcelo Bortoloti, na biografia “Anjo mutilado” (Companhia das Letras), relata que no período vivido na Europa com a mãe e o detestado padrasto, Guignard viveu uma vida burguesa com os três, hospedando-se em hotéis caros, gastando o dinheiro recebido do seguro de vida do pai e ainda os aluguéis de imóveis herdados e locados no Centro do Rio de Janeiro.


Vivendo na Europa e talvez a desconhecer os problemas sociais do país, não há pinturas com conteúdo social em seu acervo, cujo ápice desse tema é a fase dos Fuzileiros Navais. Assim, suas dificuldades objetivas e financeiras e o envelhecimento precoce começaram quando ele retorna da Europa para o Brasil em 1929, surpreendendo-se com a ausência de pinturas modernas e reconhecendo apenas Ismael Nery como brilhante pintor.

Neste autorretrato, seu rosto parece de um homem interrogativo frente à vida que passou tão rápida, alguém que, apesar de ter sido criança e jovem abastado, sempre carregou a dificuldade congênita do lábio leporino que o impedia, desde a mais tenra infância, de se alimentar como outros rebentos, algo que levou sua mãe, dona Leonor, a profunda angústia.


Essa dificuldade não foi somente naqueles anos iniciais, mas durante toda a juventude e vida adulta. Acanhado, sempre pedia desculpas pelo defeito. “Nasci assim. Não é culpa minha”, relatou a alguns amigos que o recebiam em casa para jantares. Guignard projetava em alguns retratados o seu lábio leporino, a demonstrar o quanto o defeito lhe incomodava.

Seus amigos de coração foram Geraldo Andrada, Pedro Aleixo e esposa, Lucia e Joaquim Machado de Almeida, Helena e Santiago Americano Freire, Celina e Hélio Hermeto e Priscila Freire. Alguns tão amorosos que até o receberam em casa para morar, caso de dona Helena e doutor Santiago, que o hospedaram durante sete anos no Bairro da Serra, em Belo Horizonte.


Pedro Aleixo lhe ofereceu sua casa em Ouro Preto; outros eram preocupados com seu futuro por ser portador de diagnósticos de alcoólatra e diabetes (adorava arroz-doce), mas certos de seu sucesso como artista, então já consagrado.


O autorretrato traz ainda o reconhecimento de sua aparente velhice no corpo cansado, a cabeça calva, olhar e rosto com certas perplexidades. Ele é alguém que, pelos olhos, faz a pergunta de todo grande artista: serei reconhecido e imortal?


Neste e em outros retratos, encomendados ou não, ele pintou em segundo plano cenas ilustradas com Ouro Preto, cidade que amava, e de pintor que tinha força e talento para produzir quadros de beleza eterna. Suas pinturas são como textos ou poemas de escritores brilhantes cujas obras são imortais.


No quadro, ele faz nova declaração de amor a Vila Rica, como se os dois fossem um casal comemorando bodas de algum metal precioso com aquela que foi seu amor à primeira vista. Nele, há uma Ouro Preto cheia de cores e com luz própria, coberta por belo céu, que eram, junto da transparência em certas obras, suas marcas registradas. Ele próprio relatava que, quando viu a cidade pela primeira vez, disse para amigos: “Procurei por isso a minha vida”.


“Isso” era uma espécie de mulher idealizada. Quando a encontrou, concreta e objetiva, apaixonou-se e se pôs a seus pés, assegurando-lhe que jamais a abandonaria e a imortalizaria em seus trabalhos em aquarela ou óleo. Como no retrato de Dorian Gray, ele envelheceria e ela continuaria com sua beleza eterna. Neste ano, Vila Rica e o Brasil sentem sua ausência desde 1962, mas se regozijam por seu aniversário.

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* Carlos Pertkold é psicanalista e crítico de arte. Integra o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG) e as associações Brasileira e Internacional de Críticos de Arte – ABCA e AICA

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